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ELEIÇÕES EUA

Contra o Pragmatismo: Os Socialistas Não Deveriam Votar no “Mal Menor”

Uma parcela de socialistas, como Eric Blanc e Dan La Botz, estão chamando voto para o pró-imperialista Joe Biden como se ele fosse um mal menor em relação a Trump. Essa lógica “pragmática” é profundamente enraizada na ideologia do capitalismo norte-americano.

terça-feira 3 de novembro| Edição do dia

“Pragmatismo, o empirismo é a maior maldição do pensamento americano. Vocês devem inocular os camaradas mais jovens contra a sua infecção.” - Leon Trotski.

Como diz Joe Biden, caso ele vença a eleição, “nada fundamentalmente mudará”. Como todos os democratas do establishment, Biden representa a continuação do status quo de Trump. Fora da temporada de eleição, Biden nem sequer reivindica estar ao lado dos trabalhadores. Porém, muitos autodenominados “progressistas” e alguns “socialistas” dizem que a possibilidade catastrófica de um segundo mandato de Trump exige uma abordagem “pragmática” para as eleições de 3 de novembro.

O senso comum dos progressistas e grande parte da esquerda estadunidense diz que, embora Biden possa ter defeitos, esses defeitos empalidecem em comparação a outros mais 4 anos de Trump. Nessa linha, por conseguinte, aqueles preocupados em combater opressões e a catástrofe climática dizem que só temos uma única opção - votar no mal menor.

É claro que esses mesmos progressistas admitem que Biden é um feroz defensor dos interesses corporativos. Ele tem um registro reacionário como Senador e como Vice-Presidente no que tange a imigração, policiamento e clima. Além de recusar-se a apoiar um sistema universal gratuito de saúde, mesmo perante a maior crise de saúde pública do século. Ainda assim, sua agenda se diferencia da de Trump, Biden não nomearia fundamentalistas cristãos anti-aborto para a Suprema Corte e também não flerta com a direita fascista.

Algumas figuras da esquerda, como Eric Blanc de Jacobin, Dan LaBotz do New Politics, e Tithi Bhattacharya de Spectre, até reconhecem que os trabalhadores precisam de um partido propriamente deles, um partido independente dos dois partidos do grande capital. Mas tal partido estaria a anos (ou mais) de distância, segundo eles, então nós deveríamos apoiar a melhor alternativa de candidato que temos agora - mesmo se esse candidato por acaso for amigo das indústrias do combustível fóssil, farmacêutica e bancária. Um voto não direcionado ao Biden é um voto para o Trump, dizem esses socialistas “pragmáticos”.

A Importância do Pragmatismo para a Ideologia Americana

Marx celebremente escreveu em A Ideologia Alemã que “as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, ou seja, a classe a qual é a força material dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, a sua força intelectual dominante”. Nos Estados Unidos, nenhuma força intelectual se espalhou com mais sucesso que o pragmatismo, alcançando um status semelhante ao dogmatismo. Essa filosofia domina todas as esferas políticas e dos negócios. Até mesmo a esquerda, de modo geral, não se desviou da perspectiva pragmática.

Pragmatismo, de forma simples, é a teoria da conveniência. Nas palavras de Lênin , o pragmatismo “ridiculariza a metafísica de ambos idealismo e materialismo, aclama a experiência e somente a experiência, [e] reconhece a prática como o único critério…”. O pragmatismo diz que qualquer proposta só é útil se resulta imediatamente em um resultado desejado. A teoria e os princípios são deixados de lado assim que deixam de ser necessários para atingir um objetivo.

