Política

CRISE SANITÁRIA

Contra Bolsonaro e Doria, defendemos todas as medidas contra a Covid e o direito à vacina para todos

Bolsonaro e Doria disputam o posto de quem faz mais demagogia para encobrir que nenhum dos dois vai garantir acesso rápido e massivo à vacina, da mesma forma que tem sido com as medidas de prevenção e tratamento da Covid. Contra eles, defendemos o direito à vacina para todos, bem como a todos os métodos de prevenção e tratamento.

Bruno Gilga

Diretor de Base do Sindicato de Trabalhadores da USP (SINTUSP)

terça-feira 3 de novembro| Edição do dia

O conflito entre Bolsonaro e Doria sobre a vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac, que será produzida no Brasil pelo Instituto Butantã, e que Bolsonaro se nega a autorizar que seja comprada, coloca em risco as vidas de milhões, especialmente trabalhadores, negros e pobres, em função da disputa política entre eles e as frações da burguesia que representam. Tudo para definir quem fica com o prestígio e consegue aparecer como responsável pela disponibilização da vacina, e para qual monopólio internacional, e qual dos países que disputam a corrida geopolítica pela vacina, vão os louros e os lucros - a cujo serviço esse sistema coloca nossas vidas e mortes.

Mas o que estão encobrindo com esse conflito é também que nenhum deles pretende garantir o acesso a nenhuma vacina, de forma massiva, rápida e gratuita para todos, da mesma forma que nenhum deles garantiu acesso a todos às condições e medidas de prevenção e tratamento durante toda a pandemia. Tanto o Planalto como o governo de São Paulo - e os governos em geral - não disponibilizaram a testagem massiva para a população, se negaram a impor a reconversão da produção industrial que seria capaz de produzir respiradores mecânicos e leitos de UTI, não garantiram locais de isolamento adequados para tratamento das pessoas que moram dividindo cômodos em moradias precárias nas favelas, obrigaram milhões de pessoas a seguir trabalhando nas fábricas e galpões de logística em condições insalubres, se arriscar nos transportes públicos e serviços não essenciais, pressionadas pela ameaça do desemprego enquanto se permitiu aos patrões demitir à vontade. Bolsonaro, Doria, Congresso e STF estiveram juntos para aprovar as leis e medidas de redução dos salários e direitos de milhões de trabalhadores - da mesma forma que agora avançam juntos na tentativa de aprovar a reforma administrativa que atacará a saúde e a educação.

Bolsonaro nega a veracidade dos estudos científicos de imunização e as primeiras possibilidades encontradas para a sintetização de uma vacina, dizendo que não vai comprar a "vacina da China", que é "desconhecida". Como lambe-bota de Trump que é, reproduz o mesmo discurso ideológico reacionário e xenófobo. Isso mesmo logo depois de seu próprio Ministério da Saúde apontar que ela seria produzida pelo mesmo Instituto Butantã que produz a maioria das vacinas distribuídas pelo Ministério da Saúde. Assim, nega à população o direito de obter acesso à vacina.

Por outro lado, Doria faz demagogia com a vacina, da mesma forma que fez com todas as medidas de combate à pandemia que não existiram para a maioria da população pobre e trabalhadora. Já é possível antever que essa maioria não terá acesso a essa vacina quando ela começar a ser aplicada, e no melhor dos casos vai esperar muito. Por isso, é preciso exigir em primeiro lugar - tanto em SP quanto em todo o país – a disponibilização e garantia de acesso universal e gratuito à vacina para todos, de forma rápida e massiva.

Nem Bolsonaro nem Doria pretendem garantir esse direito. Doria tenta encobrir isso se postulando como defensor da obrigatoriedade da vacina, e dizendo de forma autoritária que tomará medidas legais contra quem tiver contrariedade à aplicação da vacina. Bolsonaro se aproveita disso para criar uma cortina de fumaça para encobrir que quer privar milhões de brasileiros da vacina, especialmente se o crédito e os lucros não forem para ele e seus aliados. Esse é o significado dos pequenos atos negacionistas realizados no último fim de semana, em que o bolsonarismo saiu às ruas “contra Doria e a obrigatoriedade da vaChina”, na verdade para fortalecer essa linha de Bolsonaro e seu discurso ideológico reacionário e xenófobo. Nessa dança, a classe trabalhadora, os negros e os mais pobres é que pagam, com a vida.

Isso é uma armadilha. Não podemos perder nunca de vista que todos os dispositivos autoritários, que têm como objetivo implementar qualquer ação através da coerção estatal, mesmo com esse tipo de justificativa só servirão para reforçar os mecanismos de controle social em meio à crise e de punição sobre os mais pobres, assim como sobre o conjunto da classe trabalhadora. A retórica da obrigatoriedade vinda de figuras como Doria ou STF é cortina de fumaça para aparecerem como mais responsáveis frente ao negacionismo do governo Bolsonaro. O que a esquerda deve batalhar é pela mais ampla divulgação das pesquisas, combinada com campanhas de conscientização, e não ficar exigindo mais autoritaritarismo para o regime herdeiro do golpe institucional. E a questão central é que nenhum deles vai garantir a vacina para todos. Devemos batalhar para que nossas vidas e mortes não estejam a serviço dessas disputas políticas e dos lucros dos monopólios que brigam pelos bilhões oferecidos pela vacina, e sim que ela tenha produção estatal, sob controle e fiscalização das organizações de trabalhadores da saúde e científicas, e distribuição rápida e massiva para todos. Que seja garantida a mais ampla liberdade de pesquisa e divulgação de resultados, e o acesso gratuito e massivo aos testes e todas as demais medidas, equipamentos e condições de prevenção e tratamento contra a Covid-19, e que todo o sistema de saúde seja estatal e centralizado sob controle dos trabalhadores, para que possa servir à população e não aos lucros dos grandes empresários.




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