Política

OLIGARQUIAS PAULISTAS

Com o débil Ricardo Nunes, veremos embate entre MDB, PSDB e DEM pelo legado de ataques de Covas em SP

Ainda que no momento prevaleça o decoro do luto, a morte de Bruno Covas deflagra uma disputa de poder pelo comando da prefeitura da maior cidade do país. A escolha de Ricardo Nunes para vice-prefeito foi fruto de uma costura política que agora amarra os caminhos de PSDB, MDB e DEM, que disputarão a influência sobre o débil novo prefeito e o legado de ataques de Covas contra os trabalhadores paulistanos.

segunda-feira 17 de maio| Edição do dia

Foto: Jhony Inácio - Futura Press/Estadão Conteúdo

No momento prevalecem as declarações respeitosas e exaltadoras de Covas, em via de canonização pela imprensa burguesa como “um político moderado, um autêntico democrata”. Uma imagem que em nada condiz com o legado verdadeiro do tucano, responsável pela aprovação sob repressão e balas de borracha da reforma da previdência municipal, quando debochou das professoras municipais que protestavam contra o confisco de suas aposentadorias; responsável por anos de precarização e privatização da saúde que tornou o sistema de São Paulo mais frágil para responder à pandemia; responsável pelo despejo de famílias inteiras em meio a pandemia. Esse é o verdadeiro legado de Covas e que agora com sua morte, Ricardo Nunes (MDB) seu vice, que herda automaticamente sua gestão, buscará dar continuidade.

Porém, o desconhecido e obscuro Nunes, que conta no currículo com investigações por superfaturamento de contratos de creches, só foi alçado ao cargo por uma costura de interesses entre alguns padrinhos poderosos. E durante a campanha, e mesmo após a vitória, foi mantido nos bastidores por esses escândalos, entre outros, como o caso de agressão a sua mulher, que chegou a registrar um boletim de ocorrência contra ele. Nunes até então vereador só era conhecido na Câmara por ser um reacionário entusiasta de projetos como o Escola sem Partido e combatente da chamada ideologia de gênero, serviços que prestava em nome da bancada da bíblia.

Mesmo assim, seu nome foi bancado por fortes padrinhos que o emplacaram como forma de selar uma aliança. A começar do ex-presidente Michel Temer, coincidentemente um vice obscuro que emergiu ao poder - por via de um golpe institucional em que teve participação ativa. Segundo fontes, Nunes vem se aconselhando diariamente com o Temer, com quem mantém uma longa relação, que remete aos negócios mantido pelo empresário, dono da empresa de dedetização Nikkey que domina o setor de controle de pragas no Porto de Santos, controlado por muitos anos por Temer. Da mesma forma Nunes vem mantendo contato assíduo com o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, indicando o peso que a capital paulista assumirá para os interesses do partido.

Outro ator que exerceu influência para a indicação de Nunes à chapa governista foi Milton Leite, presidente da Câmara de São Paulo pela terceira vez e importante figura da política paulistana. Sua eleição para o cargo com 49 dos 55 votos mostra a extensão de seu controle sobre o legislativo da cidade que já era determinante para Covas e que para o débil Nunes será muito mais.

A outra parte do acordo era o PSDB que tinha interesse em selar uma aliança com o MDB para começar a pavimentar a candidatura de Doria a presidente. Entre os prós e contras de aceitar o nefasto Nunes, parecia um preço pequeno conceder o papel de vice em troca de consolidar um importante apoio local às pretensões de Doria. Entretanto, com a morte de Covas o partido tucano perde o protagonismo na cidade e vê outros nomes crescerem o interesse em seu bastião. Isso dentro de um contexto em que o principal intuito para a confirmação da aliança, a candidatura presidencial do tucano, parece cada vez mais comprometido. Doria mesmo com toda a demagogia em torno da vacina e sua suposta oposição a Bolsonaro, risível diante da campanha BolsoDoria na eleição anterior, não consegue emplacar nas pesquisas e nem mesmo consolidar as alianças para sua candidatura. Doria recentemente irritou o DEM, provocando ataques públicos do presidente do partido ACM Neto, ao fazer seu vice Rodrigo Garcia até então do DEM se filiar ao PSDB com vistas a sua sucessão, bloqueando assim uma possível campanha de Geraldo Alckmin novamente a governador dentro das disputas internas do partido.

Veja mais:

A falência do tucanato paulista

A capital paulista emerge agora como um campo de batalha das disputas entre as forças da dita terceira via. PSDB, MDB e DEM preservam importante capital político na cidade, mas viram sua importância de conjunto no regime do golpe diminuir relativamente com o avanço de forças ainda mais reacionárias como os partidos do centrão e com o bolsonarismo comandando a extrema direita. O arranjo de uma aliança entre essas 3 forças encontra em São Paulo um ponto decisivo. Independente de como e quem emerja no protagonismo dessa composição será uma continuidade dos ataques contra os trabalhadores que a prefeitura de Covas já vinha descarregando.

Por isso que não nos solidarizamos com Covas, mas sim com as professoras e servidores municipais que o ex-prefeito confiscou parte de suas aposentadorias, nos solidarizamos com as milhares de mortes na cidade que poderiam ser evitadas caso fossem feitos testes massivos, caso ao invés de hospitais de campanha fechados prematuramente tivessem sido investido na ampliação do sistema permanente de saúde, inclusive reabrindo hospitais fechados por ele, nos solidarizamos com famílias postas nas ruas sem compaixão em meio a pandemia. Enfim, nos solidarizamos por todas as vidas de trabalhadores que foram perdidas para a manutenção do lucro na pandemia, do qual Covas foi cúmplice, como também por todas as vidas precarizadas, fruto dos cortes na saúde, na educação, na aposentadoria, nos serviços públicos em geral, dos quais Covas foi agente. Não lamentamos por esse legado.




Tópicos relacionados

Ricardo Nunes   /    Bruno Covas   /    João Doria   /    PSDB   /    São Paulo (capital)   /    Política

Comentários

Comentar