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CRÔNICA: A gente que agradece - sobre a experiência de estar com os grevistas da Sae Towers

Maria Eliza

Imagem: @jliasantana

CRÔNICA: A gente que agradece - sobre a experiência de estar com os grevistas da Sae Towers

Maria Eliza

“Brigado por apoiar a gente aí”, eles disseram repetidas vezes nos últimos dias. Não há outra resposta possível que não “a gente que agradece por estarem fazendo essa greve”.

Chego em casa atrasada para fazer o trabalho da faculdade que já está atrasado. Mas tudo bem, minha graduação não vai por água abaixo por causa disso, ainda tenho tempo de escrever uma crônica sobre o que ouvi dos metalúrgicos, porque eu quero que meus colegas atrasem os seus trabalhos de fim de semestre pra ler o que eles têm a dizer.

Então vamos começar a aula. Dessa vez não foi remoto, não foi pela internet, eu ouvi que “esse pessoal que está lá na universidade, estudando o mundo do trabalho, veio aqui ver o que é o mundo do trabalho” mas quem falou estava na minha frente mesmo. A gente invadiu o centro da segunda economia de Minas Gerais, a cidade governada pelo prefeito mais rico do país, aquele desgraçado. Depois dessa manifestação, sentamos, conversamos, aprendi coisas que só os livros não ensinam.

Sabia que eles seguraram o nosso Ensino Remoto Emergencial nas costas? Não pararam nenhum momento da pandemia, fizeram horas extras, três turnos, máquinas sempre ligadas, eles sempre ligados, produzindo... torres de transmissão! Sem eles não tinha internet, não tinha sinal de celular, não tinha aula síncrona, nem assíncrona, nem Moodle, nem mesmo aquele butequinho virtual pra aguentar a barra do isolamento na pandemia.

Quando os conheci, eles ficaram muito felizes. “Nossa, estamos recebendo apoio de estudantes da UFMG, vocês são muito inteligentes e estão apoiando a gente.”. Eles - a classe trabalhadora do mundo todo - também são muito inteligentes. Tem que ser muito inteligente para colocar o mundo de pé todo dia. O que a gente faz na universidade é muito importante (inclusive a maioria de nós somos ou seremos trabalhadores), mas tudo isso não é nada sem os metalúrgicos, as professoras, as enfermeiras, os motoristas, os construtores, etc.

Eles sabiam disso, de alguma forma sabiam… não porque ali, todo dia no trabalho alienante da fábrica, eles entendam seu papel social, mas porque estão há 32 dias de greve - a mais longa da história da empresa - e como um deles me falou na porta da planta “lá dentro a gente não se sente ninguém, mas aqui fora a gente sabe quem a gente é”. Um outro completou “é na greve que o trabalhador vai entendendo que é o patrão que precisa dele, e não ele que precisa do patrão.”. “Ninguém precisa de patrão” - eu respondi - “algum deles sabe fazer essas máquinas funcionarem?”. “Eles só são donos da máquina” - um completou - “mas quem fez as máquinas também foi a gente”. São donos das máquinas e não deveriam, elas são da humanidade, os trabalhadores podem usar essas e fazer outras pro bem da humanidade, e não pro lucro da patronal.

Pois é, a patronal que lucrou ainda mais no último ano não quer pagar o mínimo que deve aos trabalhadores que construíram sua riqueza, mas tem dinheiro para pagar policial pra fazer escolta dos ônibus até dentro da fábrica. “A gente ficou um tempão pedindo pro ônibus especial pegar a gente lá dentro quando tava chovendo, e nada. Foi só ter greve que agora o ônibus deixa o trabalhador quase que na frente na máquina.”.

O policial recebendo mais, o trabalhador recebendo menos. A patronal quer desmontar a greve deixando os trabalhadores com fome, tentando convencê-los a voltar pros seus postos com a PLR 40% menor que a última. A gente não pode deixar. Corre, libera uma conta, divulga o pix, pega um carro emprestado, compra cestas básicas, vamos levar para eles e dizer que se eles quiserem lutar a gente vai batalhar para que eles possam fazer isso.

Querem fazê-los voltar pros seus postos com a desigualdade salarial de sempre, absurda: um tem um salário mais de mil reais mais baixo que o outro, ambos fazem o mesmo trabalho, na mesma empresa.