Não precisamos procurar longe para vermos a influência do pragmatismo na política dos EUA. Os políticos estadunidenses, especialmente os democratas, raramente apresentarão ao Congresso uma legislação que eles considerem “impassável”. Por mais que tenha recebido toda a atenção que recebeu, uma “New Deal Verde” ainda não foi apresentada para votação pelos democratas. Tanto os republicanos quanto os democratas afirmam a sua capacidade de fazerem concessões com os oponentes políticos. Os candidatos reviram suas posições do dia para a noite dependendo de qual círculo eleitoral precisa ser ganho. Kamala Harris, por exemplo, declarou inequivocamente sua intenção de proibir o “fracking” (fraturamento hidráulico não convencional para extração de gás natural), e Joe Biden sugeriu que adotaria a mesma medida. Contudo, agora a chapa de Biden-Harris defende vigorosamente o “fracking”, dada a importância de ganhar a Pensilvânia e de tranquilizar a indústria de combustível fóssil.

Ademais, em nenhum lugar o pragmatismo é mais evidente que nos negócios. A ênfase do capitalismo no lucro a curto prazo impõe decisões pragmáticas acima de teorias ambiciosas. Tentativa e erro é seu modus operandi . Em vez de estratégia a longo prazo, o que guia as ações de corporações são relatórios trimestrais sobre o lucro. Desta forma, apesar das sublimes “declarações de missão” e dos “valores fundamentais” humanitários, os “negócios” atirarão dez mil trabalhadores para o olho da rua de um dia para o outro se a situação pedir. Exxon, Shell e BP continuarão a extrair e a queimar combustíveis fósseis mesmo quando as emissões de carbono ameaçam a existência da própria sociedade humana. Os gigantes farmacêuticos não compartilharão segredos uns com os outros, embora a cooperação significasse o desenvolvimento mais rápido de vacinas e medicamentos que salvam vidas, porque qualquer conhecimento compartilhado ameaçaria seu balanço final.

A Esquerda Pragmática

Essa lógica do pragmatismo tem lamentavelmente contaminado o discurso dentro da esquerda dos EUA também. Essa manifestação de “pragmatismo de esquerda” pode ser vista de forma bastante clara na campanha de “vote no mal menor”. Neal Meyer e Eric Blanc do grupo “Bread & Roses” do DSA (Socialistas Democratas da América), em seu título não irônico “Dessa Vez É Diferente”, chamam Biden de “neoliberal endurecido” e “não amigo da classe trabalhadora”, mas estão prontos para apoiá-lo até dia 3 de novembro em decorrência da “ameaça sem precedentes” representada por Trump. E não só deveriam os socialistas votar em Biden, segundo Meyer e Blanc, como também deveriam “puxar o voto para Biden” de todas as formas possíveis. Qualquer princípio de independência de classe e de anti-imperialismo deveria ser posto de lado temporariamente a fim de ganhar um terreno mais favorável para a esquerda.

Em setembro, uma carta aberta intitulada “Dump Trump, Then Battle Biden” (“Derrote Trump, depois lute contra Biden”) foi publicada e assinada por dezenas de figuras progressistas como Noam Chomsky e Barbara Ehrenreich, além de algumas as quais se identificam marxistas como Dan LaBotz e Victor Wallis. Os autores da carta admitem que Biden está “atrelado aos interesses corporativos”. No entanto, “o fim da presidência de Trump é, de longe, o objetivo mais importante que pode ser alcançado entre agora e janeiro”. Chomsky descreve Trump como “o pior criminoso da história, inegavelmente”. (Ignoraremos por esse momento que Chomsky e outros progressistas descreveram Bush II em termos parecidos, justificando seu apelo ao voto no mal menor de 2004). A única resposta “pragmática”, dada as circunstâncias, seria apoiar Biden nas próximas eleições.

Infelizmente, o próprio pragmatismo de Biden permite-lhe se mover cada vez mais e mais à direita, flertando com os conservadores, com a Wall Street e com o grande capital, convicto de que ele tem o “voto progressista” já confirmado. Assim, Biden pode declarar, sem muita hesitação, seu apoio às forças policiais racistas e repressivas ao redor do país, mesmo em face de uma revolta contra a violência policial. “Atire neles na perna”, disse o candidato democrata. Tendo ganho o grande elogio dos progressistas por seu plano climático, Biden pode rapidamente mudar de rumo para apelar aos executivos do petróleo e do gás, afirmando abertamente que “não vamos nos livrar dos combustíveis fósseis tão cedo”.

