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Racismo | Claudio Castro (PL) e Rui Costa (PT) de olho nas eleições 2022: racismo e violência policial

Entre as 10 cidades que mais matam pessoas negras estão 2 municípios da Bahia e 8 do Rio de Janeiro. Os dados chamam a atenção justamente por serem dois estados com fortíssima presença negra, um governado por Cláudio Castro que aprofunda os traços reacionários de Witzel e outro por Rui Costa do PT.

quinta-feira 2 de dezembro de 2021 | Edição do dia

Desde a eleição de Bolsonaro definimos que há um choque à direita nas relações raciais, isto é, um ataque reacionário à identidade negra, seja pela via da repressão policial, perseguição à cultura negra ou até mesmo no aumento de casos de injúria racial. Num primeiro momento, o Rio de Janeiro, no governo Witzel foram dezenas de bebês e crianças assassinados pela polícia, além de sua polícia assassinar em média 5 negros por dia.

De lá pra cá muita coisa mudou. Há outros atores políticos que têm ajudado a promover esse choque nas relações raciais, um deles é o Cláudio Castro que aprofunda os traços reacionários da política racista de Witzel e em seu governo bate recordes de chacinas que ele mesmo comemora e assina embaixo. Na recente chacina no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, onde as mães resgataram os corpos dos seus filhos no mangue, ele apoiou a operação dizendo que as pessoas assassinadas “coisa boa não estavam fazendo”.

Em recente pesquisa feita UOL/FBSP 8 cidades do Rio de Janeiro, 4 na Baixada Fluminense (Duque de Caxias, São João de Meriti, Queimados e Mesquita), 3 na Região Metropolitana (Itaguaí, Japeri e São Gonçalo) e em Angra dos Reis, na Costa Verde, estão entre as que mais matam pessoas negras no Brasil. Um número absurdo que demonstra que há uma política racista de opressão nas favelas e de guerra às drogas que segue sendo o carro chefe também do governo Cláudio Castro.

Mas esses dados também chamam a atenção para outros fatores. Castro tem se distanciado de Bolsonaro frente sua queda de popularidade, e faz isso por meio da UERJ, alvo no último ano de ataques da extrema-direita carioca (que protocolaram um pedido de extinção da UERJ e do fim das cotas na universidade). Agora a UERJ passa por uma série de investimentos em pesquisa, extensão, infra-estrutura e é a primeira vez em anos que não tem seu orçamento contingenciado. Essas medidas também visam ganhar simpatia do progressismo depois do desgaste com a chacina do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro. Decerto, essas medidas são importantes, mas não podemos confiar que serão medidas duradouras porque tem uma conjuntura eleitoral na aliança entre Ricardo Lódi e Cláudio Castro e só a luta pode garantir a permanência dessas medidas e o aprofundamento de medidas em favor da classe trabalhadora. A entrada de Bolsonaro no PL frustra os planos de Castro, mas devemos acompanhar como isso vai se desenvolver.

Mesmo se distanciando de Bolsonaro, Castro continua sua política reacionária de repressão à população negra e pobre nas favelas. Ele sabe que sua reeleição depende de sua base social, sobretudo, das regiões dominadas pela milícia. A política de Castro, assim como a de Witzel, estiveram a serviço de debilitar as regiões dominadas pelo Comando Vermelho e favorecer as milícias. Não é estranho que justamente os 8 municípios cariocas onde mais se mata negros no Brasil, sejam regiões com disputas entre facções e milícias. As operações policiais ilegais que têm ocorrido no governo Castro estão a serviço de aprofundar as relações do estado carioca e das milícias. Por outro lado, não podemos negar que tanto a milícia quanto o tráfico estão contra os interesses da classe trabalhadora e o povo pobre.

Além disso, há um outro elemento do cálculo eleitoral de Cláudio Castro visando a reeleição em 2022 que é a de dialogar com uma base de direita que vem se desprendendo de Bolsonaro e está órfã de uma 3ª via. O número recorde de chacinas, da letalidade policial, do aprofundamento do racismo estrutural via choque à direita nas relações raciais, são parte do cálculo eleitoral de Castro e do aprofundamento de sua base social miliciana. É absurdo que Castro utilize da violência policial e da opressão do povo negro e trabalhador nas favelas para se reeleger, isso mostra o caráter racista e reacionário de sua política pro estado do Rio.

Poderíamos dizer que isso também faz parte do cálculo eleitoral que Rui Costa faz na Bahia, a fim de capitalizar sua boa aprovação (53% de ótimo, segundo DataPoder360) na eleição do senador Jacques Wagner (PT) para o governo da Bahia. A cidade de Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano é a cidade que mais mata pessoas negras no Brasil, em oitavo lugar está Salvador. 97% das pessoas mortas pela polícia na Bahia são negras, em Salvador 100% das pessoas assassinadas pela polícia eram negras. O estado também lidera em número de mortes por chacina no Nordeste e o é segundo que mais mata em operações policiais, perdendo apenas para o Rio de Janeiro.

