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Patricia GalvãoTrabalhadora da USP e integrante da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

domingo 22 de agosto | Edição do dia

As notícias a respeito da tomada de Cabul, capital do Afeganistão, pelos Talibãs correram o mundo. Vimos as cenas chocantes do aeroporto da cidade, onde afegãos buscavam desesperados alguma forma de fugir do país, agora totalmente dominado pelo grupo extremista.

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Aqueles que têm mais de trinta anos talvez se lembrem de ter ouvido pela primeira vez sobre o Afeganistão através do filme Rambo III. Nessa "pérola" hollywoodiana o veterano da guerra do Vietnã vai até o pequeno país asiático para lutar contra os malvados soviéticos que ocupavam a região. O filme é expressão da propaganda norte-americana anticomunista durante a guerra fria e mostra, sem querer, quem na verdade esteve por trás do surgimento de grupos fundamentalistas altamente armados como os talibãs ou milícias como a Al Qaeda. Foi o dinheiro do Tio Sam que pagou pelas armas apontadas até hoje contra o povo afegão. O Talibã surgiu a partir de grupos rebeldes aplicados pelos EUA para expulsar os soviéticos.

De 1994 a 2001 o regime do Talibã subiu ao poder e impôs a sua visão da lei islâmica. No regime do talibã as mulheres eram proibidas de tudo. Cobertas com a burca, que cobre a mulher da cabeça aos pés, o mundo delas passa a ser apenas o que se pode apreender das frestas dessa vestimenta sufocante.

A burca era a vestimenta obrigatória. As mulheres não podiam mostrar seu corpo, seu rosto nem suas ideias. Somente podiam sair de casa se acompanhadas de um homem, seja o marido ou o irmão. Não era permitido que as meninas frequentassem a escola depois dos 12 anos. Aos 15 eram obrigadas a se casarem. Tornavam-se verdadeiras escravas sexuais. Desobedecer as regras impostas resultava em morte ou torturas.

Com o atentado às Torres Gêmeas em 2001, pelo grupo de Osama Bin Laden, a Al Qaeda, também velho parceiro do imperialismo norte-americano, novamente o Afeganistão voltou ao noticiário.

O regime do Talibã foi acusado de esconder o terrorista e representava um risco à liberdade e às democracias capitalista. As denúncias da terrível condição das mulheres afegãs chocavam. Filmes como "A caminho de Kandahar" comoveram salas de cinemas. Na película uma jornalista afegã refugiada no Canadá, voltava ao país natal para resgatar sua irmã que tinha planos de se suicidar, pois já não suportava mais a cruel condição a que ela, assim como todas as mulheres afegãs, era submetida.

Com a desculpa de combater o terror, ou assim afirmavam as autoridades norte-americanas, o republicano George Bush determinava a ocupação do país pelas tropas da Otan. Prometia com isso ajuda humanitária e proteção à população. Em 2002 a fome assolava o país. Pessoas se alimentavam de capim, pois não havia comida. Pais vendiam seus filhos para poder ter algum dinheiro para comprar comida. A ajuda humanitária prometida pelos Estados Unidos veio em forma de bombas e armas que caíram sobre as cabeças do povo que diziam querer libertar.

Em vinte anos de ocupação do Afeganistão pelas tropas norte-americanas os negócios com a rica burguesia seguiram na mesma velocidade que os bombardeios. Com o anúncio unilateral de Joe Biden de retirada das tropas do país, os Estados Unidos deixam o Afeganistão em condição similar ao que encontraram.

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Mulheres solteiras se dizem dispostas a se matarem caso sejam obrigadas a se casarem com um membro do talibã. Professores da universidade de Cabul se despediam de suas alunas, elas já não sabem se conseguirão um dia se formar.

Os governos dos países ocidentais olham com falsa consternação à situação. A China correu a reconhecer o novo governo. De um lado ou de outro as mulheres estão entregues à própria sorte. É com a mesma demagógica consternação que esses governos assinaram acordos comerciais com países do oriente médio acusados de manterem um regime extremamente cruel sobre as mulheres. Ou observaram a subida o poder de partidos de extrema-direita com seus discursos misóginos que significaram para as mulheres e LGBTs aumento da violência de gênero, retrocessos em direitos e ataques profundos à classe trabalhadora.

A ofensiva imperialista sobre o Afeganistão nunca se tratou de defender a democracia ou a vida das meninas e mulheres afegãs. No mundo todo são as mulheres as primeiras vítimas da pobreza, do fundamentalismo religioso ou das políticas de ajustes determinadas pelos governos neoliberais e pelo Banco Mundial. No ocidente todo a mão de obra feminina recebe salários muito menores que os homens e estão nos postos de trabalho mais precarizados. O feminismo liberal tenta nos convencer que a minissaia é melhor que a burca, mas mantém as mulheres escravas dos padrões de beleza. A sororidade em relação às mulheres afegãs dura quase o mesmo tempo que o rechaço dos governos ao novo/velho regime que ascende no Afeganistão. A opressão da mulher afegã serve aos capitalistas para lembrar as demais mulheres que ela devem aceitar passivamente a exploração a que são submetidas ou algo muito pior pode acontecer. E assim mantém o controle do estado e da burguesia sobre o corpo da mulher.

O Talibã tenta convencer a opinião pública internacional que estão mais moderados. Acreditar ou não nessa suposta moderação é uma questão de conveniência. A moderação basta ser o suficiente para garantir acordos comerciais vantajosos. Enquanto isso, a população em desespero tenta alguma forma de fuga. E lembramos das mulheres. Do grito dessas mulheres afegãs que em duas décadas de ocupação nunca deixaram de gritar.

Vemos nas ruas as mulheres se levantando em protesto contra o reacionário Talibã. E nos irmanamos às mulheres e ao povo afegão. É urgente batalhar pela emancipação da classe trabalhadora e dos oprimidos. Para isso não é possível se apoiar em intervenções do imperialismo que podem trocar a burca pela minissaia sem deixar que as mulheres tenham o direito sobre seus corpos e não sejam mais oprimidas ou exploradas pela burguesia ocidental. Tampouco podemos comemorar a tomada do Afeganistão pelo Talibã, como faz o PC Chinês sob aplausos de correntes estalinistas degeneradas como o PCB de Jones Manoel ou o PCO que ainda não se recuperou do vexatório apoio a futebolistas acusados de assédio. Não há nada a se comemorar, mas uma batalha a ser dada pela independência de classe para que a classe trabalhadora se erga para dar fim aos conflitos no oriente médio e emancipar todos os oprimidos.

Nós, do grupo de mulheres Pão e Rosas fazemos coro com o grito das mulheres afegãs em luta pelo pão e pelas rosas.

Esquerda Diário Debate
O que acontece no Afeganistão? Uma visão Marxista.




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