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Coronavírus, vacinas, ciência e capitalismo

Imagem: @flaviagregorutti

Coronavírus, vacinas, ciência e capitalismo

John Parrington é professor e pesquisador no departamento de Farmacologia do Worcester College na Universidade de Oxford. Escreveu vários livros, entre eles Redesigning life: how genome editing will transform the world [Redesenhando a vida: como a edição genética transformará o mundo, em 2014], The deeper genome: why there is more to the human genome than meets the eye [O genoma profundo: porque há mais no genoma humano do que as aparências mostram, 2015] e Mind shift: how culture transformed the human brain [Mudança na mente: como a cultura transformou o cérebro humano], onde coloca uma visão superadora do reducionismo biologicista tomando os aportes de Lev Vygotski, que será publicada no ano que vem. Como investigador, se dedica a estudar os mecanismos moleculares de reprodução e embriogênese, assim como aspectos de marcação celular importantes para a farmacologia. Também é militante do Socialist Workers Party inglês. Em um ano marcado pela pandemia de Covid-19 e uma corrida por vacinas e tratamentos que expuseram os interesses da indústria da saúde e farmacologia, tivemos uma rica conversa sobre vacinas, a indústria farmacêutica e o capitalismo, os reducionismos na ciência e o aporte de um enfoque dialético e a situação dos trabalhadores da ciência. Disponibilizamos ao final a entrevista completa em espanhol, e a seguir uma seleção escrita, em português.

Bom, para começar, sobre a indústria farmacêutica. Quais são as características estruturais desta indústria no capitalismo e como vêm se expressando durante a pandemia nesta corrida econômica e geopolítica que estamos presenciando?

Obviamente temos que olhar para a indústria farmacêutica desde dois pontos de vista: O que faz com que a indústria tente produzir novas remédios, tratamentos e diagnósticos que ajudam a diagnosticar e curar doenças? Creio – obviamente – que produzi-las é um interesse central da indústria, mas o fato de que esta indústria esteja dentro do capitalismo tem um grande impacto. Dado que o capitalismo se trata da busca de lucro, isto significa que, em última instância, a indústria farmacêutica seja para a geração de lucro. Seja mediante produtos que tenham utilidade ou não, ao final do dia tudo se trata de gerar lucro. E creio que estes são dois aspectos importantes para pensar a questão, porque que às vezes temos uma visão polarizada na qual, por um lado, tudo o que a indústria faz é bom – algo bastante comum na mídia –, pois produzem remédios e diagnósticos. E depois muitas vezes temos desde a esquerda um rechaço total, com a ideia de que não há nada bom na indústria farmacêutica, de que é basicamente uma indústria malvada, que só se trata de drogar as pessoas, que todos os remédios são inúteis e nada funciona. E essa tampouco é uma visão adequada. Não é a forma em que, por exemplo, Marx e Engels analisaram as coisas no Manifesto Comunista. Eles começaram o Manifesto assinalando as coisas maravilhosas que haviam sido feitas no capitalismo, antes de falar das críticas ao sistema mesmo e de porque deveria ser derrubado e substituído por outro. E creio que isto é muito relevante para a indústria farmacêutica, porque basta olhar alguns dos avanços que foram feitos em medicina no último século: antibióticos, vacinas, todas as coisas que já damos por garantidas, como remédios para a pressão ou diabetes, por exemplo, são todos produtos importantes.

Mas ao mesmo tempo, dado que a indústria farmacêutica está dirigida ao lucro, há uma competição massiva, há um monte de empresas competindo pelos mesmos produtos, o que é um desperdício de recursos. Às vezes há pesquisas detidas por leis de patentes inúteis, e o fato de que existam está ligado ao capitalismo. E também há o fato de que há um desincentivo a produzir remédios que não geram grandes lucros. Há muito menos tentativas de produzir vacinas e tratamentos para os países menos desenvolvidos, como por exemplo para tratar a AIDS ou o sarampo.

