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SEMANÁRIO

[Chile] Rebelião no Oásis

Pablo Torres

Dauno Tótoro

[Chile] Rebelião no Oásis

Pablo Torres

Dauno Tótoro

Apresentamos aos leitores do Ideias de Esquerda o prólogo do livro Rebelião no Oásis, sobre o processo de luta de classes que sacudiu o Chile em outubro de 2019, e publicado em maio deste ano. O prólogo sintetiza alguns dos debates políticos e estratégicos fundamentais, assim como as lições deste processo, que segue marcando um antes e depois na história recente do Chile, país que viveu, no mês de maio deste ano, dias de protestos e greves nacionais, que tiveram como selo a combatividade dos trabalhadores portuários que bloquearam acessos, mobilizaram-se junto a setores populares e de trabalhadores em diferentes lugares do país, enfrentando as políticas do governo de Piñera.

I

Nossa intenção não é fazer uma análise só para compreender melhor o fenômeno, suas raízes e para onde pode se desenvolver a situação aberta no Chile. Pelo menos não nos limitarmos a isso, que seria unicamente o primeiro passo deste trabalho conjunto de militantes revolucionários. Não, não se trata somente disso. Trata-se de uma atividade, pode-se dizer, de combate, partidária, que nos permite refletir juntos algumas conclusões que nos preparem de melhor maneira para os desafios que temos pela frente.

A rebelião foi um evento isolado em uma situação mundial que aponta para o outro lado. Pelo contrário. A rebelião popular chilena está circunscrita a uma dinâmica internacional mais profunda.

Desde a crise capitalista de 2008-2009, ocorreram dois importantes ciclos de revoltas e rebeliões populares, nos quais foram registradas tanto a rebelião chilena de 2011 quanto a de 2019. A primeira onda desenvolveu-se especialmente a partir do final de 2010 com os levantes revolucionários no Oriente Médio, onde o Egito foi o centro do processo mais profundo. Essa onda se espalhou para outros países, como o Occupy Wall Street nos Estados Unidos ou os Indignados na Espanha. Teve sua ressonância na América Latina com o movimento estudantil chileno em 2011 e o “Eu sou 132” no México. Embora esse ciclo tenha terminado em derrotas, como no caso do Egito com a força do Exército, em guerras civis reacionárias, como na Líbia ou na Síria, ou no desvio de uma "transição democrática" para manter tudo igual na Tunísia, mostrou as primeiras tentativas de ações de massa após a crise capitalista.

No quadro de uma economia mundial fraca que debatia a possibilidade de novas recessões, em 2018 começamos a assistir a uma nova onda de luta de classes. Na França, país com uma antiga tradição revolucionária, com o surgimento dos Gilets Jaunes – os Coletes Amarelos – foram abertos processos importantes de luta de classes, como as greves contra a reforma previdenciária do liberal Macron. Mas a dinâmica global foi mais longe, e já em 2019 vimos a rebelião em Hong Kong, os levantes na Argélia e no Sudão. Protestos massivos seguiram no Iraque devastado pela guerra. Também no Líbano. Na América Latina, Equador, Colômbia e Porto Rico viveram dias importantes de mobilização e desemprego.

O Chile fez parte desse fenômeno. Não é uma ilha como pretendem nos mostrar. Por ser um país pequeno e periférico, sua abertura ao mundo não é influenciada apenas pelo "mercado", mas também pela própria luta de classes, apesar do provincianismo chauvinista da burguesia local (e de nossa esquerda). As "ruas" e "praças" voltaram à cena em muitos países.

No ano passado, em meio a uma pandemia, vimos a rebelião Black Lives Matter nos Estados Unidos, que colocou o combate ao racismo nas ruas por meio de grandes mobilizações. Em 2020 e 2021, a pandemia e a recessão econômica estão exacerbando as lacunas e contradições sociais, e o próprio FMI prevê a possibilidade de revoltas pós-pandêmicas em todo o mundo contra governos de diferentes estirpes. As condições objetivas, com crises nas alturas dos regimes capitalistas, polarização social e sofrimento de massas maiores do que os habituais, anunciam novos processos, talvez muito mais agudos. Ao encerrarmos esta apresentação, o golpe militar em Mianmar (antiga Birmânia) abalou o Leste Asiático. Sua jovem classe trabalhadora, mão de obra barata de grandes multinacionais imperialistas, como têxteis, ferroviários, bancários, trabalhadores da saúde, professores e funcionários públicos, tem se levantado junto com jovens, mulheres e setores oprimidos contra a Junta Militar, cujo Exército respondeu com um massacre que, até o dia em que estas linhas estão escritas, tem mais de 100 assassinatos em seu crédito.

