Teoria

ENTREVISTA

Cláudia Mazzei: ’a luta das mulheres tem que ser cotidiana’

Cláudia Mazzei Nogueira, professora do Curso de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências da Saúde da Universidade Federal de São Paulo, na Baixada Santista, fala ao Esquerda Diário sobre o 8 de Março, a opressão no sistema capitalista e a produção de conhecimento sobre gênero na universidade atualmente.

terça-feira 8 de março de 2016| Edição do dia

Esquerda Diário: Como você enxerga a importância da luta das mulheres, simbolizada no 8 de Março?

Cláudia Mazzei: Eu acho que é importante mesmo quando você coloca "simbolizada no 8 de Março", porque há uma tendência de uma concentração de manifestações, inclusive de vários grupos que eu apoio, neste dia, e que no transcorrer do ano ou dos anos não apresenta tanta militância, tantos exemplos para que a gente pudesse marcar não só enquanto registro, mas enquanto luta de fato para a gente superar as desigualdades entre homens e mulheres - não só no âmbito, que é a minha área em que eu sempre posso me aprofundar mais, do mundo do trabalho, mas também na questão da própria violência que as mulheres sofrem no cotidiano, no dia-a-dia. Violência doméstica, mas também a própria violência dentro do espaço do mundo do trabalho, com o assédio moral, por exemplo, além de outros exemplos como a diminuição de até 30% entre os valores dos salários. Então, lógico que o 8 de Março é uma data das mais importantes, por questão de todas as operárias que morreram queimadas. Eu acho que é uma data que a gente tem sempre que estar lembrando, mas como um marco mesmo, como um símbolo. Porque a luta das mulheres tem que ser cotidiana, e não só individualmente, mas também organizada.

ED: Como você entende a opressão de gênero nos marcos do sistema capitalista?

CM: Veja, eu gosto muito de falar numa expressão opressão/exploração. Eu não consigo ver uma dicotomia entre opressão e exploração, principalmente quando é questionado nos marcos da sociedade capitalista ou do sistema capitalista. A opressão eu entendo muito mais uma opressão da relação do próprio gênero, de homem sobre mulheres, e também de mulher sobre mulher quando a gente pensa no âmbito da classe. Eu lembro aqui a Cecília Toledo, que infelizmente morreu tão cedo. O livro dela que eu faço o prefácio chamava-se "Mulheres: o gênero nos une, a classe nos divide", e ela fazia uma discussão bem interessante da opressão da mulher pela mulher, quando a gente vai vincular e relacionar com o recorte de classe - da classe dominante, da burguesia, dos detentores de capital, em relação à classe trabalhadora. E isso está no âmago do capitalismo. O próprio sistema capitalista tem a dimensão da exploração, da extração da mais-valia, que no meu entendimento é mais acentuada quando se trata da força de trabalho feminina, porque, se nós ganhamos até 30% a menos por uma mesma função, é óbvio que o acúmulo de valor que esse detentor do capital está fazendo acaba sendo mais significativo quando se trata da exploração da força de trabalho feminina. Isso a gente vem presenciando não só nas nossas pesquisas, enquanto intelectual, de esquerda, acadêmica e pesquisadora do mundo do trabalho e da questão feminina, mas nas próprias estatísticas governamentais, como o IBGE, onde ali é explicitado essa desigualdade, não só salarial, mas da própria intensificação em geral da precarização. Não é à toa que a gente hoje presencia que o campo da terceirização tende a ser também muito mais ocupado por terceirizações de força de trabalho feminina, do que da própria masculina. Então eu gosto muito de falar nesse binômio de opressão/exploração de gênero nos marcos do sistema capitalista.

ED: Qual a caracterização para você dos avanços e dos limites da produção de conhecimento que pensa a questão de gênero na universidade?

CM: Essa é uma pergunta importante e difícil de ser respondida. É minha opinião, unicamente minha opinião. Porque a gente está tendo uma crise, na verdade, de produção de conhecimento de qualidade muito grande nas universidades. A partir do momento em que você tem uma cobrança de uma maior produção bibliográfica, digamos assim, as pessoas não estão prezando muito, na minha opinião, essa qualidade, reflexão real. A gente tem visto um produtivismo por conta das cobranças dos órgãos principalmente de instituições de fomento, das próprias universidades. Hoje você não consegue uma progressão da sua carreira se você não tiver pontuação em publicações, você fica enterrado. Então, as pessoas começam a querer produzir, produzir e produzir. E, para mim, produção de conhecimento está distinta, é o avesso, a contradição do produtivismo. É positivo que a gente tenha um incentivo à produção de conhecimento, mas não com esse objetivo de atingir metas necessárias para progressões. Então, assim, eu não tenho uma opinião totalmente fechada se está sendo um avanço. Eu estou achando que, neste momento em que a gente está vivendo, de tantas cobranças de produção, há mais limites do que avanços. Na própria questão de gênero, especificamente, eu tenho lido coisas com pouquíssima dimensão crítica e análise marxista de fato, sem usar muitas determinações. Até pode aparecer alguma criticidade, mas eu sinto falta de um ponto de partida no sentido do método de Marx, o método dialético materialista, em muitas publicações sobre a questão de gênero. Muitas, inclusive, voltadas a uma análise centrada na questão da família, desconsiderando muitas vezes a própria centralidade da categoria trabalho, que vai trazer elementos importantes para que a gente chegue, inclusive, à questão da violência de gênero. Muitas vezes, quando o companheiro acaba agredindo a mulher, existe uma relação direta com o desemprego desse homem ou dessa mulher, por necessidades básicas que sequer estão podendo ser saciadas. Então, eu sinto que há um volume maior da temática no âmbito de produção, que seria um avanço, mas o limite talvez seja a ausência de um aprofundamento nessas reflexões, tentando de fato apreender as múltiplas determinações que o Marx tanto nos ensinou para que a gente pudesse de fato analisar a realidade, e essa análise dando elementos para que a gente possa de fato transformá-la. Lembrando aqui o István Mészáros numa sociedade onde a igualdade substantiva possa de fato estar em primeiro plano sobre os gêneros.




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