Ouvi uma conversa paralela, o metalúrgico dizia para a professora que foi apoiar: “vocês tinham que ser mais valorizados, ganhar um salário melhor, tipo esses políticos e esses juízes”, e a professora respondeu “eu acho que a gente devia receber melhor e que todo político e juíz devia receber igual a gente, sem nenhum privilégio”. O outro lá do outro lado concordou, a esposa dele é professora e fez greve contra o retorno inseguro das aulas imposto pelo Medioli, aquele maldito magnata que domina toda a mídia da cidade e da região e perseguiu politicamente os trabalhadores da educação que lutaram pelas vidas da comunidade escolar. A professora tinha falado no microfone “uma só classe, uma só luta!”.

O outro jornal, o que é de trabalhadores e para trabalhadores, tem uma comunidade para que várias mãos façam ele funcionar. Ele não tem jornalista contratado e nem recebe dinheiro de governo nem de patrão, é um jornal militante. Que orgulho! Tem sido o único jornal a cobrir a greve. “É daqui de Minas?”, um perguntou. “É internacional!”, eu respondi.

Aquela entidade estudantil também está mandando muito bem, aquela dos artistas, os artistas que fizeram uma faixa bonita e levaram para a manifestação hoje. Os trabalhadores gostaram muito, gostaram da bateria e das músicas também. A gente gostou mais ainda, vê-los cantando, dançando, nos enche de esperança. A situação está difícil, inclusive assustadora para muitos jovens, mas para tudo agora: vocês já viram os vídeos deles com toda energia para enfrentar os patrões? Se temos eles ao lado temos tudo, não podemos desanimar.

Eles têm energia e eles conspiram. Na última greve a patronal cortou todas as árvores, para que eles não tivessem uma sombra para conversar debaixo. Conversar é perigoso demais para os patrões. “Se eu não tivesse cabeça aberta eu tava lá dentro dando dinheiro para eles” e “recebi mensagem de quem tá lá dentro dizendo que quer que a greve continue” são frases que me fizeram concluir novamente que os patrões morrem de medo deles. Têm que dividir os trabalhadores entre quem ganha mais, quem ganha menos, quem tem produtividade x ou y, camisa 10 ou seja a desculpa que for.

Têm tanto medo que chegaram a demitir 9 trabalhadores de uma comissão especial de segurança do trabalho de uma só vez, o que só foi possível porque aquele genocida do Bolsonaro e aqueles ratos do Congresso aprovaram uma Medida Provisória a favor dos patrões no ano passado. Desafiaram os trabalhadores e perderam, tiveram que recontratar e ouvir os fogos de artifício.

Os trabalhadores são debochados e tem que ser mesmo. Eles estão na greve agora, me contando que a chefe da vez é mais carrasca do que a última, que caiu na greve de 2016, mas eu não vi no rosto de nenhum deles qualquer sinal de medo dela. Ela que tem que ter medo, os patrões têm que ter medo porque se os trabalhadores descobrirem que eles são inúteis, vão controlar todo o mundo com suas próprias mãos, as mesmas mãos que hoje tudo fazem, mas quase nada podem colher.

“Trabalhadores, arranquem de nossas frágeis mãos as bandeiras para a sua luta”, está escrito em uma imagem que uma estudante de artes fez em apoio à greve. Um trabalhador falou que “depois dessa greve aqui, essa empresa nunca mais vai ser a mesma.”. A juventude que estava presente apoiando também nunca mais vai ser a mesma. A gente ouviu num dia “quem sabe a gente um dia possa ajudar vocês também” e no outro “vamos lutar porque senão esses estudantes não vão ter direito nenhum no futuro”. A consciência avança aos saltos, mal posso esperar para saber o que vamos ouvir deles amanhã.

Também ouvimos muitas denúncias de situações absurdas que eles enfrentam, o que nos entristece e nos revolta, mas é melhor termos ouvido do que viver fingindo não saber que é assim que vive nossa classe e nosso povo. Nós vivemos assim, mas, como de costume, não vamos aceitar calados. Que bom que eles falaram, temos que falar mesmo, temos que gritar. Nós estudantes temos que ser aquele megafone azul que se camuflou no uniforme deles e que quando foi pra mão daquele que é parecido com o desenho da faixa, tudo mudou e todos gritaram mais forte.

Mal posso esperar para que todos vejam, ouçam, participem e apoiem. Que sintam o peso gostoso nas costas de ser parte, mesmo que pequena, de construir um novo mundo. Quando eles dizem “vocês vão ficar pra história junto com a gente nessa greve” e a minha camarada escreve “esse foi um dos dias mais emocionantes da minha vida, sem nenhum exagero” eu sei que estamos fazendo a coisa certa.

Agora sim, já consigo terminar o trabalho da faculdade.

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Maria Eliza

Estudante de Biologia da UFMG
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