A luta de classes voltou e o Chile faz parte deste teatro global de operações.

As consequências da nova situação de longo prazo aberta pela rebelião popular serão marcadas e intimamente relacionadas às consequências da pandemia do coronavírus e da recessão. Estamos nos aproximando de tempos de turbulência e convulsão política e social. As possibilidades de recuperação econômica e de desvio da convenção constitucional são condicionadas por uma situação internacional mais instável.

O capitalismo aparece cada vez mais aos olhos de milhões como um sistema onde não há futuro para as grandes maiorias trabalhadoras e populares. Um sistema que levará a crises crescentes, guerras, mas também a revoluções. Nesse quadro, não podemos ver a rebelião chilena fora dessas tendências, que atualizam cada vez mais uma perspectiva política baseada no internacionalismo` em face da estreiteza das “saídas nacionais”.

II

Durante a rebelião, novos organismos de combatente surgiram de forma incipiente e embrionária. As Assembleias Territoriais destacaram-se a nível nacional por reunir jovens, vizinhos e vizinhas, onde discutiram as ações a seguir, como solidarizar-se com as vítimas da repressão, como enfrentar a precariedade e as dificuldades vividas no dia a dia, que propostas promover na luta, até que futuro se sonhava. A reconhecida e legitimada Primeira Linha surgiu enfrentando a repressão, defendendo o direito de manifestação por meio de escudos e outros meios. As Brigadas de Saúde foram formadas no calor das lutas e mobilizações, que reuniram centenas de mulheres e homens voluntários, trabalhadores da saúde e estudantes, e equipes de resgate que se organizaram para cumprir a tarefa heroica de ajudar aqueles que se manifestaram e aqueles que lutavam contra a polícia. Em Antofagasta, cidade mineira do norte do país, surgiu o Comitê de Emergência e Resguardo, que conseguiu articular setores de trabalhadores e sindicatos como professores, trabalhadores da indústria, trabalhadores da saúde, junto a estudantes, moradores, funcionários públicos, organizações de Direitos Humanos e organizações de esquerda, mostrando um exemplo embrionário de aliança entre trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, juventude e setores populares militantes.

De conjunto, essas experiências tendentes à auto-organização, mais ou menos embrionárias, eram muito variadas em forma e conteúdo. Nas periferias das cidades eram mais combativos e predominavam os jovens protagonistas da rebelião. Organizações sociais, coletivos e, em alguns casos, partidos políticos também intervieram, embora não fosse uma tendência geral.

Durante a rebelião e a greve geral, as tendências embrionárias à auto-organização que o movimento de massas estava dando poderiam ter se generalizado. Coordenações locais, comunais, municipais, regionais e mesmo nacionais onde se unem sindicatos, assembleias territoriais, organizações de trabalhadores, mulheres e estudantes. A necessidade de unir o "produtivo-estratégico" ao "territorial" tornou-se mais evidente.

Mas a estratégia das burocracias foi em uma direção totalmente oposta ao desenvolvimento e generalização das tendências à auto-organização. O Bloco Sindical da Mesa da Unidade Social, convocadores da greve geral de 12 de novembro de 2019, formou um Comitê de Greve. Poderia ter sido uma grande iniciativa. Não poderiam ter nascido centenas de "comitês de greve" na base de muitos setores? Era a possibilidade mais certa de ter perseguido esse objetivo. Como foi o “comitê de greve” da CUT-Unidad Social? Era um comitê completamente burocrático, desde cima, fechado para alguns dirigentes. Não convocaram assembleias nos locais de trabalho, não abriram as dependências do sindicato, tampouco houve grande campanha montando centenas de comitês de greve nas minas, portos, transportes, serviços, telecomunicações, comércio, instituições de ensino ou na saúde. Mais importante ainda, considerando que a grande maioria da classe trabalhadora não está organizada em sindicatos ou outras entidades, mas grande parte deles está nas ruas.

