Sociedade

Colapso em Manaus: famílias destruídas e dívidas absurdas com hospitais privados

Reportagem realizada pela BBC News Brasil mostra um caso que é cada vez mais frequente: vidas levadas pelo descaso dos governos e dívidas cada vez maiores com hospitais privados, que lucram com a pandemia.

quinta-feira 21 de janeiro| Edição do dia

Foto: Reuters

O caso

O advogado Amaury Andreoletti ficou quatro dias internado e viu sua mãe e seus dois irmãos serem também hospitalizados, depois de muita espera na fila por leitos. Amaury e sua mãe se recuperaram, os dois irmãos não resistiram.

O irmão de Amaury não conseguiu vaga na rede pública e foi internado por 18 dias em estado grave em um hospital privado, cujo valor da diária é absurdamente cara - 10 mil reais. A irmã sofreu com crises de pânico na UTI lotada do hospital estadual Delphina Aziz. A morte de ambos aconteceu em um intervalo de 4 dias.

Além de lidar com todo o desespero de esperar na fila, encontrar vaga, lidar com perdas de familiares, além de sofrer com a própria doença, a família vai ter que arcar com uma dívida gigantesca de 180 mil reais. É um triste exemplo de como os lucros de hospitais privados se colocam à frente das vidas da população.

"Venho vendendo carro, imóveis. Hoje eu não tenho um aporte para fazer", contou Andreoletti à BBC News Brasil. "Neste momento, estou chegando na casa da minha tia para deixar documentos para que ela faça um financiamento para ajudar a pagar as diárias do meu irmão."

Descaso dos governos

"Tudo aqui está um caos. Tem gente morrendo por asfixia, eu presenciei quando visitei minha mãe. As pessoas já chegam em estado muito crítico e não são atendidas por que não tem vaga", diz o advogado à reportagem. "Quando fui sepultar minha irmã tinha câmara frigorífica no cemitério. Tinha também no hospital de referência. Essa segunda onda está muito mais forte que a primeira."

Mais de 4 mil pessoas morreram por covid-19 desde o início da Pandemia na capital amazonense governada pelo prefeito David Almeida (Avante), antecedido por Arthur Virgílio Neto (PSDB). A escassez de testes de identificação do vírus esconde casos de óbitos não confirmados, e que muitas vezes acontecem dentro de casa por falta de vagas na saúde pública. Segundo dados da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana da Prefeitura de Manaus, a média diária é aproximadamente de 30 mortes domiciliares.

O Ministério da Saúde do governo Bolsonaro foi alertado pelo menos 4 dias antes da falta de oxigênio nos hospitais de Manuas, e o descaso levou a centenas de mortes, enquanto a população e os trabalhadores da saúde se desesperavam nas redes sociais em busca de oxigênio.

O governador Wilson Lima (PSC) foi investigado por fraude em gastos de verbas destinadas ao combate a pandemia, e é responsável por desde o final de março de 2020 o Amazonas ser o estado que entrou em crises mais severas em relação a pandemia, com superlotação dos hospitais, colapso do sistema funerário e exaustão dos trabalhadores da saúde.

Sede de lucro dos capitalistas

Segundo relatos de médicos e pacientes ouvidos pela BBC News Brasil, hospitais da rede privada de Manaus têm cobrado antecipadamente das famílias pelo tratamento de pacientes com coronavírus.

Os valores antecipados variam entre R$ 50 mil e R$ 100 mil, valores absurdos em meio a crise econômica e ao desemprego que se aprofundaram em meio a pandemia.

A divisão dos leitos de UTI entre hospitais privados e públicos só acontece para garantir os lucros dos grandes hospitais privados, mesmo em uma situação de calamidade sanitária que retira as vidas de milhares de pessoas.

São necessárias medidas imediatas para centralizar a fila de leitos de UTI e contratar novos trabalhadores da saúde para atender a alta demanda. Um plano emergencial imposto pela mobilização que acabe com essa situação dramática e impeça que os trabalhadores paguem com suas vidas pela irresponsabilidade do Estado e pelos lucros dos capitalistas da saúde.

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