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Bordando narratividades críticas: posicionalidades e espacialidades

Artigo sobre a mostra inédita "Transbordar: Transgressões do Bordado na Arte", em exposição até 08/05/2021 no SESC Pinheiros; com entrevista exclusiva da curadora Ana Paula Simioni concedida à Gabriela De Laurentiis.

Gabriela De Laurentiisartista, pesquisadora e professora

sexta-feira 26 de fevereiro | Edição do dia

AUTORA DESCONHECIDA. Santiago, Chile. Arpillera Centro de detencion, 1973-1989.
Foto: cortesia Fondo Fundación Solidaridad – Colección Museo de la Memoria y los Derechos Humanos

Zuzu Angel foi personagem do texto da última semana. Lembrei que há cinquenta anos a costureira/estilista realizava um desfile protesto na residência do cônsul brasileiro em Nova York. International Dateline Collection III, ocorre em setembro de 1971, após o sequestro de seu filho Stuart Angel (1946-1971) pela ditadura civil militar (1964-1985).

Entre as peças bordadas para o evento, um vestido em que aviões, tanques de guerra, pássaros engaiolados figuram como crítica à violência do Estado ditatorial. A criação está em exibição na mostra Transbordar: Transgressões do Bordado na Arte, em cartaz no SESC Pinheiros.

A curadora da mostra, Ana Paula Simioni, é professora da USP e uma das principais pesquisadoras brasileiras sobre as relações entre mulheres na arte e perspectivas feministas da historiografia. O projeto origina-se da pesquisa de Simioni iniciada a partir da inquietação sobre os porquês de o bordado não ser estudado no campo da história da arte.

Tecidos, costuras, brocas, agulhas, linhas e bordados são frequentemente associados a um repertório historicamente construído como feminino, material e simbolicamente. São variados e numerosos os sentidos políticos relacionados a essas questões. Entre eles, destaco que desde a década de 1970, pesquisadoras feministas exploram as políticas do universo da costura sublinhada como uma prática historicamente feminina.

Dessa década são as Arpilleras presentes entre as obras exibidas. Jordana Braz – em texto de parede – explica que essa técnica têxtil originada no Chile, tem como base tecidos derivados de sacos de farinha e batata, as serrapilheiras ou arpilleras em castelhano.

Intituladas Centro de detención (1973-1989) e Carta de desaparecidos (1973 –
1989) as Arpilleras trazem bordadas as violências da ditadura chilena (1973-1990). O texto de Jordana Braz, curadora assistente, explica que oficinas da técnica foram patrocinadas pela Vicaría de la Solidaridad, organização vinculada à igreja católica.

As peças produzidas durante as oficinas relatam as cenas da violência cotidiana, efeito da ditadura civil militar. O dinheiro da venda ficava com as mulheres que trabalhavam na elaboração das peças, dimensionando a ação como duplamente política.

Ana Paula Simioni – em entrevista por e-mail – observa que Transbordar apresenta o bordado como “uma materialidade que merece ser tida como tão artística quanto outras. Mostrar isso é combater a ideia de que o artesanal e o feminino são inferiores ao artístico e masculino. E isso é um ato político, de uma política artística animada pelas perspectivas feministas, mas dentro do que chamamos de políticas de gênero.”

A exposição, diz a curadora, “questiona hierarquias que perpassam a história da arte e que tendem a naturalizar algumas categorias. Por exemplo, tem-se como ‘natural’ a superioridade das ditas belas artes (pintura e escultura), em detrimento das artes aplicadas”.

Um modo de pensar dicotômico que opõe trabalho intelectual e manual, em uma dialética de valorização e desvalorização combinadas. Para Simioni a naturalização “tem uma longa história que associa a ideia do artista a de um produtor intelectual, enquanto os artesãos são vistos como destituídos de capacidades intelectuais”.

Instauram-se por meio desse pensamento, também, as divisões entre público e privado, feminino e masculino, constituídos a partir das concepções de inferioridade e superioridade.

A curadoria de Transbordar considera que “ultrapassar essas distinções significa desnudar exatamente isso, o quanto a ideia de que o bordado é ‘artesanato’ e, portanto, inferior, não se sustenta. Assim como as noções de que é um gênero feminino e, por conseguinte, doméstico e que, portanto, não merece ser exposto ‘fora de casa’”.