O "comitê de greve" que eles convocaram não tinha o objetivo de desenvolver a força operária desde baixo, para desenvolver todo o potencial de uma nova classe trabalhadora. Seu objetivo era sempre buscar o controle de uma jornada que ia muito além das intenções da burocracia, que assim que percebeu seu potencial revolucionário, abandonou por completo qualquer luta de classes. A "unidade de cima" era funcional para procurar conter o movimento de negociação, não para desenvolver força e coordenação de baixo, e com um plano de luta, para permitir que o conflito aumentasse agregando novas forças. Não devemos esquecer que naquele momento da greve geral estávamos em uma dinâmica de ascensão da luta de classes.

A burocracia foi forçada pela força dos acontecimentos a convocar uma greve geral. Naquele dia o poder das classes dominantes foi gravemente abalado, pois a força da classe trabalhadora organizada apareceu junto com a grande maioria dos trabalhadores não organizados, as populações e os jovens, em uma grande frente única nas ruas. A CUT e a Unidade Social tinham autoridade para convocar a maior greve da história recente, mas rapidamente se comprometeram com o Acordo de Paz de 15 de novembro, cuidando para não ratificá-lo ou reivindicá-lo publicamente, abandonando a mobilização e exigindo "negociação sem exclusões” ao mesmo governo que continuou a reprimir brutalmente as ruas - ruas que exigiam Fora de Piñera e Assembleia Constituinte.

Mas esse caminho, que levou a um desvio do atual processo "constitucional", não era o único caminho possível. Havia outra forma de o movimento ganhar mais força: apostar na entrada da classe trabalhadora e de seus setores estratégicos como mineração ou transporte; um maior desenvolvimento de auto-organização; e o avanço da autodefesa em massa. Na política, na luta de classes e na vida em geral, não há nada garantido para o futuro, mas a verdade é que, se tal dinâmica tivesse sido implantada, um rumo diferente para a luta poderia ter sido disputado. O fatalismo de que as coisas são como são ou resultaram como produto da "relação de forças" nada mais é do que uma adaptação sutil a manter-se sempre na retaguarda e conter os acontecimentos.

A luta pelas instituições de combate das massas, pela auto-organização, é tarefa estratégica dos revolucionários, para buscar desdobrar todo o poder da classe trabalhadora como sujeito revolucionário, unificando sua força com a de todos os oprimidos frente à força dos capitalistas e seu Estado. Os sindicatos organizam pequenos setores em relação ao conjunto dos explorados. Há uma grande massa de trabalhadores precários e desorganizados, fragmentados, e que podem perfeitamente ser referenciados em organizações com características que extrapolam os limites corporativos dos sindicatos. Essa luta pressupõe a luta dentro dos sindicatos contra as burocracias.

Ao mesmo tempo, seria uma forma privilegiada de lutar contra a separação “corporativista” entre as lutas dos trabalhadores das dos “movimentos sociais”, se fosse possível coordenar dentro desses órgãos as organizações o movimento estudantil, o movimento de mulheres, movimentos pelo direito à moradia, etc.

O desenvolvimento de tais comitês, coordenações, assembleias é por sua vez uma forma fundamental de disputar a influência das burocracias sindicais e dos partidos reformistas, pois, se os comitês ou coordenações se multiplicaram no calor da luta, e alcançaram coordenação regional ou mesmo nacional, poderiam colocar para as massas a possibilidade de pensar um caminho diferente daquele promovido pela CUT e pela Unidad Social. Em um país como o Chile, onde os aparatos reformistas têm influência e peso de liderança nas organizações de massa, e nós, revolucionários, somos mais fracos, uma estratégia para promover uma política alternativa às burocracias que ajude a implantar o poder dos trabalhadores é fundamental.

No Chile, nas últimas décadas, ao calor das mobilizações, em alguns casos, tenderam a surgir organismos próprios, como na rebelião das bases dos professores em 2014, com assembleias auto-organizadas, na greve dos Correios do Chile em 2013 foi assim que formaram corpos de delegados. Ainda no movimento estudantil, em 2006 esteve a ANES - Assembleia Nacional de Alunos do Ensino Médio - com delegados de centenas de colégios e faculdades, em 2011 e outros anos tiveram experiências de assembleias, comitês de unidade entre diversos setores, cordões estudantis que agrupavam universidades, coordenadores “dos mobilizados” e outros.

