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SEMANÁRIO

Centenário de Paulo Freire: a urgência de se pensar uma educação crítica em tempos reacionários

Iaci Maria

Willian Garcia

Clara Gomez

Ilustração: Juan Chirioca | @macacodosul

Centenário de Paulo Freire: a urgência de se pensar uma educação crítica em tempos reacionários

Iaci Maria

Willian Garcia

Clara Gomez

Hoje, 19 de setembro, completam-se 100 anos do nascimento de Paulo Freire, patrono da educação brasileira. Seu reconhecimento é internacional: é o intelectual brasileiro mais lido no mundo, traduzido para 35 países, sendo que somente Pedagogia do Oprimido, sua principal obra, foi traduzida para cerca de 20 idiomas. Porém foi no Brasil onde ele se tornou o principal inimigo declarado da direita e da extrema-direita, ou seja, é hoje inimigo tanto do governo e seus aliados, quanto da direita que se coloca na oposição. Mas o que de tão perigoso o educador disse para que sua obra acabasse nessa posição?

O que será que Paulo Freire diria hoje diante de um governo Bolsonaro e uma extrema direita estúpida que o elencou como o culpado por quase todos os males do país e que, junto à oposição de direita, aprovaram os mais aberrantes ataques à educação? A realidade é que, provavelmente, ele não se surpreenderia, já que sua vida foi marcada pela perseguição política e pelos ataques dos conservadores. Apesar da grandiosidade de sua obra para se pensar uma educação crítica, apontaremos aqui também alguns de seus limites, principalmente com relação à sua ausência de questionamento sobre o caráter de classe do Estado e a falta de uma estratégia para superá-lo.

Foi em 2015 que o movimento Escola Sem Partido ganhou notoriedade a partir do surgimento do MBL, que tomou para si tal pauta, apesar de ter sido criado no início dos anos 2000. Aquele ano foi marcado pelas primeiras manifestações verde-amarelas, que pediam o impeachment da então presidente Dilma Rousseff e traziam entre suas bandeiras o grito de “Basta de Paulo Freire”. Dali em diante, Freire volta a aparecer não como alguém que dedicou a vida a pensar uma educação crítica, mas como o maior inimigo dos conservadores, que protagonizam uma sequência de ataques à educação, os quais só podem ser vistos, de fato, como inimigos de Paulo Freire.

Nomes como Olavo de Carvalho, o guru ideológico da família Bolsonaro, e o MBL, enchem a boca para falar mal do educador, alegando que sua pedagogia é doutrinadora e a culpada pelo fracasso da educação escolar brasileira. Esses fundamentos para a caçada à Freire seriam cômicos se não trouxesse consequências trágicas. É risível pois qualquer pessoa que estude minimamente a obra e contribuição de Paulo Freire e analise as escolas brasileiras percebe que sua proposta educacional não é aplicada na ampla maioria delas, as quais seguem o ensino tradicional, justamente aquele que era criticado e combatido por Paulo Freire, ou seja, o fracasso educacional ocorre apesar do seu trabalho, e não por causa dele. Pelo contrário, países que se inspiram na pedagogia freireana apresentam os melhores resultados educacionais, ainda que dentro da lógica neoliberal que essas avaliações internacionais esperam, como é o caso da Finlândia. Mas é trágico, pois fundamenta a aprovação de diversos ataques tanto à educação como aos docentes, que são aprovados no intuito de aprofundar uma educação cada vez mais técnica e acrítica.

O regime do golpe institucional, consumado em 2016 e que culmina na eleição de Bolsonaro e tudo que se desenvolveu disso, dedicou-se a atacar Paulo Freire no discurso enquanto ataca a educação brasileira como um todo. Desde perseguições individuais, como a invasão de escolas e exposição de professoras pelo MBL, alegando doutrinação e defendendo o Escola Sem Partido, às reformas e emendas constitucionais, como foi a aprovação da PEC do Teto dos Gastos, que congela investimento em educação por 20 anos, a reforma do Ensino Médio, e até mesmo a aprovação da BNCC, todas votadas ainda no governo Temer e aplicadas com Bolsonaro na presidência, quem destruiu o Ministério da Educação colocando em seu comando boçais como Weintraub e agora, o reacionário pastor Milton Ribeiro.

Saiba mais: O que pensa o ministro da educação?