Sua política de segurança pública é bem de direita, há dois meses atrás frente a escalada de violência no estado, inclusive, soltou declarações públicas divergindo do secretário de segurança pública do governo, Ricardo Mandarino, defedendo que a polícia tinha que tomar “ações duras” e uma “política de confronto”. Mandarino segue sendo secretário em seu governo.

O embate com ex-delegado da polícia civil na ditadura na realidade só mostrou que Rui Costa tem tentado através de uma política de segurança pública que aprofunda o racismo estrutural no estado e a violência policial, dialogar com a base social do bolsonarismo e de ACM Neto (DEM) que lidera com 23% das intenções de votos para governador da Bahia, segundo pesquisa do RealTime Big Data. Além disso, Jacques Wagner já acenou ao MDB para uma possível aliança e conta com o apoio do PP (partido do atual vice-governador, João Leão).

Rui Costa tentou se diferenciar ao longo da pandemia de Bolsonaro, isso se mostra no alto índice de aprovação na região (59,2%, segundo Paraná Pesquisas), tomando medidas restritivas, defendendo contra o tratamento precoce e defendendo o uso de máscaras. Diferentemente da ex-secretária municipal de Saúde Raissa Soares, “Drª Cloroquina” que ganhou projeção nacional defendendo o uso de hidroxicloroquina em Porto Seguro (BA). Além disso, não faltaram deputados bolsonaristas como Bia Kicks (PSL-DF) e Soldado Prisco (PSC-BA) para agitar um motim policial na base bolsonarista da PM baiana depois do surto e morte do PM Wesley Góes.

Mas o fato é que Rui Costa e o PT na Bahia se diferem da extrema-direita bolsonarista, mas vem há anos tentando dialogar com a base das igrejas evangélicas (Salvador é a quarta cidade do país com mais evangélicos) e com um senso comum de que os problemas sociais serão resolvidos com uma política de segurança pública de guerra à drogas e de repressão. Visão essa que a política bolsonarista, bem como a mídia burguesa ajuda a fortalecer.

Em contrapartida, o PT também não fez nada para alterar esse curso. No governo federal, com o aumento do encarceramento da juventude negra, a ocupação do Haiti, a ocupação pelo exército da favela da Maré e o apoio às UPPs. Não é de hoje que sabemos que os governos petistas investem em segurança pública como parte do programa de seus governos. Nem falar a CUT que deveria tomar dentro dos sindicatos como uma demandas dos trabalhadores as demandas mais sentidas e imediatas do povo negro.

Rui Costa chegou a comparar a chacina do Cabula em 2015 com “um artilheiro em frente ao gol” que precisa ter “a frieza e calma necessárias para tomar a decisão certa”. A PM matou 12 jovens negros esse episódio e depois de sair uma setença abolvendo os policiais envolvidos, Rui Costa disse que não cometa decisão judicial. O golpe institucional aprofundou o nível de ataques já em curso com o governo do PT, com um regime político mais à direita, as relações raciais também se alteraram, Rui Costa só fez aprofundar. Visando as eleições de 2022 e uma possível eleição de Jacques Wagner que já governou o estado entre 2007 e 2015, ele utiliza o “combate ao crime organizado” como parte de dialogar com uma base de direita no estado. Não era pra menos, é só ver a aproximação de Lula com Alckmin (PSDB) para uma possível chapa à presidência em 2022.

É absurdo que um governo do PT seja o estado que mais mata jovem negro e tenha cidade que mais mata pessoas negras. Mais absurdo ainda é ver o governador do Rio que aprofunda os traços racistas no estado e sua ligação com as milícias. Na corrida eleitoral, seja pro reformismo ou para direita, a questão negra é fundamental, sobretudo em estados como Bahia e Rio de Janeiro com forte presença negra entre a classe trabalhadora. Ainda que se diferenciam ideologicamente em campos distintos, percebemos que Cláudio Castro e Rui Costa aprofundam o racismo estrutural e repressão em seus estados, pensando meramente em cálculos eleitorais e em como agradar sua base social miliciana e a oligarquia baiana.

O repúdio à chacina do Jacarezinho e o alto índice de 46,1% desaprovação do governo de Castro mostram que a população que mais sofre com a violência policial repudia este tipo de política. As massivas mobilizações do black lives matter também mostraram que no coração do capitalismo mundial trabalhadores e jovens se levantaram contra a violência policial. Nesse marco, não podemos confiar em saídas reformistas e eleitorais para resolver as contradições do racismo do capitlismo e devemos combater com todas nossas forças representantes da extrema direita que sempre que podem destilam seu ódio contra os trabalhadores e povo negro.




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