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Disputas militares | China testa nova capacidade espacial com míssil hipersônico

André Barbieri São Paulo | @AcierAndy

domingo 17 de outubro | Edição do dia

A China testou em agosto um míssil hipersônico com capacidade nuclear que circulou o globo terrestre antes de acelerar finalmente em direção a seu alvo, demonstrando uma capacidade espacial avançada que pegou de surpresa a inteligência norte-americana. Os militares chineses lançaram um foguete que transportava um veículo planador hipersônico que voou através de espaço de baixa órbita antes de cruzar em direção a seu alvo.

O míssil falhou seu alvo em cerca de 24 milhas, mas o teste mostrou que a China fez progressos surpreendentes em armas hipersônicas e estava muito mais avançada do que as autoridades estadunidenses pensavam.

Mísseis hipersônicos são parte da mais alta tecnologia militar em desenvolvimento. Por definição, as armas hipersônicas são aquelas que ultrapassam a velocidade do som em seu voo, ou seja, 1.237 quilômetros por hora (a uma temperatura de 20ºC), segundo explica James Acton, co-diretor do Programa de Política Nuclear do Carnegie Endowment for International Peace, centro de estudos com sede em Washington. Dentre as principais versões do armamento, se encontram os veículos planadores hipersônicos (HGV, na sigla em inglês), que são enviados ao espaço, alcançam altas altitudes e, em seguida, retornam com trajetórias sem curso definido em direção ao alvo. Já os mísseis de cruzeiro hipersônicos (HCM, na sigla em inglês) são um tipo de projétil que conta com um sistema de propulsão que quebra a barreira do som várias vezes.

O Xingkong-2 ("Céu Estrelado-2" em tradução livre), é uma aeronave hipersônica não tripulada que viajou, segundo o governo chinês, a 7.344 quilômetros por hora. Ou seja, seis vezes mais rápida que a velocidade do som, capaz de dar uma volta completa na linha do Equador em menos de duas horas.

Os EUA, Rússia e China estão todos desenvolvendo armas hipersônicas, incluindo veículos planadores que são lançados ao espaço em um foguete, mas orbitam a Terra sob seu próprio impulso. São mais lentos do que um míssil balístico, mas têm a vantagem de não seguirem a trajetória em parábola fixa de um míssil balístico e são manobráveis, tornando-os mais difíceis de rastrear.

Taylor Fravel, um especialista em política chinesa de armas nucleares que desconhecia o teste, disse que um veículo hipersônico armado com uma ogiva nuclear poderia ajudar a China a "negar" os sistemas de defesa antimísseis norte-americanos que são projetados para destruir os mísseis balísticos que chegam. "Veículos planadores hipersônicos... voam em trajetórias mais baixas e podem manobrar em vôo, o que os torna difíceis de rastrear e destruir", disse Fravel, professor do Massachusetts Institute of Technology.

A crescente preocupação com a capacidade nuclear da China vem à medida que Pequim continua a construir suas forças militares convencionais e se envolve em atividades militares cada vez mais assertivas perto de Taiwan. Ao mesmo tempo em que acelera os preparativos para colocar-se à altura de reunificar militarmente Taiwan à China continental, Xi Jinping busca acumular suficiente armamento nuclear para dissuadir os EUA de intervir em nome do governo de Taipei. 

Taiwan, como viemos discutindo, é estratégica para Pequim, tanto por sua capacidade de fornecer acesso às águas profundas do Oceano Pacífico (que a China não tem), quanto pela posse de infra-estrutura tecnológica avançada, sendo a casa produtora dos semicondutores de última geração mais valiosos do mundo - a empresa Taiwan Semiconductor Manufacturing Company.

Desde seu primeiro teste atômico em 1964, a China aderiu a uma política de "dissuasão mínima", comprometendo-se a não adquirir mais capacidade nuclear do que a necessária para retaliação contra um ataque e afirmando que nunca tomaria a iniciativa no uso de armas nucleares. Como resultado, acredita-se que a China tenha cerca de 350 ogivas nucleares, de acordo com o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), uma fração das 5.550 ogivas em posse do imperialismo norte-americano.