Paulo Freire é sim um inimigo da direita, extrema direita e toda variedade de conservadores, mas não por ser responsável pelas baixas notas brasileiras nas avaliações educacionais internacionais. É inimigo pois defendeu que a educação é um ato político e propôs uma pedagogia como prática da liberdade, que tem como objetivo fazer com que os setores oprimidos e explorados reconheçam sua capacidade de transformação sobre a sociedade a partir da superação da consciência imposta pelos opressores.

Afinal, quem foi e o que realmente dizia Paulo Freire?

Nascido em Recife 100 anos atrás, formou-se em Direito e doutorou-se em Filosofia da Educação pela Universidade do Recife, mas foi com suas experiências e reflexões na área da alfabetização que ficou conhecido. Em 1963, enquanto era diretor do Departamento de Extensões culturais da Universidade de Recife, criou o que ficou conhecido como “método de alfabetização Paulo Freire” a partir da experiência de alfabetizar 300 trabalhadores rurais da cidade de Angicos (RN) em 45 dias, que totalizaram 40 horas de aulas, sem a utilização de cartilhas prontas. Do reconhecimento desse projeto nasceu o Plano Nacional de Alfabetização [PNA], proposto pelo governo João Goulart em 1964, mas que nunca se concretizou pois esbarrou no golpe civil-militar de 1964.

Alfabetização massiva cujo principal objetivo era fazer os educandos reconhecerem a si mesmos como agentes coletivos que pudessem contribuir para a transformação da sociedade. Aos olhos dos reacionários, essa era a tão perigosa arma de Paulo Freire, que ameaçava a manutenção do status quo da sociedade daquele momento. Isso porque a concretização do plano poderia quase dobrar a quantidade de eleitores em algumas regiões do país em um curto intervalo de tempo em uma época na qual pessoas não alfabetizadas eram proibidas de votar, o que colocava medo na classe dominante. Porém, mais do que isso, Freire parte de entender o educando como um ser histórico produtor de cultura, que carrega consigo conhecimentos prévios que devem ser considerados no processo de aprendizagem que em sua concepção deve ser dado de forma dialógica, como uma construção significativa e, portanto, crítica.

Sua visão busca romper com o autoritarismo que historicamente permeia a relação entre educador-educando, conforme a escola tradicional. Para ele, a educação deve ser pensada com os oprimidos, não para eles. O educando assume o local de sujeito e toda a sua experiência marcada pela condição de opressão e exploração ganha significado na sala de aula e passa a ser analisada criticamente, tendo como perspectiva a superação dela.

Paulo Freire defendia que não bastava ler a palavra, era preciso saber ler o mundo. E lendo o mundo, é possível se ver e se entender nele, compreender a função que se pode cumprir a partir do momento em que reconhece a própria condição de existência. Sua crítica se direcionava ao que ele chamou de “educação bancária”: nela, o processo de ensino acontece de maneira unilateral, sendo o professor o detentor do conhecimento e responsável por depositá-lo nos alunos, que não possuem conhecimentos prévios e apenas recebem as informações para depois reproduzi-las; é artificial e não significativo, baseado em cartilhas genéricas. Em outras palavras, ele criticava a pedagogia tradicional encontrada na maioria das escolas até hoje. Em contraponto, defendia que a educação é um processo bilateral e dialógico, construído conjuntamente entre todos envolvidos, colocando o professor também no local de quem aprende e o aluno, no de quem ensina. É a ideia de uma educação viva e constante, uma ferramenta que mobiliza os conhecimentos prévios e busca formar sujeitos críticos, reflexivos, que reconheçam seu papel de oprimido na sociedade e se enxerguem como quem é capaz de mudar essa sociedade de exploração.

“Não basta saber ler mecanicamente que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.” [1]

A perseguição a Paulo Freire não é uma invenção da extrema-direita contemporânea, ela começou há décadas. Logo após o golpe militar de 1964, o PNA foi cancelado e o educador foi preso por 70 dias e posteriormente exilado. Foi no exílio no Chile onde passou 16 anos que ele escreveu Pedagogia do Oprimido, sua principal obra, mundialmente reconhecida.

