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OPINIÃO | Como o Tio Sam invadiu seu prato de comida e agora seu botijão de gás?

Não se trata de mais uma teoria conspiratória em sua rede social. O imperialismo, e especialmente o americano (mas não só ele) determinam várias coisas em nossas vidas, particularmente o preço de muitas coisas que precisamos para viver. Mostrar essa relação ilumina várias outras sobre a subordinação e dependência do país ao capital financeiro imperialista.

Leandro LanfrediRio de Janeiro | @leandrolanfrdi

segunda-feira 8 de março | Edição do dia

Arte: Juan Chirioca

Muitas das coisas que qualquer trabalhador consome são dolarizadas e mundializadas, ou seja, produzidas em real e vendidas em dólar, e o preço está determinado pelo preço no mercado mundial. Estão nessa lista café, óleo de soja, milho, arroz, trigo, carne bovina, açúcar, mas também os derivados de petróleo.

Note que nessa lista estão produtos absolutamente essenciais para a manutenção da vida humana (dados os atuais padrões locais de alimentação). Ou seja, a inflação nesses produtos, significa diretamente uma perda no poder de compra do trabalhador e até mesmo da qualidade de sua alimentação (ou da sua segurança para cozinhar).

Note também que vários desses produtos são alguns em que o país é um dos líderes mundiais em produção. O petróleo é o menos conhecido dessa lista de liderança nacional. O Brasil é o 8º maior produtor do mundo, já desbancou países como Irã, Kuwait, Venezuela e em breve alcançará o Iraque. Não há escassez de boi, de cana, de soja, nem de petróleo.

Não há necessidade de concorrer no mercado mundial para comprar o que aqui falta (salvo, parcialmente trigo e arroz). Esse preço não está determinado pela oferta e demanda que é o que nos falam desde criança como o motivo de variação dos preços. Muito pelo contrário, nós temos aqui inflação em meio a uma demanda praticamente estática e com abundância de produção. Vendem lá fora ou aqui dentro com o mesmo preço, garantindo o máximo lucro.

O preço mundializado e dolarizado não é algo “natural do mercado” como tentam te convencer na Globo News. Não há nada natural em como se constroem os mercados. Eles são “construídos” pela ação humana e entre os seres humanos há um papel destacado para os governos, o congresso, o judiciário, etc que atuam para fortalecer os monopólios e sua determinação mundial dos preços.

O governo Bolsonaro, por exemplo, exterminou um dos últimos estoques reguladores de cereais da CONAB que existiam, o estoque de milho (já tinha acabado o da soja no primeiro governo Dilma, e em seu segundo governo o do arroz e do trigo). Assim cada fazendeiro, e especialmente as gigantes imperialistas do agronegócio que centralizam essas mercadorias e estão acima do latifundiário na “cadeia alimentar”, vendem ao preço que quiserem. Adivinhe se não será aquele de maior lucro, o mundial? Nem precisam levar para a Europa para vender aqui como se estivessem em Berlim.

Se trata de ações dos governos para auxiliar a que sejam os monopólios a determinar o preço. Esses produtos estão concentrados entre 5 ou 10 mãos imperialistas, tais como Cargill, ADM, Dreyfuss, entre outras, e uma ou outra “nacional”, como a JBS na carne. Os preços estão determinados por esses monopólios altamente entrelaçados no mercado financeiro mundial.

Com o monopólio determinando o preço de uma dessas mercadorias outras também sobem, seja porque concorrem pela mesma terra a ser plantada, ou porque um produto entra como insumo para outro (por exemplo a soja e o milho na ração animal). Daí que quando sobe o milho também sobe o boi, o frango, o porco.

