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Carandiru: Um especial sobre o maior massacre carcerário do Brasil

Gabriel Brisi

Laura Sandoval

Carandiru: Um especial sobre o maior massacre carcerário do Brasil

Gabriel Brisi

Laura Sandoval

A Casa de Detenção de São Paulo, popularmente conhecida como Carandiru, chegou a ter 8 mil presos, sendo o maior presídio da América Latina. Na época do massacre 7.257 pessoas estavam encarceradas, sendo que a capacidade do Carandiru era de 3.300 presos. Só no pavilhão 9, onde aconteceu o massacre, havia cerca de 2.070 homens, pouco menos que a capacidade total do presídio. Nesse pavilhão ficavam os presos de “baixa periculosidade” e recém-chegados ao presídio e que aguardavam julgamento e condenação. Além disso alguns ainda já tinham concluído a pena e que nem deveriam mais estar privados de sua liberdade. Submetidos a situações desumanas, o Carandiru era, na verdade, um depósito de pessoas, deixadas e abandonadas pelo Estado capitalista.

Não é de se surpreender que o maior massacre carcerário do Brasil se tornou referência para diversas obras. Entre elas, destacam-se a música “Diário de Um Detento” (1997) e “Carandiru: O Filme” (2003).

Diário de Um Detento

“São Paulo, dia 1º de Outubro de 1992, oito horas da manhã”. Assim começa uma das mais famosas músicas do grupo de rap Racionais MC’s. A canção de co-autoria de Mano Brown e Josemir Prado, um ex-detento que passou quatro anos no Carandiru, é uma das primeiras obras a contarem sobre o massacre que deixou pelo menos 111 mortos, segundo os números oficiais (dados que foram desmentidos pelos sobreviventes, alegando que foram muitos mais), no presídio paulista no dia 2 de outubro de 1992.

A música relata com extrema sensibilidade como eram os dias dentro da então maior prisão da América Latina, tendo início na quinta-feira que antecede um dos maiores massacres carcerários da história. Sob o olhar sanguinário do vigia, o detento conta os dias que faltam para ele deixar a prisão, as horas que não passam, o dia nublado que impede até mesmo o banho de sol.

“Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá
Tanto faz, os dias são iguais
Acendo um cigarro, e vejo o dia passar”

Os dias iguais vividos pelo sujeito lírico na prisão podem ter fim, ou não, afinal o dia a dia no Carandiru já era repleto de sangue e violência. Mas na tarde daquela sexta-feira, o “ratatatá” do metrô seria substituído pelas armas da Polícia Militar, que entraram no pavilhão com um único objetivo: a execução dos presos.

“Era a brecha que o sistema queria
Avise o IML, chegou o grande dia
Depende do sim ou não de um só homem
Que prefere ser neutro pelo telefone
Ratatatá, caviar e champanhe”

Ao certo ninguém sabe como a rebelião no pavilhão 9 começou, alguns dizem que teria sido pelo uso do varal, alguns dizem que foi pelo controle do tráfico de drogas dentro do presídio, ou mesmo por uma briga entre dois presos. Apesar disso, como o eu lírico ressalta na música, isso não importa de fato, afinal era a desculpa oportuna que o sistema desejava para promover a política de extermínio do Estado. Esta, teve o aval do secretário de Segurança Pública de São Paulo, Pedro Franco de Campos.

“Ratatatá, Fleury e sua gangue
Vão nadar numa piscina de sangue
Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
Dia 3 de Outubro, diário de um detento”

A música termina no sábado, dia seguinte ao massacre, e também um dia antes das eleições municipais. Neste dia os sobreviventes do massacre foram liberados a retornarem às suas celas, no entanto, não antes de retirarem os corpos dos colegas mortos e limpar as galerias do pavilhão 9 da Casa de Detenção paulista. Luiz Antônio Fleury Filho, o então governador do estado de São Paulo, almoçava tranquilamente no dia do massacre. Porém, o sangue dos mortos daquele dia está em suas mãos, assim como nas fardas dos agentes que apertaram o gatilho. Não somente estes: mas toda a polícia, que serve de braço armado do estado e que segue assassinando principalmente jovens negros da periferia, dentro e fora dos presídios, também é responsável e segue impune, existindo. Por isso, por ódio ao massacre do Carandiru e por todos os assassinatos pelas mãos dessa instituição: fim da polícia já!