Raízes Históricas do Pragmatismo

Para entender como a lógica do pragmatismo ascendeu a tal proeminência nos Estados Unidos, temos que olhar brevemente para seus teóricos e expressões históricas.

No século XIX, as figuras mais notáveis do pragmatismo estadunidense incluem William James e Charles Pierce; na primeira metade do século XX, John Dewey foi o líder teórico do pragmatismo progressivo. Dewey foi, talvez, o mais conhecido educador e filósofo público dos Estados Unidos. Presidiu o departamento de filosofia da Universidade de Chicago, o qual incluía tanto psicológica quanto pedagogia, além de ajudar a fundar a “New School” de Nova Iorque. Seu trabalho continua a influenciar modelos de educação pública ao redor do país . Durante os Julgamentos de Moscou, o progressivismo de Dewey levou-o a liderar a Comissão de Inquérito, a qual ficou conhecida como a Comissão Dewey, a investigar as acusações apresentadas contra Leon Trotski pelo regime stalinista da União Soviética. Em uma grande derrota para o stalinismo internacionalmente, a Comissão Dewey passaria a limpar o nome de Trotski, embora sob uma base pragmática e não marxista.

A filosofia de Dewey rejeitou as grandes teorias como um meio de obter conhecimento. A verdade seria determinada, acima de tudo, pela atividade prática. Dewey, portanto, se opôs tanto ao facismo quando ao marxismo. “Pois, apesar de si mesmo, qualquer movimento que pense e aja em termos de um “ismo” torna-se tão envolvido na reação contra outros “ismos” que é involuntariamente controlado por eles. Pois então forma seus princípios pela reação contra eles em vez de por um levantamento abrangente e construtivo das necessidades, problemas e possibilidades reais”, escreveu ele.

A expressão política do pragmatismo progressivo no final do século XIX e no começo do século XX foi o populismo, com partidos como o Partido do Povo, o Partido Progressista e o Partido Campesino-Trabalhista, que buscava atenuar os piores impulsos do capitalismo, mas sem procurar revertê-lo. O populismo, movimento de pequenos fazendeiros e da classe média, precisava do pragmatismo. Por quê? O idealismo de Kant ou de Hegel ensinou que liberdade poderia ser alcançada na mente, mas a vacilante classe média precisava de atividade prática para se proteger contra os grandes monopólios capitalistas. Assim, o pragmatismo é o reflexo de seus interesses de classe.

Pragmatismo versus Marxismo

A fim de entender o conflito entre o pragmatismo e o marxismo revolucionário, um texto instrutivo é o livro de George Novack intitulado Pragmatism vs. Marxism: An Appraisal of John Dewey’s Philosophy (Pragmatismo vs. Marxismo: Uma Análise da Filosofia de John Dewey). Em sua introdução, Novack diz que empreendeu o trabalho como uma realização do desejo de Trotski de ver uma “crítica minuciosa ao pragmatismo de um ponto de vista marxista”.

Quando Novack visitou Trotski no México, o velho bolchevique disse: “Ao voltarem para os Estados Unidos, vocês, camaradas, devem de imediato assumir a luta contra a distorção e o repúdio do materialismo dialético de [Max] Eastman. Não há nada mais importante que isso. Pragmatismo, o empirismo é a maior maldição do pensamento americano. Vocês devem inocular os camaradas mais jovens contra a sua infecção”.

