Caiado quer jogar em nossas costas as contas da pandemia: Relato de uma professora de Goiás

Enquanto faz demagogia acerca da vacinação dos professores e garante retorno apenas apenas após a imunização, o governador Ronaldo Caiado (DEM) de Goiás, pressiona através de sua secretaria da Educação, o retorno das aulas presenciais jogando toda a responsabilidade das consequências disso à comunidade escolar. Professora faz um relato acerca da política irresponsável de governo e prefeituras goianas frente à pandemia, que reproduzimos de forma integral nessa nota:

segunda-feira 31 de maio| Edição do dia

Fátima Gavioli, secretária da Educação e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Fonte.

Desde março de 2020 que estamos em regime de aulas não presenciais em Goiás. Um sistema de aulas excludente e que precarizou ainda mais as nossas condições de trabalho. Entretanto, a pressão pelo retorno das aulas presenciais, já não é algo recente. O estado de Goiás tem um protocolo de biossegurança - fora da realidade das escolas - preparado desde o segundo semestre de 2020. O governador do estado, Ronaldo Caiado (DEM), desde o princípio da pandemia gosta de afirmar que é médico e está ao lado da ciência e que não quer um retorno irracional das aulas. No início da pandemia até chegou a ensaiar um rompimento com o Presidente da República, manobra política de um experiente demagogo membro de uma família que espalha seus tentáculos na política goiana - quando não a frente dos principais cargos do Executivo e Legislativo, por trás destes - desde a segunda metade do século XIX. Não há rompimento entre Caiado e Jair Bolsonaro (sem partido), ele continua a circular bem em Brasília e a seguir sem um programa de combate à pandemia.

Entretanto, a política que o coronel Caiado segue, é a de ataques contínuos aos educadores e demais trabalhadores da Educação através de sua secretária, Fátima Gavioli. Em fins de 2020, Caiado afirmou que as aulas só retornam após a vacinação, o plano de vacinação nacional é um fiasco visível para todos e em março que seria a previsão inicial para o retorno das aulas, Goiás seguia com um ritmo de vacinação lento e com os índices de contaminados subindo de forma alarmante. Entretanto, Gavioli ordenou o retorno dos professores para as escolas e o governador soltou um de seus vários decretos - ele tem um verdadeiro fascínio por estes instrumentos - permitindo o retorno de 30% dos estudantes em escolas públicas e privadas - a capital, Goiânia passou por um surto de contaminação de covid em crianças, em razão desta medida. A pressão girava em torno da aplicação de uma avaliação externa, que Gavioli e Caiado ordenaram que fosse realizada presencialmente. O resultado: a segunda onda varreu o país e Goiás não ficou fora disso, passando inclusive pelo risco de falta de oxigênio para os pacientes graves e ocupações acima de 100% nos leitos de UTI.

Tardiamente voltaram atrás, e professores e estudantes retornaram todos para o sistema não presencial, na segunda metade de março, não sem antes se contaminarem. Em uma escola militar de Anápolis - o estado de Goiás tem mais de 60 dessas instituições aberrantes e excludentes - na semana da aplicação da famigerada avaliação, 9 profissionais foram diagnosticados com covid. E essas escolas, são as que têm as melhores infraestruturas e condições sanitárias em todo o estado.

O mês de abril foi um caos como todos nós podemos acompanhar, e no final deste, Gavioli demagogicamente afirmou que não ordenaria o retorno das aulas presenciais, “pois os professores iriam adoecer”. Contudo, as orientações são outras. Desde o início de maio que os prefeitos dos maiores municípios de Goiás, fazem uma corrida da vacina e os professores passaram a fazer parte da barganha. Rogério Cruz (REPUBLICANOS) prefeito de Goiânia, Gustavo Mendanha (MDB) prefeito de Aparecida de Goiânia e Roberto Naves (PP) prefeito em Anápolis, passaram a fazer anúncios e política em cima dos índices de vacinação em seus municípios.

No último dia 17 de maio, Naves saiu à frente anunciando que vacinaria os professores da rede pública e privada. Nesse dia, Gavioli fez uma live em que pressionava pelo retorno, dizendo que muitos professores estavam lhe procurando para pedir o retorno. Segundo, ela estava passando da hora das escolas retornarem os 30% dos estudantes e que não iria baixar o documento, mas que deveríamos pensar nos índices e que em agosto todos devemos retornar. Isso assim, sem nenhuma vacinação, pois Naves passou a vacinar os professores da rede municipal, mas sobretudo, aqueles que trabalham no Ensino Fundamental I e II, os docentes estaduais seriam contemplados apenas entre os que atendem alunos dessas turmas - inclusive sem vacinação para os demais trabalhadores da escola, como merendeiras, porteiros e outros.

Mas, e os demais municípios? E os demais trabalhadores? Não somente os educadores, e os rodoviários que levam nossos alunos para a escola, por exemplo, nada disso foi dito, e mais, a própria Gavioli disse que não havia uma previsão para a vacinação dos professores estaduais. Mas, Ronaldo Caiado iria ficar atrás de prefeitos com curtas carreiras e tradição na política? Jamais! A fim de poder impor um retorno às aulas presenciais, gabou-se de ser um dos governadores que articulou junto ao Ministério da Saúdea recém construída orientação para a vacinação dos professores e da população geral por idade. Todavia, ao longo desta semana, a imposição para o retorno ficou ainda mais forte. Reuniões presenciais, com coordenadores de regionais, tutores, diretores e coordenadores pedagógicos passaram as orientações: retorno de 30% dos estudantes em plantões, já no mês de junho - sem vacinação, sem testes e com os casos novamente em alta. Tudo com base em assinatura de termos de responsabilidades, o estado caso haja contaminações de estudantes, professores e da comunidade escolar, não é responsabilizado - pois, afinal quem desejou o retorno foram os próprios professores. Genial, não é? “Seria cômico se não fosse trágico.”

Goiás tem mais de 50% de seu quadro de professores com contratos temporários, o último grande concurso da Educação foi realizado em 2011. Na última semana, em mais um ataque aos professores efetivos, Caiado conseguiu que a assembleia legislativa de Goiás aprovasse um projeto que restringe aos professores efetivos receberem por carga acima de 40 horas semanais, obrigando aqueles que buscam tal carga horária se candidatem em um processo seletivo, semelhante ao que os professores temporários passam. E essa medida absurda foi aprovada sem qualquer tipo de organização ou resistência do SINTEGO, dirigido pela CUT, que aposta em disputas judiciais ao invés da força da tradição de mobilizações e lutas da nossa categoria possui, para mobilizar demais trabalhadores e a juventude para combater os vários ataques dos golpistas como Caiado e Bolsonaro contra a nossa classe.

A vacinação que Caiado e seus prefeitos fazem política, ainda segue apenas no discurso, não há vacinas nem mesmo para os grupos prioritários e a pandemia segue em ritmo galopante. Contudo, o coronel nos empurra para um retorno inseguro, mas preparado para jogar em nossas costas, professoras, professores, estudantes, pais e mães as consequências da pandemia. Não aceitamos morrer no chão da escola, ao mesmo tempo que sem condições sanitárias, sem vacinas para todos e mesmo para o conjunto dos trabalhadores da educação e da comunidade escolar. Mais do que nunca é o momento de unirmos a comunidade de cada escola, para impor que nenhum plano de retorno seja implementado sem que ouçam as nossas reivindicações sobre quais as condições precisamos para isso, somente nós que vivemos o chão da escola temos condições de decidir!




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