Da mesma maneira poderíamos voltar ao que dizíamos [antes de começar a entrevista, sobre seu último livro, centrado em uma síntese superadora do reducionismo biologicista das neurociências tomando o enfoque de Lev Vygotski – Nota do Entrevistador] sobre a mente, e o fato pelo qual eu me interessei em como funciona a mente humana. Dado que a indústria farmacêutica está baseada nos descobrimentos e o conhecimento científico sobre como funciona o corpo, o fato de que a ciência mesma no capitalismo está distorcida e em particular a respeito de como funciona a mente, isto teve um impacto na medicina. Assim, por exemplo, ainda que alguns dos remédios usados para tratar a esquizofrenia ou a depressão funcionam (ainda que somente até certo ponto), há muitíssimos problemas. Minha irmã morreu de depressão clínica, se suicidou, e isto foi em parte porque os remédios que estavam dando a ela não tinham nenhum tipo de efeito. E é um grande problema, os remédios simplesmente não funcionam. Penso que é o outro lado disto: há muitos remédios no mercado que não são bons, mas seguem dando lucros e seguem sendo produzidos. Em parte, os desenvolvimentos científicos ficam de lado porque há muito dinheiro a ganhar com os remédios existentes. Isto tem um impacto no modo como as farmacêuticas funcionam no capitalismo.

Voltando à pandemia de Covid, uma coisa que estamos vendo é que há uma tendência de muito curto prazo na indústria, que busca fazer os maiores lucros no prazo mais curto de tempo. Isto significou que apesar de que tivemos SARS e depois MERS, não houve uma sequência lógica de produção de vacinas e remédios que poderiam ter sido usados para tratar a Covid. No lugar disso, quase tivemos que começar do zero. O problema da indústria é não pensar em objetivos a longo prazo mas sim na busca de lucros no curto prazo.

Por que você diz que é errôneo fazer toda a situação da saúde passar somente por uma vacina? Você pode nos contar como funcionam e se vê algum interrogante sobre as vacinas de nova geração? Pensa que poderia haver algum problema em utilizá-las sem passar pelas diferentes fases de ensaios clínicos?

Creio que temos que olhar o êxito que as vacinas tiveram no passado. Desde que a primeira vacina contra a varíola que foi desenvolvida na Inglaterra...vimos a vacina contra o sarampo... e todo tipo de doenças que eram grandes problemas no mundo – e seguem sendo no mundo subdesenvolvido. Claramente, as vacinas são ferramentas muito poderosas para combater os vírus. Meu contraponto com que tudo esteja orientado somente em uma estratégia de tratar de fazer uma vacina estava mais baseado na ideia de que há um monte de problemas potenciais com as vacinas. Bom, como mostra o fato de que nunca tivemos uma vacina exitosa para o HIV.

Agora, as coisas poderiam ser bastante diferentes com o Sars-Cov-2 porque parece relativamente estável (ainda que é um vírus de RNA que em geral é menos estável, como o HIV e os coronavírus de gripe). Parece mais estável que aqueles e por isso há mais chances de que uma vacina funcione, mas há muito desconhecido ainda.

Uma coisa que creio que realmente transformou o desenvolvimento das vacinas nas últimas décadas foi a capacidade de copiar e pegar genes no laboratório, e isto significou que é possível fazer estas assim chamadas vacinas recombinantes, com as quais você pode expressar uma proteína de um vírus em uma vacina e depois usá-la para injetar dentro de um organismo sobre o qual quer usar a vacina (em um coelho ou o que seja). E desde então houve abordagens baseadas em injetar diretamente o DNA ou RNA em uma pessoa. Neste sentido, você está esperando que esta sequência genética possa depois se traduzir em proteínas como fonte de antígenos para vacinas. Isto teve um grande impacto em nossa capacidade para produzir vacinas em um tempo mais curto, e creio que o fato de que haja diferentes vias de fazê-las é algo positivo. Uma coisa que está relacionada com isto é a velocidade: queremos a vacina o mais rápido possível.

