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Cinema itinerante: a cultura potiguar resistindo em tempos pandêmicos

Luísa Galvão

Cinema itinerante: a cultura potiguar resistindo em tempos pandêmicos

Luísa Galvão

A primeira noite de atividades presenciais em tempos de pandemia no espaço Coco Juremado RN As Flechas foi marcada pela mostra de cinema potiguar, Kurta na Kombi, evento itinerante idealizado pelos produtores culturais Marcelle Silva e Umara Luiz, que ocorreu no último sábado, dia 17 de julho de 2021.

Os seis curtas apresentados são de gêneros variados, como documentários, ficções e filmes experimentais. Um dos destaques da noite foi o documentário A história do grupo Coco Juremado RN As Flechas, que conta a história por trás da criação e desenvolvimento do grupo musical potiguar, assim como do espaço cultural que é a sede.

Gilvan Aiquoc, um dos responsáveis pelo espaço e liderança do grupo, revelou a satisfação em sediar o evento Kurta na Kombi, que fortaleceu a parceria que já desenvolvia com os organizadores. A previsão é de continuidade dessa ação, com a realização de mais sessões de cinema no ponto cultural, com frequência de pelo menos dois em dois meses.

O espaço Coco Juremado fica no bairro de Nova Descoberta, na Zona Sul de Natal, e existe desde 2017. Lá, o grupo começou a reformar o espaço do zero e conseguiram fazer várias melhorias, com o auxílio de editais em que foram contemplados. A partir de 2019, muita coisa avançou, e o grupo passou a realizar no local ensaios abertos e a celebrar o aniversário do Mestre Juremeiro Gilvan. No ano seguinte, em 2020, o grupo gravou o clipe da música autoral Nega Linda Abalaida, o que foi mais um marco na história do grupo e do espaço cultural.

O local chama atenção pelas muitas artes coloridas nas paredes, com representações da flora local, de vários elementos regionais e, inclusive, dos próprios integrantes do grupo musical. Também foi através de edital que a decoração do espaço pode avançar. O projeto “Colorindo de cultura o Terreiro Juremado” foi concretizado em 2021, e foram convidados alguns artistas potiguares para estamparem suas artes nas paredes.

Outro filme que teve destaque foi o curta Planta Carne, concebido e realizado pela produtora audiovisual Julia Donati. O curta traz reflexões da artista sobre o período da pandemia, o enclausuramento e formas de expressão artística utilizando os recursos possíveis. O curta foi selecionado para compor o catálogo da Cardume, plataforma brasileira de streaming.

Em entrevista, a diretora reflete sobre a necessidade de se reinventar enquanto artista e produtora audiovisual nesse momento, em que há tanto sucateamento na área. "Para quem vive disso e depende de recursos ainda é um desafio. Mas a gente faz com o que tem e tem sido por um lado difícil mas, por outro lado, bastante rico, já que consigo encontrar formas de ser criativa em uma situação que nem sempre é favorável. Acho que como artista é necessário se reinventar sem esquecer de lutar por investimentos públicos no setor artístico”.

A artista também reforça a importância do projeto Kurta na Kombi como um incentivo ao cinema potiguar, para levá-lo para vários lugares e pessoas para os quais, muitas vezes, o cinema não chegaria. Afirma que, apesar do cinema potiguar não ser tão distribuído como deveria, nesse período de pandemia tem existido mais festivais e mostras online, o que permite uma distribuição maior, ainda que distante do ideal. Sobre o evento, afirma que gostou muito de ter recebido o convite, de fazer parte junto de outros produtores e conhecer outros filmes locais. “Esses espaços são muito bons porque a gente acaba conhecendo outras pessoas que estão criando e tem a chance de conversar com elas, trocar ideias e experiências e é sempre muito enriquecedor”.

O Kurta na Kombi foi um projeto criado no segundo semestre de 2019, e que começou com o processo de captação dos filmes, de parceria com realizadores audiovisuais e, quando a primeira sessão presencial estava prestes a ser lançada, veio a pandemia. Marcelle Silva, uma das produtoras por trás do Kurta, define: “o projeto praticamente se lançou durante a pandemia, a gente precisou inventar maneiras de seguir em frente, de manter a chama do cinema acesa, esse desejo de compartilhar cinema com as pessoas. E mais do que isso, de fazer circular o cinema potiguar”.

