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EDITORIAL NACIONAL | Contra Bolsonaro e Doria, batalhemos pela disponibilização universal da vacina

A vida de dezenas de milhões de trabalhadores no país é marcada pelo drama da pandemia do coronavírus. Tendo 2,7% da população do mundo, o Brasil tem 10% dos mortos pela COVID-19 no mundo.

Diana AssunçãoSão Paulo | @dianaassuncaoED

André Barbieri São Paulo | @AcierAndy

segunda-feira 25 de janeiro | Edição do dia

O abismal negacionismo de Bolsonaro e Pazuello fizeram com que, depois de um mês do início da imunização em distintos países do mundo, não haja vacinas disponíveis para basicamente ninguém a nível nacional. O Ministério da Saúde revelou que apenas 34% dos funcionários da área teriam acesso à vacina – estamos falando dos que estiveram na linha de frente do combate à pandemia contra os obstáculos da catástrofe sanitária organizada pelos capitalistas sem testes massivos, EPI´s e liberação do grupo de risco. No total, há menos de 3 milhões de doses de imunizante no Brasil.

O governo que riu dos mais de 210.000 mortos pela COVID-19, diante da pressão internacional fruto da vacinação nos principais países, agora corre ridiculamente à Índia para buscar poucas milhões de doses que não chegam, e depois dos discursos ridículos contra a "vachina", se ajoelha diante da China para que enviem os insumos necessários para a fabricação endógena.

Bolsonaro, assim, terminou colocando um tapete vermelho para que nele Doria pudesse ostentar toda a sua demagogia. O espalhafatoso governador de São Paulo quis aparecer, com a ajuda da imprensa golpista e até de setores da esquerda, como o “garantidor das vacinas do Brasil”. Com o auxílio de performances circenses, explicou como São Paulo estaria fornecendo os imunizantes que Bolsonaro não pôde conseguir.

Mas a verdade é que por um lado quem garantiu a vacina foram os cientistas, pesquisadores e trabalhadores da saúde ainda que a quantidade insuficiente mostra a também dura realidade de que não há vacina também em São Paulo. Removidas as máscaras midiáticas, o fato é que Doria também não garantiu quaisquer condições básicas para preservar as vidas dos trabalhadores e da população pobre, que morria e continua morrendo não apenas nos hospitais, mas em casa e nos próprios locais de trabalho. Quem poderia esquecer que Doria aprovou, junto a Rodrigo Maia e os ministros do Supremo Tribunal Federal, as medidas pró-patronais de suspensão de contratos de trabalho e redução salarial, aprovando a PEC do teto de gastos, a precarização do sistema público de saúde, a reforma da previdência e cortes nos direitos trabalhistas, convertendo nossa vida num inferno fabril?

Ademais, Doria quer obrigar os professores estaduais de SP a voltar às aulas sem qualquer direito à vacina, opondo os professores efetivos aos professores com contratos precarizados ("Categoria O"), que estão desesperados sem emprego e passando fome, por responsabilidade do próprio governador tucano.

A humilhação do trumpismo nos Estados Unidos com a entrada de Joe Biden encorajou a imprensa a sair "à caça" de Bolsonaro, para favorecer o golpismo institucional que critica Bolsonaro não por seus ataques aos trabalhadores e ao povo, mas por não conseguir aplicar a agenda de reformas contra os trabalhadores e os serviços públicos, como a saúde que será ainda mais desmontada pela reforma administrativa, na velocidade desejada por esses representantes dos capitalistas.

Ajuda essa linha política a queda na popularidade de Bolsonaro - segundo o DataFolha, a rejeição do governo subiu para 40%, tendo sua aprovação caído para 31% - fruto do recrudescimento da pandemia, do caos em Manaus e do fim do auxílio emergencial, que recolocou um terço da população brasileira na linha de pobreza. A imprensa faz isso para beneficiar a outra ala golpista do regime, que está sob os auspícios do Partido Democrata e do imperialista Joe Biden. Assim, quão ridículo é afirmar, ainda mais por parte da esquerda, que Doria seria o “melhor aliado tático” nesse momento? É como dizer que é muito bom ver Biden colaborando com nossa luta ao bolsonarismo... não esqueçamos, neste caso, do vergonhoso voto do MES-PSOL a esse novo representante do imperialismo norte-americano.

