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CHINA CORONAVÍRUS

China: queda recorde na indústria e desemprego histórico anunciam problemas à burocracia do Partido Comunista

A produção industrial chinesa retrocedeu ao nível mais baixo registrado na história nos primeiros dois meses de 2020, acompanhado pela maior taxa de desemprego urbano desde o início das reformas de Deng Xiaoping na década de 1970.

André Barbieri

São Paulo | @AcierAndy

segunda-feira 16 de março| Edição do dia

Na esteira dos anúncios exitosos do Partido Comunista Chinês sobre a contenção do coronavírus no interior do país, o resultado da paralisação das fábricas e indústrias na segunda maior economia do mundo abre a perspectiva de turbulência social para Xi Jinping.

Os dados revelados pelo National Bureau of Statistics, referendados pelo governo chinês, são impressionantes. Em janeiro e fevereiro, a produção industrial chinesa caiu 13.5% (frente a uma projeção de queda de 3%), e as vendas no varejo caíram 20.5% (frente a uma projeção de queda de 4%). O investimento em propriedade imobiliária diminuiu 16%. No mesmo período, o investimento em ativos fixos (gastos de capital em maquinaria, infraestrutura, etc.) na China foi de -24.5% (diante de apenas 2% projetados), revelando os efeitos do fechamento de fábricas multinacionais como Foxconn, Hyundai, Toyota, Apple, Nissan, além dos serviços da Google, Amazon e Microsoft. O desemprego urbano decolou para 6.2%, o maior já registrado.

Isso deixa certo que haverá retração no PIB chinês no primeiro trimestre de 2020, diante da perspectiva de -13% nos dois primeiros meses. Segundo a Bloomberg, na comparação anual, essa é a primeira vez que tal fenômeno acontece desde 1989, quando o Partido Comunista Chinês enfrentou protestos da juventude contra a inflação e o desemprego, e operou o massacre da Praça Tiananmen.

“Os dados de atividade industrial e gastos de capital foram muito menores do que se esperava, e apontam para uma retração mais profunda do que havíamos visto na crise financeira [de 2008], com uma contração mais profundo do que esparávamos”, aponto a agência financeira Capital Economics. “A Covid-19 fez a economia parar, das fábricas ao investimento. Na medida em que se espalhou por todo lugar, a demanda global e a cadeia de oferta global serão golpeadas, e serão sentidas pela indústria chinesa também em março e abril”, segundo o ING Bank em Hong Kong. “Os dados são terríveis, está claro que o coronavírus constitui tanto um choque de demanda quanto um choque de oferta, trazendo tanto inflação quanto pressões deflacionárias”, segundo a Macquarie Group.

Ver também: Diante do coronavírus e da crise da saúde pública: nossas vidas valem mais que os lucros deles!

Os oficiais de Pequim trataram de minimizar os danos e tranqüilizar os mercados, enfatizando o caráter efêmero da retração. Na própria divulgação dos dados, Mao Shengyong, do National Bureau of Statistics, disse que o impacto do coronavírus é de curto prazo, externo e administrável. Entretanto, internamente aos portões da Cidade Proibida, a preocupação do Politburo chinês é evidente: a paralisação da indústria começou de fato apenas a 23 de janeiro, e a expansão da pandemia aos principais parceiros comerciais da China (União Europeia e Estados Unidos) praticamente exclui a possibilidade de uma rápida recuperação das cadeias globais de valor, da demanda e do comércio.

Isso porque, depois de ver inviabilizada a produção fabril devido ao fechamento da indústria, a China muito provavelmente se verá impactada pela queda nos pedidos de seus produtos manufaturados, na medida em que os países diminuam suas importações. Não há sincronização dos tempos nesse reinício da produção fabril chinesa: o mundo anda na contramão, golpeado pelos efeitos do coronavírus. Ashish Shah, diretor da Divisão de Programas Nacionais do International Trade Center, ligado ao governo chinês, reconhece essas dificuldades, no periódico oficialista Xinhua: “Os dez países mais afetados representam 60% do comércio global, e 65% da produção industrial. Alemanha, Estados Unidos e China são os três maiores líderes nas cadeias globais de valor, então, na medida em que esses três países são afetados, automaticamente a cadeia global de valor é afetada”.

Diante desse cenário, o Banco Central da China (PBoC) havia na sexta-feira agido para apoiar a economia, injetando dinheiro nos bancos chineses para tornar mais baratos os empréstimos a empresas e consumidores, num movimento semelhante ao realizado pelo Federal Reserve nos Estados Unidos, que abriu um programa que irriga com trilhões de dólares os mercados de dívida norte-americanos. O Banco Central chinês, entretanto, decidiu não cortar as taxas de juros, como fez seu homólogo estadunidense, para ainda ter munição monetária em tempos mais difíceis, e poder ter margem de manobra diante de uma eventual turbulência financeira como a de 2015.

