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CALAMIDADE NO EQUADOR

Coronavírus no Equador: o drama de Guayaquil

Dezenas de vídeos circulam nas redes com imagens dramáticas sobre a situação da pandemia no Equador. La Izquierda Diario recebeu o testemunho da pesquisadora Gabriela Ruiz Agila, de Guayaquil, epicentro da crise.

sábado 4 de abril| Edição do dia

Em Guayas, existem 2.243 casos e em Guayaquil, sua capital, 1.520. A relação com as demais províncias e cidades do país é evidente e abre a pergunta: por que exatamente [os casos/ a situação] disparou nesta cidade?

O contágio se espalhou depois que os setores mais ricos da cidade retornaram de suas férias na Europa e nos EUA, mas um fator determinante para entender a realidade de Guayaquil é precisamente que ela concentra dois lados opostos da realidade, por um lado a burguesia mercantil com alto poder aquisitivo e, por outro lado, os enormes cordões de pobreza que cercam a cidade e onde os habitantes estão expostos às piores condições de saneamento e exclusão de um sistema de saúde em colapso.

Gabriela Ruiz Avila é equatoriana, pesquisadora em imprensa, direitos humanos e migração e nos enviou um raio-x da situação:

“Uma parte da cidade está em quarentena. Mas outra parte está morrendo em casa. Corpos nas calçadas. Corpos nas ruas. Não há ninguém para remover os corpos, e esta é a outra emergência de saúde.

As famílias perambulam para ser atendidas ou recebidas por um hospital público onde não há mais camas. As portas estão fechadas para eles. Eles os deixam lá fora. Nos caminhões, as enfermeiras saem para dar-lhes oxigênio. As portas estão fechadas. Clínicas privadas estão fechadas (...) Guayas se tornou uma zona de segurança militar (...) Há denúncias contra as Forças Armadas e vídeos mostrando como os civis que estão nas ruas após o toque de recolher são submetidos ao chicote ou ao corte de cabelo contra a sua vontade.

Guayaquil é uma cidade onde a pobreza é ofensiva. E as operações de controle são desenfreadas nos bairros populares onde não há uma árvore e nem mesmo água potável, como no Monte Sinai. Como as crianças lavam as mãos e com que frequência, se são as que mais sofrem com doenças respiratórias, estomacais e de pele? Também a Ilha Trinitária, Sergio Toral, o Guasmo, para citar alguns.Este não é o caso de um setor como Samborondón que apresenta 165 casos confirmados de COVID-19. Como lenda urbana, há rumores de que a celebração de um grande casamento no meio da declaração da pandemia foi um dos pontos de contágio entre os convidados ricos e a classe trabalhadora que serviu no evento. A referência ao fato mostra um conflito de longa data entre as classes, repleto de racismo e discriminação contra os pobres.

A poucos passos do Malecón 2000, a grande atração turística do porto principal, os empreendimentos imobiliários escondem atrás deles o colorido das favelas. Para alguns, é uma pequena réplica de Miami. Cheio de palmeiras e restaurantes de grandes cadeias internacionais. Portanto, há um grande contraste nessa desigualdade. Guayaquil concentra 25% da população urbana do país.

No momento do noticiário vespertino, a campanha #QuédateEnCasa [#FiqueEmCasa] é repetida na televisão aberta. Um homem em uma guayabera [tipo de camisa] branca e shorts joga tênis em uma quadra e pede: # QuédateEnCasa. (…) Rogam para que os pobres fiquem em casa. Em Guayaquil, apenas 50% da população tem emprego adequado, 3% está desempregado, e ela possui a maior taxa de subemprego em todo o país: 18,9% segundo as estatísticas do INEC. Isso significa que se as pessoas não saem para vender, não comem.

No hospital de Ceibos, cadáveres são vistos empilhados em porões e ao lado de pacientes. Dessas e outras histórias semelhantes, dão conta os vídeos que circulam nas redes sociais. Claramente, o Protocolo para o Manuseio e Disposição Final de Cadáveres com Histórico e Presunção COVID-19 Extra-hospitalar não é seguido. Os mortos também aparecem ao lado dos contêineres de lixo.
"Se não cooperarem, teremos que dizer quem salvar ou não", disse o vice-presidente Otto Sonnenholzner. Vendedores ambulantes, comerciantes que ganham a vida com as vendas do dia-a-dia, desobedeciam o toque de recolher que começava às 16h e durava até às 5h”.

Destruição deliberada do sistema de saúde

Igual ao que acontece internacionalmente, há um esforço do governo para culpar os trabalhadores e os setores populares, precisamente para livrar o Estado de responsabilidade pelos anos de desfinanciamento da saúde pública. No Equador, a degradação do sistema público tem sido histórica, sob todas as gestões.

O presidente Lenin Moreno, que enfrentou enormes mobilizações em outubro contra um pacote antipopular de medidas econômicas, hoje pede que o número real de infecções e mortes em Guayaquil seja revelado. Mas tanto na cidade, governada pela direita tradicional do Partido Social Cristão, quanto em nível nacional, as reclamações por falta de suprimentos para os profissionais de saúde estão crescendo. Além disso, é denunciada a solicitação hipócrita do governo de "voluntários" para várias tarefas, depois que mais de 2.000 profissionais de saúde foram demitidos a partir de 2018, no âmbito de um plano geral de corte no setor público.

Enquanto isso, centenas de pessoas morrem e, como vemos em Guayaquil, nas piores condições, mais um exemplo da degradação desse sistema que escolhe quem vive e como morre. Por esse motivo, é necessário alocar financiamento urgente em um plano nacional de emergência que inclua a centralização dos sistemas de saúde público e privado, para enfrentar a crise, e que não se desviem mais recursos para pagar a dívida, como parte de um plano conjunto para que a crise não seja descarregada sobre os trabalhadores e os mais pobres.




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