A atualidade de Paulo Freire

Não é à toa e nem aleatório que a extrema direita e a direita tenham elegido Paulo Freire como inimigo. Suas ideias são perseguidas porque faz parte do projeto dos conservadores de atacar a educação e ir retirando toda possibilidade de uma formação crítica, que possibilite às crianças, jovens e adultos da classe trabalhadora o questionamento sobre a sociedade em que vivem e seu papel nela. Como não podem simplesmente dizer “somos contra as ideias de Paulo Freire porque não queremos que vocês saibam pensar, apenas reproduzir técnica”, criam insistentemente fake news que são reproduzidas por uma base que nada sabe sobre Freire e educação, como a ideia de que as escolas brasileiras reproduzem a filosofia freireana e por isso a qualidade é péssima, como declarou mais uma vez o filho 04 Eduardo Bolsonaro. Isto é: ataca as ideias progressistas da educação e esconde que a culpa da péssima qualidade das escolas é da falta de investimento e do projeto educacional da direita.

É assim que, sob a justificativa de que é preciso reformar a educação e “expulsar Paulo Freire das escolas”, aprovam-se reformas como o Novo Ensino Médio (NEM) o qual, por trás do discurso profissionalizante e de liberdade do aluno escolher o que quer estudar, esconde um projeto de formação de mão de obra técnica, precária, acrítica e alienada. O governador de São Paulo, João Doria do PSDB, que tem se colocando como oposição ao Bolsonaro e possível candidato da terceira via, já vem implementando com maestria esse ataque na educação paulista, além de fechar diversas salas de EJA, mostrando que o “BolsoDoria” está mais vivo que nunca, já que os projetos são os mesmos.

Saiba mais: Fernando Cássio e Marcella Campos fazem importante debate sobre o Novo Ensino Médio. Assista aqui

Esse NEM representa um ataque não somente à formação dos alunos, mas também aos professores e à docência, que ficarão presos às apostilas genéricas e generalizantes, o que significa uma vitória para o Escola sem Partido. É por esse motivo, entre tantos outros, que soa absurdo que setores da esquerda não enxergam o enorme erro que é sair às ruas ao lado do MBL e do PSDB, que atacam a educação inescrupulosamente e são inimigos declarados de Paulo Freire, a quem essa mesma esquerda corretamente reivindica. Não é possível estar com a direita para combater a extrema-direita de Bolsonaro, que chama Paulo Freire de “energúmeno” e alega a palhaçada de que um dos problemas do Brasil é que há excesso de professor, pois ambos estão juntos nos ataques à educação e aos direitos dos trabalhadores.

Há também que se pensar que se hoje as escolas brasileiras têm pouco ou quase nada da pedagogia freireana em suas práticas é porque nem mesmo os governos do PT a implementaram. Paulo Freire era militante do PT e foi secretário da Educação de São Paulo na prefeitura de Luiza Erundina, tendo sido declarado patrono da educação brasileira 15 anos após sua morte, em 2012, durante o governo Dilma Rousseff. Ainda assim, nem mesmo durante os governos do PT suas ideias foram praticadas nas escolas como políticas de Estado. E é aí que esbarramos em um dos limites de Paulo Freire.

O centro do pensamento do professor passa pela necessidade de se buscar uma consciência de si e do mundo através da pedagogia crítica, o que questiona a desigualdade social e a divisão de classes da sociedade, mas não responde à questão do caráter de classe do Estado. Sua atuação sempre se deu apresentando saídas institucionais, por dentro do Estado, ainda que fosse contra o regime político do momento, mas não contra o sistema capitalista de fato. Sendo assim, há nele uma perspectiva reformista e utópica, de que se a educação for libertária, o oprimido desejará não ser mais o opressor, como se fosse possível que o Estado burguês pudesse garantir essa educação e ela, por si só, já fosse a ferramenta que ajudará a libertar as massas oprimidas. Conforme apontado por Frederico Puy e Virginia Puy,

O ponto polêmico é que, para Freire, existe uma ideia que antecede a ação: a consciência do oprimido que deseja deixar de ser oprimido. Ele dirá que para existir é preciso “dizer” a necessidade de transformar o mundo. Este processo de “libertação permanente” colide frontalmente como um ponto de vista utópico, humanitário e evolutivo, desvinculado da luta de classes “como motor da história”, onde se gera a consciência de classe. Ou seja, colide com uma concepção materialista histórica da própria humanidade.