Quanto mais discrepante for o preço mundial (em dólar) e o custo local em água, terra, força de trabalho (em real) maiores os lucros dos latifundiários e desses atravessadores monopolistas todo-poderosos. Cada centavo a mais do lucro desses gigantes sai do seu bolso, do seu prato de comida (e de outros trabalhadores ao redor do mundo). E para garantir negócios ainda mais lucrativos usam as mais modernas (e ambientalmente destrutivas) tecnologias, detidas novamente por um punhado de empresas imperialistas, criam uma série de opções de CRA’s, hedges, derivativos na BMF/Bovespa (B3). Fundiram a rapina do latifúndio de um país herdeiro da escravidão com o mais moderno parasitismo capitalista. O agro brasileiro está entrelaçado e ao mesmo tempo subordinado ao capital financeiro internacional.

Como que isso chega no gás de cozinha, especialmente se no Brasil teríamos uma estatal produzindo petróleo e seus derivados?

É que o petróleo já não é nosso, nem a Petrobras. E isso, tal como na soja não foi algo natural. Foi uma construção da interação (e subordinação) dos governos aos interesses de Wall Street. Castelo Branco, lá na ditadura, abriu o capital da empresa. A quantidade de ações no mercado aumentou muito sob FHC, e continuou a aumentar sob Lula e Dilma. Hoje 43,11% do capital da empresa está negociado em Wall Street e Madri (e uma outra parcela gigante na Bovespa).

O que querem esses acionistas? Lucro e mais lucro. E como fazem isso? Vendendo tudo que produzem ao preço internacional, igualzinho à soja. A Petrobras informou em seu último balanço contábil que o preço de produção de petróleo no pré-sal está em US$2 por barril. O que ela faz com isso? Exporta ou vende para sua própria refinaria ao preço internacional, quase US$70. Um lucro imenso de US$ 68 por barril! E esse lucro vai parar no bolso dos acionistas privados para os quais a empresa é dirigida já faz tempo. Com mudanças em alguns aspectos como o desenvolvimento da indústria nacional e nível de emprego sob Lula e Dilma, todos eles, nem falar Temer e Bolsonaro, honraram esse compromisso com o imperialismo. A Petrobras serve a Wall Street e nem as fatias ou migalhas que aqui ficavam querem deixar.

O problema nem sequer termina aí no petróleo “cru”. Ele chega ao preço internacional na refinaria e ela o processa para virar diesel, gasolina, gás de cozinha e outros derivados. E o que ela faz com isso? Vende ao preço de custo partindo do custo internacional da matéria prima? Não. Vende como se estivesse em Nova Iorque, o que significa mais lucro para os acionistas.

Bolsonaro quer mudar isso? Não, ele já disse que não mexerá em nada disso. Ele pode mudar algum imposto, criar algum mecanismo para compensar os acionistas (que nem Dilma fez na eletricidade) mas o preço será ditado pelo imperialismo e assim ele será remunerado. As privatizações "com o STF, com tudo” seguirão sendo encaminhadas, como agora querem fazer a toque de caixa com fatias da Petrobras e com toda a Eletrobrás e os Correios.

Um general mudará isso? Um general que foi ministro de Temer? O alto comando das Forças Armadas (não só do Exército) está comprometido com esse projeto (no mínimo por interesse próprio de enriquecimento). Cada privatização da Petrobras já vinha com a assinatura do presidente do Conselho de Administração da Empresa, o Almirante de Esquadra Leal Ferreira e o ministro de Minas e Energia, o Almirante de Esquadra Bento Albuquerque. Quem elogia os militares e a intervenção de Bolsonaro, como fez o PT e diversos dirigentes sindicais petroleiros, atrasa a luta contra a entrega dos recursos naturais ao imperialismo, atrasa a luta contra os combustíveis caros. Um atraso, que, como argumentamos, não foi somente retórico. Ele incluiu desorganizar uma greve nacional que agora está sendo retomada, parcialmente em alguns lugares.

É assim a história de como Tio Sam primeiro chegou no seu prato de comida e agora até mesmo no fogo que você precisa para cozinha-la. Mas essa história não tem o ponto final aqui. As próximas páginas ainda estão em aberto, e dependem da ação dos trabalhadores em geral e dos petroleiros em particular. Expulsar Tio Sam do botijão poderia ser um passo contra o imperialismo em nosso país.




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