Cultura

CRÔNICA - TRIBUNA ABERTA

Carta ao meu amigo isentão

Senta aqui, ô isentão, vamos conversar.

Ana Kehdi

estudante de Letras e professora

quinta-feira 3 de junho| Edição do dia

Avenida Paulista, 29 de maio. Durante o evento, foram distribuídas máscaras pff2, álcool em gel e houve protocolos de distanciamento. Fonte: Mídia Ninja.

Você viu que eu estive nas manifestações contra o governo genocida e achou que seria uma boa ideia me mandar mensagem dizendo que sou incoerente, porque havia criticado as aglomerações favoráveis ao governo que aconteceram ao longo pandemia.

Entre suas afirmações, todas realizadas com aquela certeza de quem se acha o dono da razão, você afirmou que os manifestantes do dia 29 de maio não se importavam com os trabalhadores. Acho engraçado, querido, você pressupor que os que estavam nas ruas eram pessoas que, como você, podem ficar no conforto de seus lares em vez de se exporem ao vírus no ambiente de trabalho. Entretanto, o que vi na manifestação foi justamente o contrário: muitos trabalhadores, de diferentes profissões, indignados. Quer apenas um exemplo disso? Todos nós, profissionais da educação, que tivemos que voltar a trabalhar presencialmente sem nenhuma segurança.

Porém, na sua cabeça de moleque criado a leite com pera, ônibus lotado não é aglomeração, fome não é motivo para ir às ruas (aliás, esse problema ainda existe?) e professor é só um chato que está sempre reclamando de tudo.

A realidade é que você toma suas experiências de vida e seu conhecimento de mundo extremamente restrito como verdades universais, e chama isso de pensamento racional. Você acha que toda escola é igual à que você estudou. Pensa que a vida da empregada doméstica é igual à dos seus pais. Na verdade, você nem pensa na vida dela, apenas abstrai o que polui essa sua imaginação construída à base de Disney Channel.

Mas você sempre foi um curioso, gostava de estudar um pouco de tudo - bem pouco, só o suficiente para dar sua opinião pomposa e vazia. Daí, quando cresceu, ainda verde, começou a ler esses “livrões”: guias politicamente incorretos escritos por algum rockeiro idoso, sites que se dizem apolíticos, manuais de três páginas que dizem refutar totalmente teorias marxistas – essas mesmas que você chama de teorias da conspiração ou utopias – construídas com base em lutas diárias, além de muito esforço, suor e pesquisa.

E isso nada tem a ver com as suas oportunidades de estudo. Você pode ter estudado na melhor universidade do mundo, no entanto passou os anos lendo apenas resumos daquilo que considerava “doido demais”, sempre no seu mundinho limitado, autocentrado.

E aí você acha, meu amigo isentão, que clamar por vacina, comida e dignidade, em um momento que escancarou a política de morte do nosso governante miliciano, é comparável a sair por aí sem máscara, pedindo soberania do governo federal sobre os governos estaduais e municipais, solicitando o fim de políticas de distanciamento, do lockdown, pedindo intervenção militar.

Você vê uma bandeira de qualquer partido de esquerda e sente até arrepio. Não importa que eles estejam distribuindo máscaras pff2 para os manifestantes, não importa que eles tenham finalmente organizado um ato contrário ao inferno que foi instaurado nessa pátria, nada disso importa, pois “sua bandeira jamais será vermelha”.

Você se diz contrário ao governo, mas não faz absolutamente nada para combatê-lo. Fica aí, com seu sorriso amarelo, dando risada de bolsominion e de esquerdista, enquanto o país está à míngua.

Então, no conforto da sua casinha com cara de startup, pede o seu ifood, abre um livro sobre finanças e me manda uma mensagem dizendo que eu sou incoerente e radical. Eu respondo de maneira respeitosa e bem sucinta, mas sem expectativa de ser levada a sério, porque para você eu sou apenas uma menina deslumbrada, inconsequente.

E aí você me chama de massa de manobra. Você, o cara dos manuais, do “Pai rico, pai pobre”, o ex-simpatizante do Paulo Guedes, me chama de massa de manobra. Completa, ainda, dizendo ”bonita, pena que burra”. Eu apenas aceito a qualificação, sem verbalizar tudo aquilo que gostaria de lhe dizer: além de feio, é burro.




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