A história da classe trabalhadora chilena, mesmo tendo fortes partidos reformistas no século XX, tem experiências importantes de fenômenos tendentes à auto-organização, desde os próprios militantes mancomunados do início do século XX, a Assembleia Nacional dos Trabalhadores da Alimentação, a assembleia de assalariados e intelectuais, etc. O exemplo mais poderoso do século 20 foi o nascimento e desenvolvimento dos Cordões Industriais no calor da revolução chilena do início dos anos 1970, no período mais próximo que a classe trabalhadora chilena teve de tomar de assalto os céus das cordilheiras.

Na tradição da esquerda chilena, é amplamente difundida a ideia de que o Estado capitalista pode ser uma ferramenta a serviço dos explorados e oprimidos. Hoje essa visão adquire um certo consenso, mesmo em setores das classes dominantes, na ideia de conquista de um Estado Social de Direitos. Um setor com essa tradição busca “expandir” o Estado para a sociedade, desenvolvendo mecanismos participativos que potencializem as organizações sociais. Outro vai mais longe e levanta a necessidade de combinar um estado social com instituições de “poder popular” de baixo, com mobilizações e lutas.

Essas estratégias vêm de uma longa tradição, que em nosso país teve seu ápice na teoria e na prática da “via pacífica chilena para o socialismo”, isto é, sem ruptura revolucionária ou agudo confronto entre as classes exploradas e as classes dominantes. Esta estratégia propôs a transformação socialista através das próprias instituições do Estado (burguês) de direito, como o seu parlamento e a sua justiça de classe, e levou a considerar as Forças Armadas, de tradição e de caráter contrarrevolucionário, como um instrumento ao serviço do socialismo. A tragédia do golpe e de uma ditadura bonapartista semifascista de 17 anos deveria ter servido como uma experiência de sangue e fogo para superar tais ilusões. Mas, como diria Marx, "a tradição de todas as gerações mortas oprime o cérebro dos vivos como um pesadelo”. Décadas de derrotas, retrocessos ideológicos e políticos, crises de subjetividade do proletariado, hoje, porém, essas ideias e ilusões se renovam.

A estratégia "allendista" (com todas as suas variantes e nuances) é o oposto de uma estratégia que visa desenvolver um poder dos trabalhadores independente do estado capitalista. A estratégia de auto-organização da classe trabalhadora e do povo, primeiro como organismos de combate, inscreve-se na perspectiva de lançar as bases de uma alternativa de poder dos trabalhadores, que enfrente o poder do Estado capitalista. Uma força própria para se defender do aparato militar e burocrático do Estado chileno, que em face de um processo revolucionário da classe trabalhadora e dos oprimidos serão instrumentos da reação do grande capital. Um poder que substitui esse Estado por um estado operário baseado em seus corpos auto-organizados. Tal Estado seria mil vezes mais democrático do que qualquer Estado capitalista, visto que serão os trabalhadores que exercerão o poder diretamente.

Não é por acaso que, no ascenso revolucionária dos anos 70, o PC - que na época era um enorme aparato, um dos maiores partidos comunistas do mundo em proporção à população e totalmente “moscovita” - junto à CUT, sob seu comando, opôs-se fervorosamente aos cordões industriais, foi contra o seu desenvolvimento, e quando sua força já era evidente e havia ganhado influência nas massas, procuraram integrá-los e mantê-los como um poder subordinado ao governo. Quando isso não era mais possível, foi subserviente à repressão dessa vanguarda operária. Exatamente o oposto da perspectiva de "todo o poder aos Cordones" como um autêntico governo dos trabalhadores, de ruptura com o capitalismo.

O que queremos dizer com esta digressão histórica é que à medida que a luta de classes se desenvolve e a mobilização da classe trabalhadora e do povo, não apenas vanguardas de luta tenderão a emergir, mas também tendências para o desenvolvimento de organismos de autodeterminação de massas, de maneiras diferentes. Se desenvolvido na classe trabalhadora, que tem sido um dos setores mais atrasados até agora, pode ser potencialmente revolucionário.

