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“Cancelaram as diárias de muitas de nós e não dão nenhum suporte, nos deixam entre a contaminação e a fome.”

Nesta matéria Entrevistamos Andreia, trabalhadora de serviço doméstico e militante do Pão e Rosas, que relata como tem sido a situação de trabalho na pandemia.

sábado 3 de abril| Edição do dia

"Nós trabalhadoras da limpeza - seja em agências , aplicativos ou mensalistas - não temos o apoio mínimo dos patrões, isso em tempos tão difíceis pra todos! As trabalhadoras não recebem nenhum tipo de ajuda! Sabemos que a grande maioria vive com pouco então falta comida acúmulo das contas e a miséria que todos nós trabalhadores precarizados sentimos na pele! O governo do Bolsonaro tenta sufocar as lutas e vozes das mulheres, mas seguimos denunciando a falta de direitos e o descaso com a gente!"

Esquerda Diário: Andreia, agora com o novo agravamento da situação da pandemia as empresas, as agências e os aplicativos de serviço doméstico então cancelando as diárias e deixando vários trabalhadores sem renda. Como ta sendo isso? O que as empresas estão fazendo em contrapartida para dar suporte às trabalhadoras?

Andreia: Não fizeram nada viu... nenhum tipo de assistência. Como a grande parte das trabalhadoras são diarista ou são MEI (micro empreendedor individual), eles alegam que não tem nenhum vinculo e por isso não tem nenhum apoio ou direito. Mas nenhum apoio mesmo, nem a preocupação de uma mensagem para saber se você ta bem, como ta sua família como você está, nada mesmo. Então assim, isso vai desde o nível pessoal mesmo, que não tem nenhuma preocupação pessoal com a gente, até a questão da assistência mesmo, seja ela uma cesta básica ou algum auxilio. Eu, na minha visão, acho que deveria ter, deveria ter uma ajuda numa situação drástica dessas. Acho que as agencias e os aplicativos deveriam ter uma atenção em relação a isso, por que é um momento muito difícil. Também por que o sustento, que todo mundo sabe, e principalmente a diarista sabe bem. A diarista trabalha e recebe... trabalha e recebe... então você não tem garantia nenhuma né. Então assim, não tem nenhum tipo de apoio, nenhum tipo de preocupação, nem nada... E mesmo as que estão trabalhando, não tem nenhum apoio, a gente sabe que nessa situação tão forte da contaminação tem muito o risco de a gente trabalhar.

Esquerda Diário: Sobre essa questão do risco: Essas mulheres, que na grande maioria são mulheres negras, são colocadas nessa situação entre o risco da contaminação ou ficar sem renda por não ter trabalho, o que é uma “escolha” absurda. Como tem sido a realidade e o dia a dia dessas mulheres Andreia?

Andreia: Ah a realidade é que a grande maioria fica dependendo dos familiares, dos colegas, dos vizinhos... A grande maioria são mulheres negras que tem filhos, crianças pequenas... Então assim, ficamos dependendo de outras ajudas por que a ajuda da empresa a qual você presta serviço não existe. Além disso, a gente sofre com não saber se vai faltar comida, a pressão da falta de dinheiro para pagar as contas, e você acaba tendo outro problema também, a preocupação com o psicológico... que também fica muito afetado. Principalmente na mulher por que também, na sua grande maioria as mulheres negras, as diaristas, muitas vezes são mães solteiras, não tem alguém que contribua na casa junto. Então a realidade das trabalhadoras precarizada é essa. A sua grande maioria não tem um companheiro... e muitas das vezes quando tem o companheiro também não ajuda no que é preciso. A realidade é muito dura, de dor de descaso... Ai quando a empresa volta, se volta - aconteceu isso no começo da pandemia - volta como se nada tivesse acontecido, como se tivesse tudo bem, entendeu, mostra como não tem nenhuma preocupação com você, a preocupação é sempre com o cliente. Então nessas piores fazes da pandemia as mulheres trabalhadoras estão enfrentando muita dificuldade e chegando até ao ponto de humilhação mesmo. Pra as mulheres mais pobres, mais precarizadas tem a humilhação também de estar nessa situação.