Mas descobertas recentes alteraram as previsões sobre o ritmo de construção do arsenal nuclear chinês. Tendo o imperialismo estadunidense como parâmetro, a burocracia reacionária de Pequim, encabeçada por Xi Jinping, colocou o programa nuclear em primeiro plano de importância para os engenheiros militares do Exército de Libertação Popular. Desde junho, especialistas descobriram mais de 200 silos de mísseis em construção nos remotos desertos ocidentais da China, nas províncias de Xinjiang e Gansu. O campo de construção de silo de mísseis de 800 km² em Xinjiang, é a expansão mais significativa do arsenal nuclear chinês de todos os tempos. Segundo os dados, a China está construindo 10 vezes mais silos para mísseis balísticos intercontinentais (Intercontinental Ballistic Missiles, no acrônimo inglês ICBM) do que tem em operação atualmente.

A revelação do lançamento hipersônico chega quando a administração Biden realiza a Revisão da Postura Nuclear, uma análise da política e das capacidades mandatadas pelo Congresso que colocou em rota de colisão, no interior do establishment ianque, os defensores do "controle de armas" contra aqueles que acreditam que imperialismo norte-americano deve fazer mais para modernizar seu arsenal nuclear por causa da China.

O Pentágono não comentou o relatório, mas expressou preocupação com a China. "Deixamos clara nossa preocupação com as capacidades militares que a China continua a buscar, capacidades que só aumentam as tensões na região e além", disse John Kirby, porta-voz. "Esta é uma razão pela qual consideramos a China como nosso desafio número um em termos de ritmo".

A divulgação do exercício hipersônico também responde às ameaças regionais dos EUA na Ásia-Pacífico. Em especial ao acordo AUKUS, que envolve Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, e que possibilitará a esta última obter acesso à tecnologia dos submarinos nucleares do Pentágono. O acordo AUKUS foi a primeira medida do retorno do "Pivô para a Ásia" por parte de Biden, depois da estabanada retirada militar do Afeganistão e o consequente desengajamento do Oriente Médio, algo que irritou o governo chinês, que batalha pela posse do Mar do Sul da China. 

A embaixada chinesa se recusou a comentar o teste, mas o porta-voz Liu Pengyu disse, segundo o Financial Times, que a China sempre perseguiu uma política militar que era "defensiva por natureza" e que seu desenvolvimento militar não visava nenhum país. "Nós não temos uma estratégia e planos globais de operações militares como os EUA têm. E não estamos nada interessados em participar de uma corrida armamentista com outros países", disse Liu. "Em contraste, os EUA têm fabricado nos últimos anos desculpas como ’a ameaça da China’ para justificar sua expansão bélica e o desenvolvimento de armas hipersônicas. Isto tem intensificado diretamente a corrida armamentista nesta categoria e prejudicado gravemente a estabilidade estratégica global".

Um oficial de segurança nacional asiático disse que os militares chineses conduziram o teste em agosto. A China geralmente anuncia o lançamento de foguetes Long March - do tipo utilizado para lançar o veículo planador hipersônico em órbita - mas escondeu de forma conspícua o lançamento de agosto.

Esse armamento do Exército de Libertação Popular estava sendo desenvolvido pela Academia Chinesa de Aerodinâmica Aeroespacial. A CAAA é um instituto de pesquisa da China Aerospace Science and Technology Corporation, a principal empresa estatal que fabrica sistemas de mísseis e foguetes para o programa espacial chinês. 

A idéia de um desenvolvimento pacífico da China, justificado pela formação distinta de seu Estado, introvertida e não beligerante, desenvolvida por autores como Giovanni Arrighi ou, com uma visão menos sofisticada e mais grosseira, pelos grupos stalinistas, não são congruentes com a época de crises, guerras e revoluções, em que as disputas interestatais podem adquirir caráter beligerante em nome da preeminência capitalista.

O conflito entre Estados Unidos e China se insere nessa época, e sua corrida nuclear responde a objetivos contrários aos interesses das massas. Um eventual desenlace militarista só pode trazer consequências reacionárias aos trabalhadores da China e de todo o mundo, a única força capaz de, com um programa independente, deter novas atrocidades por parte das potências exploradoras.




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