O mal-estar social na classe trabalhadora chinesa pode desatar conflitos da luta de classes

A luta de classes é um fator na equação, especialmente num país que já vivia uma reestruturação industrial que levou ao fechamento de milhares de minas de carvão, usinas metalúrgicas e siderúrgicas, elevando o desemprego e o descontentamento dos trabalhadores. As multinacionais paralisaram suas atividades, deixando dezenas de milhares de trabalhadores sem salário ou desempregados. Isso fica ainda mais evidente quando se examina o efeito sobre os trabalhadores migrantes chineses. A migração interna por motivos de trabalho, especialmente a migração pendular de acordo com os fluxos sazonais de emprego, é um elemento enraizado na vida operária chinesa. São mais de 288 milhões de trabalhadores migrantes, mais de um terço do total economicamente ativo de 775 milhões de trabalhadores. Esses migrantes vão para o interior do país, às vezes viajando 1000 km ou mais, nos feriados e nas festas de fim de ano, para depois retornar às regiões industrialmente concentradas. Esses contingentes gigantescos de trabalhadores foram impedidos de retornar às regiões do sudeste da China, onde trabalhavam, em muitos casos perdendo o emprego e tendo de relocalizar-se para sobreviver.

O possível reinício das atividades produtivas na China, diante a contenção do coronavírus, depara estes trabalhadores com o drama da desocupação e das dificuldades oriundas das perdas econômicas. Essa interrupção no ritmo de vida dos trabalhadores pode ser fonte de descontentamento profundo, em meio à crise econômica.

O Conselho de Estado, órgão central do governo chinês, se encontra em disputa com os governadores regionais e provinciais da China, sugerindo que estes últimos removam as restrições de mobilidade dos trabalhadores migrantes, sem qualquer garantia aos trabalhadores, e sim benefícios ás burocracias locais, que negociam maiores privilégios. Segundo o China Labour Bulletin, cidades como Hangzhou, Yiwu e Huzhou, altamente dependentes das empresas privadas, estão fazendo o possível para beneficiar capitalistas nacionais e estrangeiros, oferecendo serviços gratuitos de transporte ferroviário, para trazer de volta os trabalhadores para regiões ainda com risco de contágio. Na província de Hubei, que abriga a cidade de Wuhan, epicentro da pandemia, também anunciou planos para reinício da produção, sem garantias aos trabalhadores. O caráter corrupto da burocracia capitalista restauracionista na China não esconde o virtuosismo na exploração dos trabalhadores.

As mulheres trabalhadoras, especialmente no setor da Saúde, estão na linha de frente do combate ao coronavírus na China, e são as primeiras atingidas pelo descaso governamental. Sendo mais de 90% das enfermeiras, e 50% das médicas em atendimento, são as mulheres as heroínas de classe que tem as menores proteções sanitárias nos próprios hospitais, como denuncia a Shanghai Women’s Federation, que aponta as milhares de infecções de trabalhadoras hospitalares no tratamento da doença.

Esses aspectos que vão gerando descontentamento e revolta podem replicar o que ocorre na Itália, em que os trabalhadores industriais e os mais precários setores trabalhadores (das economias de plataforma, iFood, Rappi, Uber) se levantam em rebeliões espontâneas contra o descaso patronal e o autoritarismo estatal, que tem na China de Xi Jinping seu principal exemplo.

Problemas ao PCCh?

O Partido Comunista Chinês em geral, e Xi Jinping em particular, tiveram suas imagens arranhadas pela crise do coronavírus. Depois de revelar a qualidade precária e semicolonial de sua estrutura sanitária – não melhor que a que o capitalismo em decadência oferece no Ocidente – com o teto de hospitais desabando sob o impacto das chuvas, o governo de Xi incrementou as medidas autoritárias contra a população. As “quarentenas”, sem qualquer acompanhamento médico, enclausuraram dezenas ou centenas de milhares de pessoas em casas e cidades, como Wuhan. Esses setores mais precários da população trabalhadora foram deixados à mercê da morte, enquanto os que denunciavam a administração caótica da pandemia pelo governo chinês foram perseguidos (Li Wenliang, o jovem médico que descobriu a existência de um novo vírus em foi silenciado pela polícia, morreu em função da Covid-19).

Ao contrário do que esperava o governo com seus anúncios exitosos de contenção da doença, as ruas chinesas seguem silenciosas e descontentes. Diante da pressão do prefeito de Wuhan para que a população “aplaudisse a atuação de Xi Jinping no controle do vírus”, teve como resposta um repúdio massivo nas redes sociais, obrigando o governo central a recuar desse troféu simbólico. Exemplos como esse, anteriores aos resultados estarrecedores na economia, não projetam um caminho suave para a burocracia chinesa, e em primeiro lugar para Xi Jinping. Poderia o descontentamento popular e os problemas econômicos dar origem a disputas internas na burocracia? Questionamentos a Xi provavelmente levariam a uma nova onda de perseguições, nos moldes dos “grandes expurgos” realizados por Xi Jinping durante sua “campanha anticorrupção” em 2017, em que 170 ministros foram expulsos do governo e presos. O preço alto a pagar não elimina a possibilidade de fissuras internas na burocracia, que sabe que precisa manter altos índices de crescimento para fazer frente ao desafio de manter os objetivos econômicos mais importantes do governo, como o Made in China 2025 ou a Nova Rota da Seda, e atender à demanda da massiva população trabalhadora, no marco da “guerra comercial-tecnológica” com os Estados Unidos.

Neste novo período das turbulências globais, com uma crise financeira em curso e tendências recessivas nos países centrais, inclusive nos Estados Unidos, a China pode ser um ponto de inflexão para o ingresso do mundo em uma nova fase da crise econômica.




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