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História | "Carta aos Brasileiros" de 77 e 2022: a serviço da legitimação da oposição burguesa e patronal

Frente às ameaças golpistas de Bolsonaro, esse bloco agora quer se apresentar como defensores da "democracia", mas em função de manter todos os ataques e reformas que destruíram os direitos de amplos setores de massas.

Danilo ParisAnalista nacional e professor de Sociologia

quarta-feira 27 de julho | Edição do dia

A nova "Carta aos brasileiros", assinada por banqueiros, industriais, empresários, antigos membros do Supremo, entre outras personalidades, é abertamente inspirada na carta de 77, lida pelo então ministro Goffredo da Silva Telles Júnior, em meio à Ditadura Militar. Na versão atual, atribuem à primeira o papel de ser um marco histórico para o fim do período de exceção.

Essa ligação entre a carta de 77 e a de 2022 tem objetivos políticos claros. A volta ao passado está a serviço de legitimar uma política para hoje, tendo em vista as eleições de outubro. Essa operação está a serviço de legitimar o conjunto dos atores do regime político e o bloco burguês que agora é opositor a Bolsonaro, mas que grande parte apoiou o golpe institucional que abriu caminho para o Bolsonaro, e impedir qualquer perspectiva de luta independente, menos ainda a que tenha a classe trabalhadora como sujeito central. Digno de nota é que até então a carta de 77 sequer era lembrada como um "momento histórico", o que as grandes mídias tem se empenhado em reverter, em uma verdadeira reconstrução do passado.

Buscam atribuir a leitura de uma carta por um jurista o papel de iniciar a queda da Ditadura. Uma evidente falsificação histórica. Para isso, excluem o maior ascenso operário da história, iniciado em 1978, expandido-se em 79 e com seu auge em 1980. Nesse momento estava colocada a possibilidade da queda revolucionária da ditadura, com a classe trabalhadora assumindo a hegemonia da luta contra o regime, apoiada pelos setores médios, pobres urbanos, trabalhadores do campo, artistas e estudantes. Isso só não ocorreu pelo papel cumprido pela direção encabeçada por Lula, que traiu e desviou o ascenso, canalizando a luta operária para uma transição pactuada pelo "tope", nas palavras de Florestan Fernandes.

Nunca é demais lembrar que o Judiciário participou ativamente com a ditadura militar naquele período. Com a atrofia do Congresso Nacional, coube aos juristas preencherem a ordenação do regime erguido sobre os Atos Institucionais dos militares. Ninguém pode cair na ladainha de que um jurista que abriu caminho para "terminar com a ditadura".

Hoje, cabe ao antigo decano do STF, Celso de Mello, a leitura da nova carta em evento que será realizado no dia 11 no Largo São Francisco. O mesmo que compunha as cadeiras do Supremo nos momentos prévios às eleições de 2018, quando impuseram uma série de barbáries bonapartistas para manipular as eleições e abrir caminho para Bolsonaro.

Setores burgueses centrais, responsáveis pelos profundos ataques aos direitos e as condições de vida das massas, estão entre os seus signatários. Contam com o apoio da diretoria da FIESP ao ato do dia 11, manifestação que até o editorial do reacionário Estadão conclama a "sociedade civil" a apoiar.

Frente às ameaças golpistas de Bolsonaro, esse bloco agora quer se apresentar como defensores da "democracia", mas em função de manter todos os ataques e reformas que destruíram os direitos de amplos setores de massas.

O que buscam de alguma forma, é um regime com mais estabilidade, e que mantenha o essencial dos ataques, tarefa para a qual a chapa Lula-Alckmin está à disposição, e por isso, mais agradam esse setor. Contam ainda com o apoio do partido Democrata de Biden, que à parte o cinismo democrático, não quer movimentos de inspiração trumpista no maior país da América Latina.

Assim como esse bloco de oposição burguesa apaga a luta da classe trabalhadora que colocou de joelhos a ditadura, querem agora que ela siga como um ausente na luta contra Bolsonaro. Uma vez em cena, ela traria perigos aos seus grandes interesses econômicos e materiais.

É necessário aprender com a história. Assim como não foi Goffredo da Silva Telles Júnior que derrotou a ditadura militar, não será a união da FIESP, STF e banqueiros com a chapa Lula-Alckmin que irá derrotar a extrema-direita. A luta para derrotar as ameaças golpistas de Bolsonaro precisa estar intimamente relacionada com a luta para revogar as reformas e ataques, através de greves, paralisações e planos de luta. Será com os métodos da classe trabalhadora e da luta de classes que a história será escrita.




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