Essas tendências inscritas na história, também presentes na rebelião, foram tomadas até agora, porém, como dados históricos em um caso, e em outro, como complemento de uma estratégia de reforma institucional. O recente desenvolvimento de extensas pesquisas historiográficas em torno da chamada "teoria social" e também da teoria do "poder popular", que permitiu descobrir a rica variedade de formas de auto-organização das classes subalternas na história chilena, não chega ao mérito das conclusões estratégicas. Ainda não existe uma teoria revolucionária de auto-organização no Chile.

Como apontamos anteriormente, a luta pela auto-organização é uma tarefa estratégica atual. E embora os exemplos de auto-organização que nasceram no calor da rebelião ainda sejam muito fracos, a etapa que se abriu no país suscitará novos desdobramentos desses fenômenos nos quais é necessário intervir, desenvolvê-los e buscar para ligar a classe trabalhadora com todos os oprimidos.

III

Esses organismos, chave para o desenvolvimento da luta de classes, não atuam em um vácuo político. Na rebelião vimos como os partidos capitalistas ensaiam da repressão à cooptação, e para isso também contam com o apoio dos partidos reformistas, como a Frente Ampla, com o Acordo de Paz de 15 de novembro, junto com a UDI e ex-Concertación; ou a PC-CUT com a desmobilização e trégua de Piñera, legitimando posteriormente o Acordo.

Vimos que existe um sentimento generalizado de repúdio aos partidos políticos em geral, embora este se concentre especialmente nos partidos dos “30 anos”, como tutores desta ordem contrária aos interesses da grande maioria. Também, embora em menor medida aos partidos como o PC e o FA por fazerem parte da "cozinha parlamentar".

No entanto, a ilusão é um sentimento generalizado de pensar que a mera espontaneidade das massas ou novas revoltas como a que estamos vivenciando, fora da política, nos permitirão triunfar. Não se trata de fugir da política, mas de que tipo de política, de que classe, com que objetivos e com que meios se desenvolve.

Durante o século 20, a classe trabalhadora e os oprimidos foram forjando não apenas organismos tendentes à auto-organização, mas também partidos políticos e agrupamentos. A ditadura queria apagar do mapa uma ampla vanguarda da classe trabalhadora e perseguiu as organizações de esquerda.

Nos anos 80, o Partido Socialista, um dos principais partidos de massas, abandonou seu caráter de partido operário reformista para abraçar as ideias do neoliberalismo e se encher de empresários e, junto com os democratas-cristãos, administrar a herança da ditadura. Para muitos setores das massas, a "esquerda" acabou fazendo o mesmo que a direita.

O Partido Comunista não teve um giro neoliberal como o PS, como aconteceu com o eurocomunismo. No entanto, não apenas na queda do Muro de Berlim eles continuaram a reivindicar a tradição stalinista, mas, após uma curta tentativa de reformismo armado, na transição eles sempre se voltaram para o pêndulo de apoio crítico aos governos concertacionistas, Aylwin, Lagos, Bachelet. A tentativa de integração ao regime pós-ditadura deu frutos em 2013, quando passaram a formar uma coalizão comum com os gestores do neoliberalismo, a Concertación, agora junto com o PC denominado Nueva Mayoría. O governo chefiado por Michelle Bachelet atuou para desviar a força da luta estudantil de 2011 para reformas do regime, que não resolveram nenhum dos problemas das grandes maiorias. Em vez disso, esse governo assassinou trabalhadores e mapuches, como foi o caso de Nelson Quichillao, um mineiro assassinado pela polícia com o PC dentro do governo. Até hoje, o PC continua a se gabar de ter sido o partido mais "leal" ao decadente reformismo burguês de Bachelet.

Mas isso não saiu barato. Já em 2011 e 2012 um setor do movimento estudantil passou a questionar o papel conciliador e burocrático dentro das federações estudantis por parte do PC. Naqueles anos, surgiram coletivos e reagrupamentos como a Revolução Democrática e a Esquerda Autônoma, de Giorgio Jackson e Gabriel Boric. Grupos autoproclamados anti-capitalistas, como a União Nacional de Estudantes, também surgiram, e os ex-anarquistas da Frente Estudantil Libertária estavam ganhando força.