Com toda sua excelente contribuição para se pensar uma pedagogia crítica e uma educação libertária, falta ainda em Paulo Freire uma resposta estratégica para se alcançar uma transformação real e profunda da sociedade, que acabe com a desigualdade. É correto que isso só pode ser sim obra dos trabalhadores conscientes de sua classe, mas é necessário que eles estejam organizados enquanto tal para tomar o poder e construir outra sociedade com outra forma de Estado, sem nenhuma confiança de que o Estado burguês poderá se extinguir apenas pela tomada da consciência do povo sobre o papel opressor e explorador desse Estado. Freire está correto quando diz que são as pessoas que mudam o mundo, e não a educação de forma vazia, no entanto é preciso avançar no que significa as pessoas mudarem o mundo. Isso precede organização de classe e estratégia de ruptura com o capitalismo, o que nunca esteve no horizonte do PT.

Um centenário no cenário da pandemia

Com a pandemia, a burguesia identificou uma oportunidade única para avançar em um de seus projetos mais abjetos para a educação: a fragmentação e individualização do processo de aprendizagem, que se traduz no precário ensino virtual e à distância. As escolas e universidades adotaram o ensino remoto neste cenário particular, o que gerou uma série de contradições, mas que as empresas, os lobistas da educação e atores da política nacional, como a própria rede Globo, exaltam como saída para a crise educacional. Interventores e reitores de diversas universidades do país exaltam o sucesso do Ensino Remoto como possibilidade para o futuro, subtraindo a centralidade da educação coletiva como pré-condição social para o desenvolvimento do ensino.

O que vemos em Paulo Freire é que todo sujeito tem uma vida que antecede à fase escolar, e isso deve ser posto como base para pensar o desenvolvimento desse sujeito nessa fase. E mais, a troca dessas experiências anteriores é o que possibilita a aprendizagem. Ensino é, antes de mais nada, social; é fruto coletivo. Universidades e escolas são os espaços físicos que reúnem, de forma simultânea, estudantes e professores para que interajam entre si e possam desenvolver conhecimento. Sem a possibilidade de contato um com o outro, sem a possibilidade de interação entre realidades materiais e subjetivas distintas, a aprendizagem fica limitada. Evidentemente é possível um nível de interação virtual. É possível aprender virtualmente. No entanto, é preciso compreender os interesses econômicos de setores do capital em alimentar esse meio de interação limitada.

Não são poucas as vezes em que vemos o discurso salvacionista da educação ser reproduzido nos meios de comunicação ou em cartilhas discursivas da direita liberal. Dizem que “só a educação vai mudar esse país”, ao mesmo tempo que despejam ataques com fechamento de escolas, cortes de salários de professores, demissões de trabalhadores da educação e perseguição à autonomia pedagógica, como já falamos acima do Escola Sem Partido. O que não dizem é qual projeto educacional querem para qual projeto de país. Esse discurso tem servido aos objetivos de precarização do ensino e da expansão de “escolas EaD”, enquanto universidades são fechadas ou têm cursos encerrados por falta de verba, e novamente cresce a elitização do ensino superior público, como é possível já ver a partir dos primeiros resultados do ENEM. O governo Bolsonaro cumpriu um papel exemplar nisso, mas há muito esse projeto tem sido desenvolvido no Brasil.

Estamos nos aproximando de 600 mil mortes por covid-19 no Brasil e o cenário no qual nos encontramos é de ouvir de Milton Ribeiro, ministro da educação, que o MEC jogou fora R$ 300 milhões devido à abstenção daqueles que conseguiram isenção da taxa no ENEM, o qual ocorreu em meio a pandemia. É de uma enorme falta de sensibilidade, mas nada surpreendente vindo deste governo reacionário.

É preciso se apropriar do que há de mais profundo e revolucionário na pedagogia freireana, para tirá-lo da boca dos conservadores com suas fake news. Atacam Paulo Freire pois não suportam a ideia da possibilidade da classe trabalhadora ser consciente de si e da sua condição social e histórica, porque isso pode levá-la a querer superar essa condição e buscar os meios para isso, o que só será possível se se der combinado a organização de classe e uma estratégica de ruptura com o capitalismo. E eles sabem que os trabalhadores organizados e dispostos a transformar a ordem da sociedade é a arma mais perigosa contra a burguesia e seus planos de dominação.

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FOOTNOTES

[1Paulo Freire, em Moacir Gadotti, Paulo Freire: Uma Biobibliografia, 1996.
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Iaci Maria

Willian Garcia

Clara Gomez

Estudante | Faculdade de Educação da USP
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