Esquerda Diário: Você acha que as situações de humilhação e assédio pioraram nesse período de pandemia?

Andreia: Já tem muita humilhação nesse tipo de trabalho né. Mas assim, você escuta também tipo "olha aqui, estou disposto a te ceder uma diária, mas se quiser trabalhar vou pagar só tanto". Então tem a humilhação também de você prestar o seu serviço que é valoroso por um preço bem menor e ainda tendo que ouvir isso, é um tipo de humilhação muito forte. Então assim, tem isso também, muitas se colocam em risco exatamente pelo que te falei antes, por causa dos filhos e da necessidade de conseguir algum dinheiro, sendo que isso o estado poderia estar disponibilizando para as trabalhadoras não estarem passando por isso né. Mas é muito humilhante, essa humilhação é constante, e é tipo "nunca teve muito e agora quer ter mais, como assim", então muitas estão indo trabalhar mesmo com todos os problemas porque não tem nada".

Esquerda Diário: E sobre essas agências e aplicativos de serviço doméstico, você acha que elas poderiam estar pagando uma licença para essas trabalhadoras, para elas não precisarem se expor nesses momentos mais críticos?

Andreia: Sim, eu acho que deveria sim, acho que seria o mínimo né, dar um sustento de pelo menos algum dinheiro para a comida. É que a falta de compreensão em relação aos trabalhadores é tanta que a gente coloca dessa forma, se fosse o mínimo já ajudaria muito. Mas acho que teria sim, todas as agências deveriam ser obrigadas a fazer isso, porque elas lucram muito em cima do trabalho doméstico, seja ele qual for, e poderiam garantir pelo menos o mínimo. Elas sequer doam uma cesta básica, ou cobrem a diária que você tinha marcado para aqueles dias, nem mesmo um pouco das diárias são repostas. A gente está ali porque precisa trabalhar, quer trabalhar, mas aí nos momentos difíceis onde você não tem nenhuma ajuda você repensa né. Repensa mas infelizmente fica ali por causa da necessidade. Mas eu acho que deveria sim, o certo mesmo era que no caso dos serviços que não são de urgência o pessoal fosse liberado pra não se contaminar, mas sem perder trabalho, com a empresa garantindo nossa licença remunerada. Agora, limpeza de área de saúde por exemplo, nesse caso é serviço essencial pra ajudar a acabar com essa pandemia. Nesse caso deveria inclusive contratar mais gente, ter escalas com poucas horas e o mesmo salário. E lógico, com todos os equipamentos de proteção pra os trabalhadores.

Esquerda Diário: Qual seu recado para as mulheres que estão nessa situação hoje?

Andreia: Meu recado é que a gente siga denunciando, a gente tem que seguir se revoltando em relação a isso, a gente tem que ter um entendimento maior de que a nossa profissão é muito importante, a nossa força de trabalho é muito importante, então assim não é se calar diante do que estamos passando principalmente nesse momento de crise sanitária, a maior que já existiu nos últimos tempos. Então assim, não devemos nos calar não, a gente tem que denunciar, as pessoas tem que ler, a gente tem que saber o que esta acontecendo, sabe. Está acontecendo coisas nesse nível e até pior, a gente não tem conhecimento do total, do quão precária está mesmo a situação, porque a gente sabe que as pessoas estão morrendo de fome, de desespero, de várias coisas. E a causa é essa aí: a gente fica a vida inteira dando assistência, doando nosso trabalho, e a gente não tem um retorno. Então meu recado é esse, vamos seguir denunciando, temos que seguir alertando, abrindo os olhos das trabalhadoras, para que elas entendam de alguma forma que elas têm espaço pra denunciar, que somos uma classe de muito valor e que é muito importante a gente não só ter todos direitos, é importante a gente ver que o mundo não funciona sem nossa limpeza, não queremos ficar pedindo, implorando, se humilhando e tal. A gente está ali, dando nossa força de trabalho todo dia.




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