Mas o fato é que em certas circunstâncias parece que houve o que parece ser o salto do reconhecimento dos estudos e etapas de segurança. Tem sentido fazê-los inicialmente utilizando animais para testá-las, e isto é todo um tema: algumas pessoas estão pelos direitos dos animais e dizem “por que os utilizam?”. E eu lhes diria: “bem, se você não quer milhões de pessoas expostas a algo que poderia não funcionar ou ser perigoso, então está justificado usar animais”. E o fato é que ao redor do mundo parecem estar saltando algumas das etapas. Por exemplo, na Rússia aparentemente tinham aprovado sem testar apropriadamente em animais. Até certo ponto, com a vacina de Oxford houve certo salto das etapas normais de desenvolvimento e creio que isto é importante porque é comum as pessoas assumirem que se produz uma vacina e funciona ou não. E bem, é comum que não funcione e isso é um problema por si só.

Mas o outro problema é que às vezes, talvez em uma proporção de casos bastante menor, mas que acontece, a vacina pode ser pior. Às vezes você injeta uma pessoa com a vacina e isto pode fazer com que a infecção viral piore e inclusive levar a um dano hepático e todo tipo de problemas e isto se viu com vacinas passadas. Por isso tem completo sentido fazer uma testagem rigorosa em uma variedade ou diferentes espécies de animais. Agora, o tema da testagem destas vacinas durante as provas clínicas, digamos, na Argentina ou em outras partes da América do Sul, que creio que é o que estão fazendo nestes momentos, é pelo problema que você tem se se produz uma vacina e o vírus praticamente desaparece da população, o que torna muito difícil testar quanto é efetiva, e por isso tem sentido testá-la em um área onde está se dando uma subido no número de casos. Mas, por outro lado, se poderia argumentar que se está testando em uma população na qual pode haver todo tipo de razões políticas e sociais pelas quais os governos o fazem, o que vai completamente contra o direito das pessoas a ter um tratamento justo. Por que os argentinos e argentinas teriam que se submeter a uma vacina que pode não ser tão efetiva ou inclusive perigosa, quando não se espera que façam isso na Inglaterra, por exemplo.

Creio que temos que pensar na vacina como em qualquer remédio, no sentido de que um remédio se supõe que deve ser o mais específico e efetivo possível, mas todo remédio tem seus efeitos colaterais até certo ponto e neste sentido as vacinas não são diferentes. As vacinas originalmente eram de um vírus vivo. Na varíola, por exemplo, se usava o vírus da varíola bovina em vez da varíola porque era um tipo de vírus menos agressivo. Desde então, por um longo tempo o que se fez foi desativar um vírus e injetar isso. Mas isso é bastante perigoso em certa medida, porque claro que você sempre tem que se preocupar com a possibilidade de que o vírus se reative. Então há riscos com a utilização destes métodos tradicionais.

Se estamos contrapondo as estratégias genéticas, seja usando proteínas recombinantes ou uma sequência genética que corresponda a essa proteína, em geral, para mim essa parece uma abordagem segura, porque em vez de ter a totalidade do vírus você simplesmente tem uma parte dele, e não há forma de que possa se reconstituir. Assim, penso que em geral deveríamos dar as boas-vindas a estes métodos recombinantes, em particular quando se purifica a proteína e se injeta. Agora, os métodos mais recentes, onde se injeta um material genético correspondente a uma parte do vírus. Eu creio... bom, não sou um especialista nisto para dizer muito sobre os riscos potenciais mas obviamente, ao introduzir qualquer coisa como material genético em uma pessoa você tem que ter cuidado com que isso possa acabar mal. Creio que uma das coisas que motiva o movimento antivacinas está baseada simplesmente em argumentos falsos. Tivemos um grande medo com a vacina MMR [tríplice viral], que se usa para prevenir o sarampo, a caxumba e a rubéola em crianças, e a evidência de que estivesse associada ao autismo não nada boa. Realmente estava baseada em um estudo muito defeituoso e que foi pessimamente apresentado pela mídia. Creio que na realidade temos que ter os dados a nossa disposição e dizer “me desculpe, mas essa afirmação não se sustenta”, assim como a que afirma que o 5G e a internet estão adoecendo as pessoas de alguma maneira. São afirmações ridículas e burras.

