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"Chegou as 5:50, tossiu seco e sentou com a cabeça baixa em uma plataforma", assim funciona a indústria na pandemia

Reproduzimos aqui um relato enviado por um trabalhador industrial da zona oeste de São Paulo sobre a situação da fabrica em meio a pandemia.

sexta-feira 26 de março| Edição do dia

Tá cada dia pior, cada dia mais perto da gente essa doença. Muitos infelizmente ainda achavam que era só uma gripezinha como disse o presidente, mas a realidade dessa situação tá batendo na cara e também nas casas e famílias de todos. Todo dia é um companheiro novo que faltou, um outro que não vem a dois dias... tá feia a situação. Hoje estamos com mais de 100 casos confirmados segundo o próprio RH, podem ser muitos mais. Mas a empresa não para por nada nesse mundo. Recebemos recentemente um comunicado de que a empresa não vai parar por que os pedidos estão altos e segundo a justiça é um serviço essencial.... a fábrica imprime folhetos de supermercados, catalogos de perfumes e revistas de luxo...

Ontem mesmo um companheiro amigo nosso voltou do afastamento da Covid na entrada do primeiro turno, 5:45. Ele tava andando devagar e pálido, tava tossindo uma tosse seca do caramba. Chegou na máquina, apoiou no painel, andou um pouco mais e sentou com a cabeça baixa em uma plataforma. Fomos conversar com ele preocupados e descobrimos que a empresa disse que já tinha dado o limite dos dias de afastamento e que ele tinha que voltar, entrar no primeiro turno e ir no ambulatório as 8:00 pra a médica avaliar. Tentamos fazer a chefia liberar ele pra casa mas não fizeram, ele teve que ficar lá esperando o ambulatório abrir. Organizamos entre nós o trabalho pra ele não precisar fazer nada, mas não importa, essa situação é absurda. Pra ele que teve que sair de casa nessa situação e pra todos os outros trabalhadores que podiam se contaminar. É assim que os empresários da indústria salvam a sua própria economia, rodando do jeito que dá, usando das leis para não parar e arriscando os trabalhadores. Leis de quem? do Bolsonaro e do Doria.

E sindicato? Nada... Tão na quarentena... Inclusive essa diretoria da Força Sindical tá numa quarentena de anos já que faz tempo que não pisam no chão da fábrica e não fazem nada pra garantir a saúde do trabalhador.

O motor das fábricas tem sido o medo do desemprego e da fome... Vale mais arriscar pegar ou transmitir a doença do que deixar a geladeira de casa vazia. É assim que a indústria e muitos outros lugares estão funcionando...

Mas esse mesmo medo ainda vai explodir em ódio de classe, fazer esses empresários, acionistas e governantes pagarem por tudo que estão nos fazendo passar e te garanto, que quando isso acontecer, vamos dar um jeito de inverter as correias desse motor e fazer toda essa sociedade funcionar a serviço da vida dos trabalhadores!

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