Não faz mal a ninguém recordar que tanto Bolsonaro quanto Doria (como representante da postura de todos os governadores) não fizeram absolutamente nada para frear o impacto letal do coronavírus sobre a população trabalhadora e pobre. Doria buscou tirar proveito político do negacionismo de Bolsonaro, que com as doses cavalares de ignorância inerentes à extrema direita ridicularizava o sofrimento da população, especialmente trabalhadora, que perdia seus entes. Mas na prática, Doria imitava o desprezo de Bolsonaro pela saúde pública. Assim como o Planalto, o governo de São Paulo não disponibilizou a testagem massiva para a população, se negou a impor a reconversão da produção industrial que seria capaz de produzir respiradores mecânicos e leitos de UTI, obrigou milhões de pessoas a seguir trabalhando nas fábricas e galpões de logística em condições insalubres, e permitiu aos empresários demitir funcionários cujas famílias amargaram o desemprego em meio à pandemia.

Assim, a verdade é que essas facções da classe dominante, que montam seu circo sobre as chamas que organizaram, estiveram com os capitalistas contra a resolução da crise sanitária protegendo os lucros. Os empresários, por sua parte, mostram a que vieram e para que servem. Em Manaus, escondiam cilindros de oxigênio enquanto pessoas morriam asfixiadas nos hospitais. Agora, fazem uma proposta obscena: querem aval do governo para comprar 33 milhões de doses de imunizantes, “doando” metade do montante para o Ministério da Saúde (não se sabe para fazer o que, numa população de 210 milhões), enquanto a outra metade seria usada para vacinar suas próprias famílias! É o mais completo desprezo pela vida dos trabalhadores, típica de uma burguesia semicolonial, herdeira da escravidão.

O maior erro diante da catástrofe é buscar alguém em quem se apoiar nas fileiras dos inimigos do povo. Não há heróis entre nossos inimigos. Bolsonaro e Doria, assim como todo o regime do golpe institucional, instalado e consolidado nos últimos cinco anos, são responsáveis pelas centenas de milhares de mortos. Os autoritários magistrados do STF, os parlamentares do Congresso, os governadores e os militares (cuja máxima representação de incompetência é Pazuello): todas estas figuras, junto a Bolsonaro, tiveram participação ativa na organização triunfal da catástrofe econômica e sanitária, e nos fizeram chegar até aqui.

Por isso, também bandear neste momento para a trupe de Rodrigo Maia apoiando "de forma tática" seu candidato Baleia Rossi como fará o PSOL no segundo turno - para além do "jogo de cena" da candidatura própria - é uma mostra contundente do que a esquerda não deveria fazer: administrar um pedaço desse regime do golpe.

O combate à extrema direita bolsonarista é uma tarefa central para a esquerda e a classe trabalhadora. Mas esse combate é impossível de ser feito junto a Doria, Maia e os ministros do STF, sustentadores acérrimos desse regime político golpista e ajustador, que com sua tirania liberticida aprovam junto ao governo federal os mais profundos ataques econômicos e sociais à população.

Não poderiam ter feito isso sem a cumplicidade direta do PT e do PCdoB, que usam permanentemente suas posições políticas, no Congresso e demais instituições, para conter a revolta das massas. As centrais sindicais que comandam, a CUT e a CTB, se fazem de mortas diante não apenas da pandemia, mas dos enormes ataques econômicos aos direitos dos trabalhadores. Enquanto isso, apoiam não só a candidatura do golpista Baleia Rossi na Câmara, mas também do candidato de Bolsonaro no Senado, Rodrigo Pacheco. As demissões da Ford em todo o país não tiram essas burocracias sindicais de suas poltronas, assim como as reformas trabalhista e da previdência passaram sem resistência séria por essas centrais que dirigem dezenas de milhões de trabalhadores.

Poderiam organizar os trabalhadores, mas não querem. Dependem dos privilégios de sua ligação material com o aparato de Estado, e politicamente preferem seguir desmoralizando e passivizando as massas a fim de que o PT se cacife eleitoralmente em 2022, como administrador da agenda econômica do golpe. Ao contrário, a esquerda deveria se lançar em uma enorme campanha nacional em defesa dos trabalhadores da Ford exigindo das centrais sindicais que saiam das férias e transformem essa luta em uma causal popular e nacional.

