Sociedade

Brecht ressurge em polêmica do assalto em Criciúma e atormenta bolsonaristas e empresários

sexta-feira 4 de dezembro de 2020| Edição do dia

Bertolt Brecht, dramaturgo alemão antinazista e comunista, teve seu momento de glória em um episódio para lá de pitoresco nos pampas gaúchos em pleno 2020. O assalto milionário em Criciúma dividiu opiniões no Twitter, onde a felicidade diante da chuva de papel contrastou com as condenações dadas pelos grandes veículos de informação. Alguns viram os assaltantes como personagens do La Casa de Papel, outros apenas curtiram o funk recém criado por MC’s. Mas Brecht não participou do assalto, nem usufruiu das notas voadoras. O dramaturgo foi citado por uma repórter da Zero Hora, insuspeita não comunista, Kelly Matos. Seu colega de programa, o liberal e extremamente entediante David Coimbra (carinhosamente apelidado de David Coximbra por aqui), também participou da ressurreição do autor da Ópera dos Três Vinténs. 

O enredo é curto: analisando o assalto em Criciúma, em determinado momento do programa Time Line, da Rádio Gaúcha, Kelly Matos afirma que "crime não é roubar um banco, mas fundar um banco", frase atribuída a Brecht. A correta, na verdade, é sutilmente diferente: "o que é roubar um banco comparado a fundar um?". Não passaram muitas horas até que os patrocinadores do programa, preocupados com os dividendos e a honra do capital financeiro, soltaram notas de repúdio e retiraram seu patrocínio. A Unicred, por exemplo, valorizou a "liberdade de imprensa" (sic) em sua nota de repúdio, mas afirmou "no entanto, não compactuar com os comentários realizados a respeito dos bancos e assaltantes". Na onda da Unicred, outras empresas também cancelaram contratos com o programa, como a Salton, Sebrae-RS, Shopping Total, Santa Clara e Biscoitos Zezé. Provavelmente o intuito de Kelly Matos e Coximbra não era fazer sua empresa perder tanto dinheiro, mas os biscoitos acabaram para a dupla, até segunda ordem pelo menos. 

O causo, passível de ter sido inventado por Kafka, chamou atenção por algumas coisas. A primeira delas é a força que Bertolt Brecht ainda possui, mesmo quando sequestrada por jornalistas liberais. Não durou 24 horas e as forças do capital já abriram suas asinhas para tirar dinheiro do "isento e imparcial" jornalismo da RBS. O bolsonarismo já está em polvorosa no Twitter exigindo a cabeça da dupla e o cancelamento do programa. Não apenas Brecht apontou sua aguda adaga aos nazistas (os raízes) da década de 1930, produzindo obras primas como Terror e Miséria no Terceiro Reich e a Exceção e a Regra, como continua incomodando a turma do andar de cima em pleno 2020. 

O segundo fato é o escancaramento da hipocrisia do jornalismo oficial chapa branca. A RBS e os grandes meios de comunicação são grandes empresas capitalistas. Nada mais nada menos. Vendem ideias maquiadas de informação, mas seus funcionários devem respeito ao capital, caso contrário, os champagnes da Salton fecham a torneira. É peça chave da organização do capitalismo, operando ideologia burguesa de alta intensidade. É puro e simples interesse de mercado. A RBS provavelmente soltará notas de desculpas, os jornalistas levarão uma ou outra bronca, mas já já é vida que segue. Curioso como destruir a previdência pública, arregaçar com os direitos dos trabalhadores, passar pano para fake news e fomentar discurso de ódio contra homossexuais, mulheres e negros não ocasiona tamanha convulsão entre os clubes da burguesia gaúcha e a horda bolsonarista nas redes. Pecado mesmo é falar mal de banqueiro...

Evidentemente Brecht nunca defendeu organizações criminosas como o PCC. Sua mira era voltada ao crime cometido sistematicamente pelos bancos que lucram com o roubo juridicamente legal. Esses mesmos que trabalham para usurpar dinheiro dos pobres e transferi-los, legalmente, para os ricos através das mais variadas operações financeiras (a mais conhecida e vultuosa, a dívida pública). Contra a RBS, que lucra com essas mesmas empresas e diariamente defende os interesses dos ricos contra os trabalhadores, a grande burguesia gaúcha, nacional e internacional e o bolsonarismo, Brecht surge nesse começo de dezembro como uma luz em meio às trevas.




Tópicos relacionados

Miséria capitalista   /    Capital financeiro   /    Bancos   /    Crime Organizado   /    Rio Grande do Sul   /    Capitalismo   /    Monopólios Capitalistas   /    Bertold Brecht   /    Porto Alegre   /    Sociedade

Comentários

Comentar