Carandiru: O Filme

A superprodução baseada no livro “Estação Carandiru”, escrito pelo Dr. Drauzio Varella, traz relatos de detentos, ouvidos e coletados pelo médico enquanto realizava o trabalho de prevenção à AIDS na Casa de Detenção de São Paulo. Os relatos do filme culminam com o massacre acontecido no dia 2 de outubro de 1992.

O filme, de direção de Héctor Babenco, traz a história de vários detentos com quem Drauzio Varella teve contato na ala hospitalar da casa de detenção. De forma humanizada, o filme mostra que as 111 vítimas do massacre tinham uma história a ser contada, sendo o Doutor mero ouvinte dos relatos e possibilitador de que o público tivesse um vislumbre da realidade no presídio. A obra tem seu foco em apresentar os eventos que formaram cada personagem, com todas suas contradições, e que culminaram na prisão desses. Assim, também destrinchando as condições precárias e violentas da permanência no Carandiru e as relações que mantinham dentro do presídio até o momento do massacre.

Entre as condições desumanas nas quais os presos são abandonados, pode-se verificar no filme as minúsculas celas superlotadas; o risco de contraírem doenças diversas pela insalubridade (no caso do filme, o HIV em especial, como problemática crescente na época retratada); o vício em drogas potencializado em tais condições tão precárias; e o perigo eminente em que se encontravam os detentos, com brigas e ataques armados. Além disso, a obra cinematográfica sensibiliza expressando o completo abandono das pessoas ali detidas, constatado, por exemplo, na situação do personagem Seo Chico, que já havia cumprido sua pena, mas continuava aprisionado.

As histórias relatadas no filme intercambiam dependência química, lutas familiares, romances e assassinatos. Todos estes configuravam temas do cotidiano no Carandiru, que permeavam a vida dos quase 8 mil presos e entrelaçavam a vida de todos lá detidos, para além do assassinato em massa que os uniu no ano de 1992. Alguns personagens recebem mais holofotes na construção da narrativa, como a história familiar de Deusdete e Zico; Lady Di e seu casamento com o Sem Chance enquanto estavam na Casa de Detenção; o vício em crack de Ezequiel e Zico; e a antiga parceira no crime e reconciliação dentro do presídio de Antonio Carlos e Claudomiro.

A perspectiva dos detentos na obra aborda um tema muito importante que é a precarização da vida, que levam vários dos personagens, de diferentes modos, a cometerem crimes que culminam no encarceramento na Casa de Detenção de São Paulo. A justiça burguesa, que os condena, e o sistema carcerário, ao contrário do que o Estado prega, não são capazes de reabilitar os presos. Muito pelo contrário, no presídio, eles sofrem com a violência e precarização escancaradas que aprofundam seus problemas. E caso tenham a possibilidade de serem soltos, o que não ocorre para os pelo menos 111 assassinados pela polícia no Carandiru, a perspectiva colocada pelo sistema capitalista é de precarização ainda maior, muitas vezes se vendo obrigados a retornarem ao crime. Além disso, muitos nem mesmo sobrevivem ao cárcere, em decorrer da violência e das brigas, mas também das doenças, como é o caso do personagem Antonio Carlos que morre de pneumonia. São essas contradições do capitalismo sentidas na pele por toda a classe trabalhadora que fazem, na obra, com que o público se identifique e se sensibilize com as narrativas mostradas.

Hoje o massacre do Carandiru completa 29 anos de impunidade por parte do Judiciário aos envolvidos nesse massacre que assassinou centenas de negros e pobres, muitos dos quais sequer tinham sido julgados.

Esses 29 anos de impunidade frente ao massacre do Carandiru deixam claro que não podemos confiar nessa justiça dos patrões, dos ajustadores e dos golpistas, nem na Polícia que realiza o trabalho sujo de assassinar a juventude negra, pobre e periférica para preservar a propriedade daqueles que nos atacam.

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Gabriel Brisi

Laura Sandoval

Estudante da Letras - USP
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