A Revolução Democrática acabou fazendo o mesmo indiretamente que o PC: um pacto com a Nova Maioria com o qual Giorgio Jackson ganhou a deputação e RD entrou no governo Bachelet em um pacto de "colaboração crítica" do Ministério da Educação.

Mas Bachelet acabou frustrando as expectativas sociais de seu governo e se comprometendo com a grande burguesia e os setores conservadores.

Assim apareceu à sua esquerda a “Frente Ampla” com a RD liderando dezenas de grupos que se uniram para enfrentar o “duopólio”. Em sua “estreia” nas eleições de 2017, obtiveram 21 parlamentares e 20% na presidencial. Eles emergiram como uma "terceira força" nacional no quadro do triunfo de Piñera e da crise da centro-esquerda. A Frente Ampla conseguiu cativar todos os grupos que se declararam "anticapitalistas" e aos poucos se dissolveram em um reformismo social-democrata "pós-neoliberal". Ele também afetou organizações estudantis de bandeira vermelha e preta, como Juventud Rebelde ou Contracorriente.

Mas a Frente Ampla não passou no teste ácido da rebelião popular. Na ânsia de demonstrar governabilidade e compromisso com a institucionalidade, eles assinaram o Acordo de Paz e a Nova Constituição em 15 de novembro de 2019 nas costas do povo e, posteriormente, aprovaram a Lei Anti-Barricadas com a qual centenas de jovens foram presos. Embora continue a existir e possa obter receitas com o desvio eleitoral, é uma esquerda do regime, pronto a colaborar com os antigos partidos empresariais e manter o antigo regime.

A FA sofreu várias rupturas de seus setores mais de esquerda, como os libertários ou a Igualdade. No entanto, agora todos eles formam uma coalizão comum onde o Partido Comunista também está. O PC com a crise da Frente Ampla foi o principal beneficiado e, pela primeira vez em trinta anos, está começando a ser um ator-chave no regime. Sua figura principal, o prefeito Daniel Jadue, aparece hoje como uma das principais chapas presidenciais com apoio popular.

Sua política neste momento tenta se mover para a esquerda, denunciando 30 anos de progressismo neoliberal, com um discurso identitário para ganhar peso e força própria nas próximas negociações com a centro-esquerda. Mas o fato do seu discurso ser mais de esquerda não implica uma estratégia diferente da que têm seguido nestes anos: unidade com os falsos amigos do povo progressista, colaboração com partidos do antigo regime para reformas no quadro do sistema. Como assinala Jadue, luta por uma “primária aberta” da qual saia um candidato comum da “oposição”, pelo menos ao lado do “progressivismo neoliberal” como o PS e o PPD. O mesmo discurso de seu amigo Gabriel Boric.

Ou seja, ambos, PC e FA agora juntos, constroem pontes com o bacheletismo para cozinhar uma nova decepção para o povo, a de um governo "progressista" e "transformador" em aliança com os velhos dinossauros empresariais da Concertación. É a política do "mal menor" que sempre leva a novas frustrações. Ou vejamos o caso do Estado espanhol, onde Unidos Podemos terminou como servos menores da Coroa junto com o socialismo imperialista do PSOE.

É por isso que muitos setores, da vanguarda e além, tiram conclusões "nem esquerda nem direita" e rejeitam a organização política.

Mas essas experiências não podem nos levar a concluir que não faz falta um partido, pois a mera espontaneidade da luta não nos permite superar esse problema. Trata-se de construir uma outra esquerda, uma nova esquerda que não tem qualquer colaboração com os partidos empresariais "progressistas", que não tem qualquer compromisso com o antigo regime. Uma esquerda operária totalmente independente dos empresários, com um programa anticapitalista e uma estratégia cujo centro de gravidade é a luta de classes que está em jogo para promover suas tendências mais avançadas em uma perspectiva revolucionária.

Hoje as condições representam a oportunidade para que um embrião desse partido revolucionário surja, ganhando força para influenciar o desenvolvimento dos acontecimentos. Novos coletivos e agrupamentos surgem no calor desses tempos marcados pela rebelião de outubro, começam a fazer política e setores de massa estão abertos a novas ideias. Ao mesmo tempo, como resultado da própria rebelião, um espaço se configurou à esquerda do próprio Partido Comunista e da Frente Ampla. O fato de que durante as eleições para a Convenção existam centenas de candidaturas independentes do povo ou de movimentos sociais fora dos partidos de esquerda tradicional expressa este fenômeno de forma desfigurada.