Mas isso não quer dizer que tenhamos que ignorar possíveis efeitos colaterais. Como você dizia recentemente, ter um enfoque não reducionista significa estar sempre atento às formas sutis nas quais qualquer tipo de remédio pode ter efeitos indesejados no corpo, e isso deveria ser também assim para qualquer vacina. Eu creio que depois você tem que contrapesar os possíveis riscos com o fato de que isto vai ter um grande impacto. Quero dizer, como a vacina tríplice viral (MMR): o sarampo no mundo subdesenvolvido ainda é causa de uma grande mortalidade e o fato de que já não o tenhamos no mundo desenvolvido é um grande passo adiante. Assim, hoje se houvesse riscos com a vacina tríplice viral teríamos que contrapesá-los contra o fato de que não temos sarampo, caxumba ou rubéola, que foram grandes problemas no passado.

Como você vê a situação da crise sanitária, econômica e ecológica que o coronavírus abre e a situação dos trabalhadores a nível mundial?

Aqui é onde é decisivo ter uma visão global da situação. Porque em certo sentido, o Sars-Cov-2 não é o vírus mais perigoso que anda dando voltas: 50 milhões de pessoas morrem a cada ano por outras doenças infecciosas, muitas delas nos países não desenvolvidos, o que é normalmente ignorado. É uma coisa importante. Se tivéssemos atuado com firmeza desde o começo e freado a propagação do Sars-Cov-2, as coisas teriam sido muito diferentes. Mas creio que devemos apontar o fato de que não há realmente boas razões pelas quais se tenha permitido a este vírus ter o impacto que teve para a maioria das pessoas. Não é nem sequer um vírus particularmente perigoso. Quero dizer, isto varia bastante segundo todo tipo de fatores, como estamos descobrindo, mas em geral não é um vírus muito perigoso. Mas o fato de que seja potencialmente letal para uma minoria substancial obviamente é um grande problema.

Como socialistas, como críticos do capitalismo, é muito importante que reconheçamos quando as medidas que os governos estão tendo são boas e úteis e deixemos claro que são necessárias. Mas também criticar quando não são tão boas e quando, por exemplo, levantam a quarentena muito cedo ou quando querem enviar as crianças à escola muito cedo, todas essas coisas creio que podemos criticá-las desde um ponto de vista científico. Porque qual é o objetivo de ter uma quarentena com um impacto enorme na vida das pessoas, sua saúde mental e tudo mais, se depois vão voltar atrás rapidamente com a quarentena? Não tem sentido. E podemos ver os sinais de perigo quando olhamos para a Espanha, que já voltou a ter os níveis iniciais de infecção que tinha no pico da primeira onda e esse é um grande problema. E o estranho é que por agora isto parece não estar tendo efeitos na taxa de letalidade. As pessoas mais jovens parecem ser as principais infectadas e possivelmente não vai ter os mesmos efeitos em termos de taxa de letalidade...mas quem sabe, ainda é cedo demais para começar a dizer que as pessoas mais velhas eventualmente não vão se infectar e não será tão ruim quanto a primeira vez. Assim, creio que é uma espécie de advertência para a gente, por exemplo na Inglaterra, onde no momento o número de infecções é relativamente baixo. E creio que temos que dizer que é a única maneira de que podemos na realidade manter isso sob controle, na ausência da vacina.

E deveria dizer, certamente, que nunca respondi totalmente a última pregunta, que era sobre remédios X vacinas porque meu ponto de vista... Digo, talvez é porque eu trabalho em uma proteína que está implicada em como o SARS entra na célula e temos uma boa razão para pensar que isso poderia ser útil para uma desenvolver um remédio [e um tratamento]. Talvez sejam somente uvas verdes porque obtivemos o financiamento para estudá-lo... Mas creio que mostra como, em certo modo, contar somente com uma estratégia de um único caminho, a vacina ou nada, é um problema, porque os remédios também podem ser utilizados de maneiras efetivas e esse foi definitivamente o caso com o HIV.