A contribuição de Novack veio 30 anos após o assassinato do líder revolucionário russo nas mão de um agente stalinista no México. Novack observa que o pragmatismo se origina entre a classe média dos recém-formados Estados Unidos, uma nação em geral desonerada pelas antigas instituições pré-capitalistas da Europa, como a Igreja ou a aristocracia. Não havia reverência nem para o direito divino dos reis. Os Estados Unidos “se tornaram um feliz campo de caça para os aventureiros, os inovadores e pessoas empreendedoras em movimento e em desenvolvimento. O espírito de iniciativa, a disposição de desconsiderar a rotina e tentar algo novo para ver o que sai disso é um traço profundo do caráter americano”.

Essa necessidade de inovar e de deixar de lado crenças de longa data foi, portanto, a base do pragmatismo americano. Como diz Novack: “Assim como a burguesia repudiava o trabalho improdutivo na produção material, seus pensadores se afastaram de teorias que justificavam a busca por objetivos não imediatamente produtivos ou remunerados”. O self-made man (“homem auto-realizado”), o ideal mais alto do pragmatismo, não tem utilidade para dogmatismo. Ele supera os obstáculos à sua frente através de sua própria engenhosidade.

O pragmatismo também se inspirou fortemente na influência de Darwin, cuja teoria da seleção natural desafiava a Igreja e a ordem feudal. Embora revolucionárias para a ciência da época, as ideias evolucionistas de Darwin ainda eram produto de sua visão de mundo burguesa. Ao contrário de Marx e Engels, o grande naturalista inglês excluiu a possibilidade de mudanças bruscas e rápidas. A evolução, na perspectiva de Darwin, só poderia ocorrer gradualmente. Essa era uma perspectiva que se encaixava perfeitamente com o pragmatismo, já que os pragmáticos nunca propuseram a derrubada da ordem existente, mas sim sua melhoria contínua através de reformas. Estava claro para os pragmáticos que o capitalismo havia criado uma imensa riqueza para uma pequena minoria enquanto uma maioria sofria. Mas eles se agarravam à crença de que, se ajeitando dentro dos limites existentes, uma sociedade capitalista justa e democrática poderia ser construída.

No entanto, apesar desses começos progressivos, diz Novack, “o pragmatismo seria sugado pela maré baixa da reação capitalista à medida que o século XX se desdobrasse”. O pragmatismo é a filosofia norteadora por trás da conquista do mundo pelo imperialismo. Aliados e inimigos são determinados não por seu nível de “democracia” ou de “direitos humanos”, mas sim por sua disposição de concretizar os objetivos dos EUA. Cálculos sobre o lançamento ou não de novas intervenções militares são feitas com base no apoio público e no impacto sobre o déficit, e não no respeito à soberania ou à vida humana.

Um Partidos dos Trabalhadores Exige uma Ruptura com o Pragmatismo

A esquerda pragmática está correta quanto aponta que não há um partido de trabalhadores nos Estados Unidos hoje. Contudo, ela ignora que a lógica do mal menor foi, em grande parte, responsável pela ausência de tal partido. Um partido da classe trabalhadora não cai do céu, ele requer anos de trabalho dedicado de revolucionários que rejeitam toda cooperação com a classe capitalista. Ele exige a exposição a toda oportunidade possível de que os democratas são defensores do imperialismo, do encarceramento massivo, das deportações e da extração de combustíveis fósseis. Tal trabalho necessariamente exclui a estratégia do mal menor, que nos diz a cada quatro anos que a classe trabalhadora precisa se alinhar atrás da ala liberal da classe dominante.

O pragmatismo é fundamentalmente incapaz de apresentar uma estratégia de libertação da classe trabalhadora e dos oprimidos. Essa lógica substitui atalhos, como o voto pelo mal menor, pela resolução dos problemas estratégicos que surgem na luta revolucionária. Um socialismo vitorioso exige uma rejeição da lógica pragmática. Somente uma clareza estratégica excepcional aliada a determinação construirá a força material capaz de liquidar o capitalismo - um partido da classe trabalhadora.




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