“Então a gente criou uma série de entrevistas online, e conteúdos digitais nesse primeiro semestre de 2020, e atravessamos ele dessa maneira, no formato online. E quando foi chegando mais para o final do ano, conseguimos, conforme foram surgindo os protocolos de autorização, nos lançar nas primeiras sessões presenciais, sempre com capacidade de público reduzida, seguindo normas de distanciamento e atentos aos protocolos do que era possível e saudável fazer. Mas a gente sentiu desde as edições online, com as entrevistas que a gente fez, uma grande receptividade por parte do público. Sentimos que realmente muitas pessoas estavam desejosas de conhecer mais sobre o cinema daqui, que fica mais em um circuito de mostras e festivais e que, depois que é lançado nesses espaços, não consegue vir para salas de cinema. E essa é uma das vertentes do nosso projeto, descentralizar o cinema, que hoje está dentro dos shopping centers. A nossa ideia é levar o cinema potiguar para perto das pessoas que têm pouco ou nenhum acesso. Então nesse período, do fim de 2019 até agora, início de 2021, a gente conseguiu se fortalecer, amadurecer, conseguimos dar os primeiros passos nas sessões presenciais e a gente está muito confiante, muito desejoso de que esse cenário melhore logo e que a gente possa estar todos juntos, com mais gente, fazendo mais cinema”.

O Kurta na Kombi funciona de forma independente e autônoma e, para isso, possui a própria lojinha, em que vendem bottons, camisetas, imãs e adesivos. Com os recursos arrecadados na lojinha, conseguem fazer a manutenção do projeto e chegar mais longe. Nesse período da pandemia, o projeto conseguiu aprovação na lei Aldir Blanc, que trouxe recursos emergenciais para amparar trabalhadoras e trabalhadores da cultura. Através dos recursos, os produtores Marcelle e Umara conseguiram estruturar o projeto com equipamentos, se organizar em relação aos conteúdos que já tinham produzido online e lançar o evento. Mas para dar continuidade, fazer mais sessões, e irem mais longe, fizeram a lojinha com a ideia de fomentar permanentemente o projeto com ou sem o apoio de editais, e sem o apoio de recursos financeiros governamentais.

O projeto de cinema itinerante já circulou pelas quatro zonas da cidade de Natal. Marcelle Silva pontua algumas diferenças e semelhanças observadas: “é muito interessante levar o projeto para todas as zonas da cidade, pois cada uma é muito peculiar, do ponto de vista arquitetônico, estético, populacional. Cada canto que a gente vai, encontramos um grupo de pessoas com interesses variados. Em algumas comunidades tem mais crianças do que em outras. O acesso e a parceria com equipamentos locais, por exemplo, é mais fácil em algumas comunidades do que em outras. Então a gente percebe que há recortes culturais, sociais e econômicos. Mas que, de uma maneira geral, em todos os espaços que a gente passou há uma aceitação, um interesse muito grande pelo projeto. Acho que a receptividade é um denominador comum”.

Os seis curtas apresentados nessa edição do Kurta na Kombi foram:
A história do grupo Coco Juremado RN As Flechas
Um filme de Gilvan Aiquoc (@gilvan_aiquoc) e Coco Juremado RN As Flechas (@coco_juremado_rn_as_flechas)

Sobre Duas Rodas
Direção Priscilla Vilela e realização Caboré Audiovisual (@caboreaudiovisual)

Planta Carne
Um filme de Julia Donati (@juliadonatii)

Cine Canário
Direção Suerda Morais e realização Casu Filmes Produções (@casufilmesproducoes)

Em Torno do Sol
Direção Julio Castro e Vlamir Cruz e realização Ícone/Mudernage (@icone_mudernage)

Para onde os sonhos vão
Direção Nathalie Alves e produção Maury Behring (@maurybehring)

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Luísa Galvão

Cientista Social e pesquisadora
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