Assim, voltando ao tema mais amplo sobre o que estávamos falando, na ausência de uma vacina efetiva ou droga que possa salvar vidas, temos um problema que é o de tratar de conter o vírus simplesmente mediante a restrição de movimentos e impossibilitando o contágio entre as pessoas. E por isto é que creio que temos que criticar as medidas do governo que são insuficientes, forçando as pessoas a voltarem a seus trabalhos. Eu creio que se os empregadores dissessem “sinto muito mas você tem que voltar ao trabalho” – o que está acontecendo inclusive com a quarentena, dado que as pessoas estão tão afetadas pela crise que simplesmente não podem sobreviver sem trabalhar e quando o governo na Inglaterra fala de remover o salário de quarentena –, poderia ser desastroso. Não somente pelas condições de vida dos trabalhadores, dado que de repente, sem trabalhar, ficariam sem poder se manter, mas também porque isto forçaria as pessoas a voltarem ao trabalho e deixar de lado os cuidados. Assim, penso que por todos os meios temos que tratar de ser críticos quando o governo falha em tomar o tipo de medidas que deveriam tomar em termos de saúde e ciência.

Dito isto, podemos ver partes do mundo em desenvolvimento como a África ou a Índia onde o catastrófico não é só o vírus senão as quarentenas, que são catastróficas para os trabalhadores. E não só na África, olhemos para o sul da Itália: o efeito aí para uma população já empobrecida, o turismo e o intercâmbio comercial se paralisou com um impacto enorme na saúde mental das pessoas ainda em sua capacidade para alimentar-se. E devemos tomar nota do fato de que em certos países há trabalhadores que inclusive querem voltar ao trabalho porque não podem sobreviver sem trabalhar e ser sensíveis ao fato de que em nestas condições não é tão fácil dizer: “você tem que aguentar o confinamento”. Creio que em Gana realmente só a classe média eram os que mais podiam continuar com o isolamento; de fato foram os sindicatos que impulsionaram uma volta ao trabalho porque estava tendo um impacto muito grande na vida das pessoas.

É bastante fácil para mim, sendo professor em Oxford, de classe média, sentir que, como todos, o isolamento foi esgotante e ir para Portugal (de onde é minha esposa, este ano não o fizemos) mas foi muito pior para outras pessoas dependendo do tamanho da casa, a necessidade de trabalhar... são todas coisas para pensar, não há forma de dizer que “todo o mundo deveria estar em quarentena para sempre” e esse tipo de coisa.

Como você vê a situação dos trabalhadores da ciência, em particular em Oxford? Quais lutas fizeram e que perspectivas você vê hoje?

Podemos focar em ideias, mas claramente nossa posição como trabalhadores da ciência também é chave, e de fato creio que se podemos dizer algo da situação atual é que está ficando mais difícil conseguir financiamento e há mais pressão para ensinar de determinadas maneiras. Muita gente não sabe que apesar de que Oxford sempre está no top ten das universidades do mundo, 80% dos pesquisadores e o corpo docente tem contratos temporários, uma cifra incrível. Esse tipo de insegurança existe aqui. Minha esposa esteve sob esse contrato trabalhista nos últimos 25 anos e isso é incrivelmente comum. Por isso que temos que nos organizar, é uma das coisas que encontrei mediante nosso sindicato de trabalhadores universitários (UCU, University College Workers) e foi uma grande transformação do sindicato nos últimos anos em que estivemos lutando em defesa de nossas pensões mas também por salário. Tivemos um congelamento salarial na última década.

