Economia

EDITORIAL INTERNACIONAL

Consequências de um iminente risco global

Um crescimento demasiado lento por demasiado tempo. O lobby dos organismos internacionais e o fantasma de 2008. Discursos e realidades. Sobre estabilizações de curto e longo prazo.

Paula Bach

Buenos Aires

quarta-feira 27 de abril de 2016| Edição do dia

O crescimento econômico mundial está resultando em "demasiado lento por demasiado tempo", havia advertido a diretora do FMI, Christine Lagarde. Dias mais tarde a organização anunciava uma nova revisão sobre o baixo crescimento mundial para o ano em curso de 3,2% enquanto advertia sobre maiores riscos para a estabilidade financeira. Por sua parte e a alguns dias, o G-20 (que concentra as 20 maiores economias do mundo) reunido em Washington, coincidiu em prognosticar um modesto crescimento global com tendências à uma baixa para este ano. Também a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) emitiu um alerta pela desaceleração das grandes economias avançadas em particular Estados Unidos, Inglaterra e Japão, junto com a perda de impulso da economia alemã.

Os riscos -sem dúvida alguma muito reais- expressados como insistente coincidência dos organismos internacionais, se assemelham a um grande lobby sobre a Reserva Federal norte-americana para evitar uma eventual e altamente arriscado aumento de taxas. Entretanto, nessa grande gaiola que é a Fed, se moderava a luta entre "pombos" e "falcões", ao passo em que a "voz de aura" da presidência chamando a "cautela" parecia marcar um norte bastante claro.

Temores por um novo 2008

Como assinalamos em outra oportunidade -e em parte, a diferença de 2008- os fatores que se misturam e ameaçam com um novo estouro e/ou uma nova recessão resultam múltiplos e bastante inapreensível. Formulados um tanto caóticamente: a questão da China, o risco de Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), a queda do preço das matérias primas e em particular as questões petroleira e bancária, a reversão do fluxo de capitais para o centro, a aguda crise do Brasil, os problemas de dívida dos chamados "emergentes" que se agudizam com a inversão da rota de capitais e os primeiros sintomas de contração dos lucros nos Estados Unidos, são alguns dos mais destacados. Todos eles ameaçam ampliar e traduzir-se em um eventual novo 2008 se efetivamente a Fed retomar seu programa de incremento progressivo de taxas de começo de ano.

Mas aconteça o que acontecer na conjuntura econômica internacional -se há algo que possa se chamar assim- em grande parte as cartas já estão fechadas se se pensa em mais longo prazo. A China não voltará a crescer com as já afamadas "taxas chinesas" e isso retira apoio "real" às suas políticas monetárias expansivas (os capitais retornam à "casa") destacando seu lado "ineficáz". E esta contradição se faz presente em curto prazo de um modo múltiplo: por um lado, as políticas de dinheiro barato torna-se uma ameaça potencial maior para a economia norteamericana, por outro lado, aparecem como uma das maiores preocupações se uma nova recaída acontecer e finalmente _o que mais preocupa o "agora" dos organismos internacionais- que o remédio- seu incremento- poderia resultar muito pior_ "Deus" sabe quanto!- que a doença.

As taxas!

Como também assinalamos a um tempo, os limites da "sinergia" entre políticas monetárias e suas fontes "reais" - ou seja, fontes para a criação de valor e mais valor, leia-se China e "emergentes"- fizeram soar os alarmes. Enquanto as advertências sobre o risco iminente de um aumento de taxas,se acompanham de vozes crescentes que reclamam "políticas fiscais" expansivas nas economias centrais.

O presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, acusando recibo da situação e somando-se à "cruzada internacional", manteve a taxa de interesse em zero, enfrentou com dureza o ministro de finanças alemã -Schaüble "o terrível- e prometeu para junho uma para nada "progre" embora "anticíclica" -isso se- compra de dívida corporativa de empresas que não sejam bancos, incluindo as companhias de seguro. Segundo Thomas Fazi se trata de uma medida sem precedentes, um grande presente às multinacionais, as quais farão com que o Banco Central injete dinheiro diretamente nas grandes empresas não financeiras. Tampouco se privou Draghi _o "Supermario", como o chamam- de pedir reformas e sobre tudo "inversão em infraestrutura" a nível europeu e nacional.

