Mundo Operário

ENTREVISTA

Como é ser motorista de ônibus em meio a pandemia?

Em meio a pandemia, trabalhadores e trabalhadoras são obrigados a se expor diariamente ao risco de contaminação pela COVID-19, nós do Esquerda Diário entramos na realidade de um motorista de ônibus e trouxemos relatos de como é o dia a dia de um rodoviário em meio à crise sanitária.

terça-feira 13 de abril| Edição do dia

Esquerda Diário: Como tem sido trabalhar na pandemia?

Motorista:Está sendo muito complicado! Porque somos os que estamos expostos, estamos na linha de frente, todos os dias. Não tivemos redução na frota, então estamos trabalhando com medo! Sempre quando chega em casa fica aquela dúvida, né? Será que eu estou contaminado? E isso acaba entrando na nossa cabeça, fica na nossa cabeça que podemos nos contaminar a qualquer momento o que leva bastante estresse pro nosso dia, ficamos estressados com tudo que ta acontecendo e a gente no risco do dia a dia trabalhando.

Esquerda Diário: A empresa tem tido algum tipo de cuidado com os trabalhadores?

Motorista: No começo, no ano passado, eles estavam disponibilizando álcool em gel para deixar fixo no ônibus, perto do motorista, pra que a gente e passageiros pudessem higienizar as mãos. Só no começo do ano passado, com o primeiro lockdown. Agora esse ano, depois que voltou a crescer os números de caso, não estão disponibilizando álcool em gel e etc. Às mascaras só foram dadas no ano passado, esse ano foi só uma vez, tanto que se eu trabalho de máscara, são as que comprei, inclusive a máscara que foi disponibilizada é péssima, de péssima qualidade, tanto que nem conseguir usar, segui usando as minhas.

Esquerda Diário:E os riscos que vocês estão expostos? Fale um pouco de como ver essa questão!

Motorista:Sobre os riscos... são inúmeros. O principal é o perigo de ser contaminado e o que faz aumentar nossa preocupação, estresse... acabamos ficando sobrecarregados e isso afeta a direção de qualquer veículo. Eu uns meses atrás tive uma crise de ansiedade, senti meu coração disparar e minha pressão baixou e isso aconteceu pelo forte estresse que estamos submetidos a passar no dia a dia. Dirigir todos os dias com medo, preocupado.. com tudo isso na cabeça, com tudo que está acontecendo, acaba refletindo no nosso corpo, né? Tem casos aqui, que aparecem manchas roxas no corpo das pessoas devido ao estresse, então tem as questões que envolvem a nossa saúde psicológica, é muito arriscado e estressante trabalhar no meio de uma pandemia dessa.

Esquerda Diário: Vocês estavam reivindicando vacinas, por que você acha que a vacina é importante para os motoristas? Para além da vacina, tem mais alguma reivindicação por parte dos motoristas?

Motorista: Estamos nos mobilizando para que os motoristas possam ser vacinados, outras empresas vizinhas, também estão na luta, colocaram um cartaz na empresa, reivindicando vacinas já, porque somos linha de frente. E pra além da reivindicação da vacina, as reivindicações dos rodoviários são muitas, nós trabalhamos sem cobrador, exercemos dupla função, a de dirigir e a de cobrar passagem, indo também pra carga horária, que passa totalmente do que é recomendado, que seria sete horas e vinte minutos, mas a gente costuma fazer entre dez a doze horas de trabalho. Aqui eles não pagam essas horas que passam, não recebemos periculosidade, não temos adicional noturno, não temos horário pra jantar, outras questões muito graves que a gente sempre briga pra conseguir que esses direitos sejam pagos. Reivindicamos uma mudança porque é muita exploração, exercermos duas funções, não ter horário de janta, não receber adicional noturno, é muita coisa errada na empresa.

Esquerda Diário: Você teve contato com o vírus? Foi contaminado em algum momento na pandemia?

Motorista: No ano passado, em fevereiro, eu acho que fui contaminado pela COVID, fiquei muito mal, tive todos os sintomas! Febre, dor no corpo, perdi paladar, olfato, demorei dias para me recuperar, só que eu não sabia, pensei que fosse uma gripe forte e se foi COVID foi com certeza no meu trabalho né? E continuei trabalhando, não peguei atestado, até passei mal, tive que ser socorrido. Em momento algum o patrão quis saber se era algo grave se preocupou com o ônibus e nem cogitou realizar um teste. Mas a gente sabe como que é o pensamento desses capitalistas, o negócio deles é lucro acima de tudo e nós trabalhadores somos só mais um número, se não serve mais, põe outro no lugar. Fiquei muito chateado porque por eles, não é dado a mínima... até mesmo porque, tenho amigos que pegaram agora, mas pegaram atestado, de 15 dias. Amigos de outras empresas relatam que sempre no final do expediente vem alguém com a notícia que perdeu alguém pra covid, eu sempre escuto isso dos companheiros aqui, estamos perdendo nossos amigos. Ta muito claro pra gente que a pandemia, esse vírus, tem levado muitos amigos nossos motoristas e cobradores.

Esquerda Diário: A empresa se posicionou de forma indiferente como citou, fale um pouco mais sobre isso?

Motorista: Não tive nenhuma assistência da empresa! Eu passei no plano de saúde, eu passei no hospital pela segunda vez, porque eu fui parar duas vezes sem nenhum suporte, pra falar a verdade, eu só peguei um atestado, porque foi o médico que quis dar um dia, foi quando eu perguntei a ele e se eu não melhorasse, porque eu não melhorava, por isso eu tinha quase certeza que estava, porque nunca fiquei tanto tempo tão ruim, ele mesmo assim só quis me dar um dia e suporte da empresa não tive. Amigos que pegaram esse ano, o máximo que eles fazem é dar os 15 dias, ficam 15 dias em casa ou no hospital se tratando, só isso que eles fazem, afastar a gente.

Por relatos fica evidente o completo descaso dos políticos e empresários para com os trabalhadores. Não se importam com nossas vidas. Se faz mais que necessário a organização de todas as categorias em uma só luta, contra os ataques de Bolsonaro, golpistas e o sistema capitalista.

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