E creio que pode ser bastante fácil, talvez, sendo um trabalhador de mais idade tornar-se acomodada com certas coisas e pensar que as coisas nunca vão mudar. Uma das coisas que tiveram um grande impacto em mim foi estar à frente de um piquete de greve pela primeira vez e conseguir frear a destruição de nosso sistema de aposentadoria. E ver trabalhadores mais jovens no piquete, e gente que nem sequer tinha uma aposentadoria mas viu que era importante se somar à luta porque podiam ver como a indústria estava ficando cada vez pior, mais insegura, o salário caindo e sem nenhum tipo de aposentadoria apropriada. Creio que é realmente importante porque mostra que em cada período há possibilidade de radicalização dos trabalhadores e é absolutamente correto que vejamos como pontes que atravessam as fronteiras dos países. Digo, em meu laboratório neste momento há muitos estudantes de pós-doutorado que vêm da China, Iraque, Índia ou Oriente Médio... Para mim este é um aspecto importante da ciência: que não há fronteiras para a ciência e que em última instância deveríamos nos ver também como trabalhadores da ciência. Porque podemos falar sobre o que aconteceu na Revolução Russa ou podemos escrever lindos livros sobre as formas de abordar o cérebro, mas em última instância o grande problema é que temos toda esta tecnologia, viagens para Marte e mais além, e com o aquecimento global estamos caminhando para um grande desastre que talvez não fique civilização nos próximos 100 anos se as coisas seguem assim. Então isto nos dá urgência. Da mesma maneira foi bastante inspirador quando Greta Thunberg, uma estudante de 15 anos, se colocou à cabeça de um movimento mundial para fazer algo sobre o aquecimento global. E também o fato de que siga com o mesmo ponto de vista sobre o que realmente está ocorrendo, que diga “nos últimos dois anos nada aconteceu para mudar para onde estamos caminhando com o aquecimento global”, “todos os discursos são para nada”. Tudo isso deveria ser inspirador porque há mais o que defender do que somente nossos salários ou aposentadorias, se trata de nosso mundo, e quase estamos lutando pelo mesmíssimo futuro da civilização.

Creio que temos que generalizar a partir de nossas lutas mais imediatas, é absolutamente importante. Os sindicatos foram chamados “as universidades da classe operária”, aí é onde você se encontra com as pessoas e começa a discutir ideias políticas assim como aprende a conduzir uma greve exitosa e creio que como cientistas de esquerda necessitamos pensar como podemos generalizar e transformar esse tipo de movimentos, porque uma das coisas que também me inspiraram sobre o passado foi que não somente foi que saíram estas ideias incríveis da Rússia revolucionária, como Vygotski, Vavilov, Vernadski e todas essas pessoas extraordinárias que transformaram nossa visão não somente sobre como funciona a mente senão como funciona o mundo e a natureza, é o impacto que teve sobre outros países. Eu fui à universidade em Cambridge e foi impressionante saber que nos anos 30 e 40 houve um amplo movimento de esquerda. Gente como J.B. Haldane, que foi um dos mais famosos geneticistas do século XX; Dorothy Hodgkin em Oxford, que ganhou o prêmio Nobel por seu descobrimento da estrutura da vitamina B; J.D. Bernal... foram cientistas muito importantes de seu tempo e militantes do Partido Comunista. Agora, desafortunadamente pela influência do stalinismo, tudo isso foi destruído, o Partido Comunista perdeu um monte de membros e muitos deixaram o partido por como o governo estava tratando os trabalhadores da ciência na Rússia. Mas deveríamos ver que nos anos 60 e 70 o movimento voltou a se colocar de pé. Temos que apontar a reconstruir no futuro esse tipo de esquerda cientista, e tem que ser internacionalista sem dúvidas.

Isso que se fez no passado me dá inspiração. As coisas não parecem saudáveis em termos da economia, estamos vendo uma depressão como a dos anos 30... Se não podemos construir uma esquerda cientista assim então estamos fazendo algo errado. Creio que deveríamos ter o objetivo imediato de defender nossos trabalhos e salários e todo o resto, mas necessitamos ter uma visão mais ampla também. E em última instância, creio que está à vista que a ciência é somente uma ferramenta, que é inútil a menos que a usemos para construir um mundo melhor, um mundo que esteja sob os interesses da maioria e não somente de um punhado, dos 42 multimilionários que dirigem o mundo hoje. Se não, perdemos o quadro mais amplo. Há um ditado na Inglaterra que fala do pão e das rosas: “queremos o pão mas também as rosas”, queremos todas as coisas boas da vida. É por isso que creio que a ciência é nossa aliada, ainda que muita gente que está alienada de tal forma a vê como uma força opressiva. A ciência para mim é o oposto: é uma força libertadora, mas somente se a canalizamos mediante a revolução, o socialismo, e a usamos para construir um mundo muito diferente.

Produção: María do Rosario Escobar e Juan Duarte.

Tradução para o português: Francisco Marques.

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