Da mesma forma, o PC, herdeiro do stalinismo, embora seja forte e em seu “melhor momento”, não tem uma força hegemônica sobre a classe trabalhadora ou as organizações que possuía no século 20, onde foi uma força enorme. A FA é mais força de suas figuras do que militância e peso nas organizações de massa.

Ou seja, existem certas condições para o surgimento de uma esquerda operária, socialista e revolucionária, a princípio pequena, mas ganhando influência nos setores de massa e podendo se enraizar na classe trabalhadora, nas mulheres e nos jovens. Essa força não surgirá do crescimento evolutivo de nenhuma organização, mas da fusão do marxismo revolucionário com setores da vanguarda dos trabalhadores e da juventude através da experiência comum na luta de classes e na luta política, sob um programa e estratégia revolucionária comum.

Para ter sucesso, a luta deve ser planejada, preparada e estudada: é o trabalho da estratégia revolucionária e não o produto de um movimento espontâneo. É necessária uma organização política revolucionária que intervenha nos processos de luta de classes, com fortes baluartes nos locais de trabalho, populações e estudo, com força de mobilização, que lute pelo desenvolvimento da auto-organização e que construa uma alternativa política, com sua própria empresa, elaborações teóricas. Que disputem em todos os campos suas ideias como na agitação eleitoral, por ser uma plataforma que se propõe a denunciar as manobras dos partidos capitalistas e fortalecer a mobilização e organização. A construção de tal partido não se realizará fora da luta da classe trabalhadora, da juventude e dos setores populares. Cada batalha, cada golpe, cada mobilização, são escolas de guerra para testar a força e a musculatura daquele partido que queremos construir.

Desde o Partido de Trabajadores Revolucionarios e das páginas do La Izquierda Diario, integrando a rede internacional de jornais da Fração Trotskista-Quarta Internacional, lutamos na rebelião nas ruas por Fora Piñera e todo este regime, por uma Assembleia Constituinte, Livre e Soberana na perspectiva de um governo operário. Denunciamos as armadilhas e enganos do regime como o Acordo de Paz, bem como defendemos uma estratégia de desenvolvimento de mobilização e auto-organização para derrotar Piñera, em face da trégua apresentada pela burocracia. Desde a Comissão de Emergências de Antofagasta ou da Comissão de Saúde e Segurança do Hospital Barros Luco de Santiago tentamos levar avante esta luta.

Diante das armadilhas do regime, a luta pelo surgimento de um partido que pretende acabar com os saques destes mais de 30 anos e com todo o antigo regime herdeiro da ditadura é mais atual do que nunca. Um partido da classe trabalhadora que busca mobilizar as aspirações democráticas e sociais para uma luta unida contra o governo, o regime e o capitalismo. Não se trata de reformar esse sistema para receber as migalhas dos lucros capitalistas milionários, como vimos nestes 30 anos, e então temos que pagar por uma crise que não geramos, como eles agora afirmam. É uma perspectiva de acabar com esse sistema de exploração e opressão, uma perspectiva internacional.

A todos os setores que lutaram nas assembleias, comitês e brigadas territoriais, aos que estiveram nas ruas, aos que denunciam as artimanhas da convenção, aos lutadores que querem enfrentar as decepções dos partidos do regime, é necessário hoje unificar nossas forças em uma perspectiva revolucionária. Hoje essa tarefa está mais atual do que nunca. O cenário chileno e internacional levará a crescentes crises políticas e novos confrontos da luta de classes. Devemos nos preparar para cenários mais convulsivos. Se não nos opusermos a um programa de ruptura revolucionária, as classes dominantes buscarão sair de sua crise e reconstruir seu domínio.

Este livro que apresentamos é um pequeno esforço a serviço do enorme e estimulante desafio de construir um partido; tirar conclusões revolucionárias do fato principal da luta de classes na história recente do país, e assim nos prepararmos para o futuro, para vencer.

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Pablo Torres

Diretor de La Izquierda Diario Chile / Partido de Trabajadores Revolucionarios

Dauno Tótoro

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