Por isso, não podemos esperar. As mortes continuarão, e o país segue sem vacinas para ninguém. É necessário imediatamente um plano científico de vacinação que dê condições à imunização universal da população, e não apenas de uma parte mínima dela, como querem Bolsonaro e Doria. São ambos responsáveis pela catástrofe sanitária, e sequer possuem seringas e agulhas para a campanha de vacinação da população. Sabemos que os trabalhadores da saúde, junto aos da metalurgia, da logística, etc., se possuíssem em suas mãos o controle da economia e das pesquisas, poderiam organizar com êxito todas as condições logísticas para a execução de um plano racional de imunização universal. Por isso defendemos a contratação massiva de funcionários da saúde, com salários dignos, para que auxiliem a produção das vacinas: que os trabalhadores controlem a produção e a distribuição da vacina. Assim também como defendemos a quebra de patentes das grandes farmacêuticas, que só pensam em lucrar com a catástrofe sanitária, para que os próprios trabalhadores da saúde junto a especialistas disponham das pesquisas e resultados, concedendo acesso público a esses dados. Da mesma forma, nos colocamos contra todo tipo de método autoritário e policialesco de imposição da vacina, como propõe o STF, que quer demitir por justa causa quem se recusar a tomar a vacina.

Se Bolsonaro e Doria são incapazes de garantir o básico, como demonstram na prática, que sejam os trabalhadores os que tomem nas mãos essa tarefa, organizados pelos sindicatos, e garantam a disponibilização universal da vacina a todos.

Do ponto de vista político, não podemos nos unificar com burgueses, como querem os defensores da "frente ampla anti-Bolsonaro". Nossa unidade para lutar deve se dar com um claro corte de classe: contra todas as variantes da burguesia. Serviria bem ao PSOL saber disso, já que em sua disputa interna pública, entre MES e Marcelo Freixo contra a corrente majoritária de Ivan Valente e Juliano Medeiros, a única divergência é saber se aderem ao bloco do golpismo institucional de Baleia Rossi no primeiro, ou no segundo turno como já apontamos. Uma vergonha que está a serviço da política de "impeachment" alentada já por setores do golpismo sem nem mesmo questionar que isso levaria a entrada do General Mourão.

As centrais sindicais, como a CUT e a CTB, devem sair imediatamente de sua paralisia e organizar a frente única dos trabalhadores para enfrentar todos os ajustes econômicos e revogar as reformas neoliberais do golpismo, em primeiro lugar as reformas trabalhista e da previdência, desfazendo todas as privatizações autorizadas pelo STF e colocando no centro a luta contra o fechamento e as demissões na FORD. É urgente que o PSOL coloque o peso de suas figuras como Guilherme Boulos e seus parlamentares a serviço dessa exigência, junto a todos os sindicatos e movimentos sociais influenciados pelo PSOL, PSTU e os que se colocam no campo à esquerda do PT e das burocracias, como a CSP-Conlutas e as Intersindicais.

Como dissemos nesse Esquerda Diário, os trabalhadores precisam organizar a sua defesa contra esses ataques, sem desvincular essas batalhas da necessidade de combater o conjunto do regime do golpe institucional. O impeachment serviria para colocar o general Mourão na presidência, manter todos os ajustadores e militares nos seus lugares, preservando os jogadores do golpismo. Ao contrário disso, trata-se de atacar em regra não apenas Bolsonaro e Mourão, mas todas as instituições desse arcabouço golpista dos poderes instituídos (STF, Congresso nacional, etc.) que nos trouxeram até aqui, estando na linha de frente da defesa de todos os direitos democráticos e sociais da classe trabalhadora e do povo pobre, pisoteados diariamente. Para isso, defendemos uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, imposta pela luta, cuja dinâmica intensificaria os choques entre os interesses das classes, que exige a auto-organização e autodefesa dos trabalhadores contra os poderes fáticos do Estado capitalista. Esse é o caminho independente para conquistar, mediante a luta de classes, um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

Não menos urgente para a esquerda é construir as bases para uma organização revolucionária dos trabalhadores no Brasil, que supere o PT pela esquerda. Essa é uma decisão política, à serviço da qual nós do MRT e do Esquerda Diário nos colocamos, que necessariamente vai na contramão da atividade da esquerda restrita aos limites do que permite a burguesia e o regime do golpe, uma esquerda que, aprendendo com o PT, foge dos trabalhadores e da luta de classes como da peste. Colocamos o Esquerda Diário a serviço dos trabalhadores da Ford e sua luta, a serviço da batalha pela disponibilização universal da vacina para todos e também a serviço de construir essa alternativa.




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