A dupla cruzada para manter políticas monetárias expansivas e implementar políticas fiscais (inversão pública, fundamentalmente) que combina o FMI, o Banco Mundial, a OCDE e o Banco Mundial, entre outros, tem sua hierarquia. E como de costume é pragmática. O primeiro é o primeiro... "As taxas! (baixas)" é a voz de mando. O outro -a inversão pública nos países centrais- é uma hipótese e pouco convincente substituto de verdadeiras fontes "reais", embora poderia tomar corpo em algum país ou em vários, em um futuro, segundo a magnitude e derivações políticas que adote a crise.

"Demasiada capacidade instalada"

Já dizemos, mas vale a pena insistir. Chama a atenção que depois de tantos anos de baixo crescimento da inversão e produtividade no "centro", apenas agora, os organismos internacionais se mostrem tão preocupados pelo caráter "insuficiente" ou "ineficaz" das políticas monetárias expansivas para estimular a economia real. Inclusive, não é que o amplo degradê que compõe a ala dos economistas neokeynesianos como Stiglitz, Krugman e até Summers, não tenha sido mencionado. Disseram, embora muito timidamente e enquanto apoiavam políticas de taxas baixas como "mal menor".

Porém agora seus expoentes mais de "esquerda", como Stiglitz, irrompem denunciando a ausência de uma relação positiva entre baixas taxas de interesse e inversão -uma verdade a gritos. Assinala que durante os últimos anos , taxas -incluindo as negativas em fins reais- acompanharam quedas no crescimento da inversão integrada majoritariamente por plantas e equipamentos. Remarca Stiglitz que segundo dados da OCDE nos Estados Unidos, a inversão caiu desde o 8,4% do PBI em 2000 a 6,8% em 2014 e na UE do 7,5 ao 5,7 no mesmo período. Acrescenta que manifestamente é absurda a ideia de que as corporações estariam dispostas a realizar um grande número de projetos se somente as taxas se reduzirem em outros 25 pontos básicos e que para dizer a verdade as corporações estão sentadas sobre centenas de milhões de dólares pois já tem demasiada capacidade instalada -temos insistido sobre este ponto.

Mas para Stiglitz, o verdadeiro problema reside em que as empresas pequenas e médias -as que necessitam de crédito dos bancos -não podem emprestar a mesma taxa de interesse dos títulos do tesouro. Remarca que por mais negativas que sejam as taxas, existe uma grande brecha -spread- entre a taxa de interesse que fixam os bancos e a taxa dos títulos do tesouro. Pelo que conclui que os bancos não desempenham nenhum papel no modelo econômico que os formuladores de política monetária vem implementando. Desinitivamente, e sempre segundo Stiglitz, enquanto a capacidade das políticas monetárias para restaurar uma economia em declive são limitadas, confiar no "modelo equivocado" evita que os bancos centrais contribuam na medida de suas possibilidades, podendo inclusive causar uma piora na situação.

Sem pretender desenvolver aqui uma polêmica com Stiglitz é preciso remarcar que sua fundamentação contém como mínimo três pontos extremamente débeis. O primeiro é uma simples contradição nos termos: supondo que as pequenas e médias empresas tiveram efetivamente acesso ao crédito barato onde investiriam sim -como bem assinala- as corporações que manejam todas as "palancas" da economia tem capacidade instalada excedente? Se existiu "espaço virgen" para a inversão lucrativa, seria utilizado pelas grandes corporações... O segundo, guarda a enorme ingenuidade- para dizer o mínimo- de pressupor que o problema dos bancos centrais reside em seus "esquemas teóricos" desatualizados... O terceiro, derivado do segundo, consiste em disfarçar em "erro teórico" os maravilhosos salvados -fundamentalmente bancários- que os estados dos principais países centrais vem operando post 2008 sem esquecer o presente as multinacionais não financeiras que o Banco Central Euuropeu está prometendo para o próximo junho.

Não se trata nem de erros nem de excessos... São políticas destinadas a salvar o rande capital concentrado que, como está inscrito na própria lógica de desenvolvimento do sistema capitalista, é o que tem a mão superior. Mas o assunto é que as políticas de salvação são eficazes enquanto em alguma parte se está criando valor e mais valor. . Dito de outro modo, enquanto exista setores da economia ou alguma economia que ostente níveis de crescimento real capaz de absorver ao menos parte das massas de capital que não encontram lugar para sua valorização produtiva. Esse rol durante os últimos anos, se conheceram -ainda que de maneira parcial- China, os "emergentes", as matérias primas e em particular o setor "shale" gasífero e petroleiro nos Estados Unidos.

São as limitações que todos estes setores unanimamente estão apresentando, que deixa nervosa uma gama muito ampla de atores. Gama que teve pouco a dizer em tanto o esquema funcionava, inclusive com muito baixo crescimento da inversão, a produtividade e a economia nos países centrais. De qualquer forma e, entretanto, suspeitam que a retirada das políticas monetárias seria muito pior que a doença. Por isso o objetivo consiste em demorar o máximo possível uma eventual recaída dramática alcançando algum nível mais ou menos sustentável de estabilização econômica. Essa é a aposta. Vejamos.

Objetivos nos descartáveis (ou o "mal menor")

A intenção da Reserva Federal norteamericana de abandonar as políticas monetáriasexpansivas arrasta um duplo objetivo. Por um lado e primordialmente busca tomar um mercado estocado que tem estado acusando cada vez mais o impácto da reversão do fluxo de capitais. Por outro lado, persegue em recuperar a ferramente da política monetária em caso de se desencadear uma crise aguda.

A ideia fundamental para a primeira meta é que se a Fed sobe a taxa de referência, tal deveria traduzir-se em um mercado de bonos baixos , a forma de incremento de interesse que rendem estes instrumentos. Uma tal situação deveria converter a este mercado em mais atrativo e frear as somas de dinheiro que se dirigem até a bolsa supervalorizando permanenteemente as ações e agudizando as tensões financeiras. Mas o certo é que apesar da retirada de flexibilização quantitativa (políticas de expansão quantitativa), da propaganda sobre o incremento de taxas e de seu primeiro aumento em começos de ano, a afluência de dinheiro para a bolsa continuou se incrementando.

Uma nota recente de Financial Times se perunta por que os rendimentos dos bonos continuam em mínimos históricos e ainda mais baixos do que estavam a um ano, sendo que a Fed levou a cabo seu primeiro incremento de taxas e a ideia de aprofundar o aumento nao saiu de seu discurso. O artigo ressalta que ainda quando se registraram fortes quedas durante os primeiros meses do ano, o valor médio das ações representa um pouco menos de 2,8 vezes seu valor contábil -o valor dos ativos na balança menos os passivos-. Relação que foi mais ou menos a que ostentavam as ações em seu ponto mais alto antes do crack de 2007-2009. Segundo a nota, o problema tem uma dupla resposta. A primeira é que a mensagem da Fed a respeito do aumento das taxas tornou-se cada vez mais ambígua durante os últimos meses respondendo ao incremento dos riscos globais. De fato o mercado de futuros dos bonos da Fed reconhece hoje uma probabilidade de somente 50% de que aumentem as taxas nada mais que uma vez em durante o ano. A segunda resposta seria de origem "econômica":Estados Unidos pode mostrar crescimento mas a ira do eleitorado mostra que não se trata de nada muito emocionante.

Suponhamos que os Estados Unidos adote uma política decidida para o aumento de taxas. Provavelmente o interesse dos bonos se incremente e amainem as cotizações no mercado de valores. Porém e em paralelo, o petróleo retomaria o rumo descendente junto com o resto das commodities, a pressão sobre os "emergentes" se incrementaria e na China a saída de capitais pressionaria por uma desvalorização do yuan. E isso sem falar dos efeitos sobre a economia mundial. É nessa complexa teia que os organismos internacionais confluem em sua cruzada para exigir que se mantenham as taxas e como resultado muito provável a Fed consia atingir as expectativas. O objetivo: uma estabilização temporária na qual o preço do petróleo prossiga uma recuperação leve -por outro lado a falta de acordos na OPEP- e o preços do resto das matérias primas se estabilizem -sem descartar inclusive algum incremento suave. Se efetivamente os Estados Unidos mantém as taxas sem mudança durante todo o ano, a reversão de fluxo de capitais poderia deter-se e inclusive mostrar um retorno_ moderado e senil, de mais está dizendo- até o mundo "emergente". Em tal contexto seria altamente provável que a China dê seus passos para a internacionalização do yuan _e mantendo um crescimento estável de uma média de 6,9%- evite novas desvalorizações de sua moeda.

Se cumprir esse cenário não pode descartar algum nível de estabilização de curto prazo. Mas o problema central é que não há estabilização possível de longo prazo sem novas fontes "reais" para a acumulação de capital. E é este assunto de caráter estratégico o que, sejam quais forem os cenários conjunturais, mantém latente a probabilidade de uma nova recessão mundial.

Tradução de: Raíssa Campachi




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