Entre as obras exibidas, está Variáveis (1976) de Anna Bella Geiger (1933), na qual a artista apresenta quatro mapas serigrafados: “Mundo”; “Do Domínio Cultural Ocidental”, “The World of Oil” e “Desenvolvido e Subdesenvolvido”. Linhas brancas e vermelhas passam embaralhadamente sobre eles.

ANNA BELLA GEIGER. Rio de Janeiro, 1933. Variáveis, 1978.
Foto: cortesia da artista e da Galeria Murilo Castro

Problemas sobre as espacialidades e posicionalidades – com diferentes repertórios conceituais e imagéticos – são frequentemente mobilizados na obra de Geiger. A produção cartográfica é privilegiada como material poético, instaurando indagações a respeito de suas operações ideológicas.

Delimitar fronteiras, como lembra o leitor de Frantz Fanon,Achille Mbembe, é uma forma de espacialização colonial, em jogos de inclusão e exclusão recíprocos. “Variáveis” são os mapas de Geiger, bem como são a recolocação das fronteiras e das posições dos sujeitos em relação a elas.

Em Marca registrada (1976), Letícia Parente (1930-1991) costura as palavras “Made in Brasil” na sola do pé em uma ação capturada em vídeo. O apoio estadunidense às ditaduras latino-americanas, motivados por interesses econômicos e políticos imperialistas, ressoam nas imagens e movimentos de Parente.

LETÍCIA PARENTE. Salvador, BA, 1930 - Rio de Janeiro, RJ, 1991. Marca registrada, 1975.
Foto: cortesia da família da artista e Galeria Jaqueline Martins

Em “Made in Brasil” a marca na pele transforma-se num slogan, em metamorfoses (com ares neoliberais antecipados) da nacionalidade, recolocada como identitária e excludente.

A posicionalidade ou o “lugar em que nos situamos” – para usar a expressão de Lélia Gonzales – é algo de extrema importância para as discussões estético-políticas contemporâneas, sendo o território artístico importante contribuinte para os debates.

A série Bastidores (1997) de Rosana Paulino (1967) articula essas discussões a partir de um repertório autobiográfico. A obra é composta por seis peças arredondadas, nas quais surgem imagens de mulheres da família da artista.

ROSANA PAULINO. São Paulo, SP, 1967. Sem título, série ‘‘Bastidores’’, 1997.
Foto: cortesia da artista

Feitas a partir do xerox e transferência em tecido, elas têm ora a boca, ora os olhos ou mesmo o pescoço e testa cobertos por um bordado preto. Faixas pretas significam culturalmente, no Brasil, a censura.

As personagens de Paulino fazem imaginar mulheres silenciadas pela história, efeito dos racismos e misoginias constitutivas dos processos de colonização que criam o Brasil. Essas figuras familiares trazidas para espaço expositivo, para a composição do repertório imagético compartilhável publicamente, instauram problematizações sobre esses apagamentos e violências, transbordando do pessoal para o político, do político para o pessoal.

Como sublinha Ana Paula Simioni “o aspecto político da exposição só pode se realizar por meio dessas formas artísticas particulares, discurso e materialidade estão entrelaçados de maneira muito orgânica em cada uma das obras escolhidas”.
Sentidos multiplicáveis por meio do contato com o conjunto de trabalhos, em suas tensões e conversações, como as linhas passadas por inúmeras agulhas fixadas por suas pontas nas paredes, instaladas em 300 x 200cm por Edith Derdyk (1955) na construção de seu Sopro (2020).

EDITH DERDYK. São Paulo, 1955. Sopro, 2020. Instalação site specific Sesc Pinheiros.
Foto: Katia Kuwabara

SERVIÇO
Transbordar: Transgressões do Bordado na Arte
Local: Sesc Pinheiros - Rua Paes Leme, 195, Pinheiros
Período expositivo: 26 de novembro de 2020 a 8 de maio de 2021
Funcionamento: Terça a sexta, das 13h às 20h. Sábado, das 10h às 14h.
Reserva de horário: www.sescsp.org.br/pinheiros (acesse preferencialmente pelo computador)
Indispensável uso de máscara
Classificação indicativa: Livre
Grátis. Limite de 4 ingressos por CPF.

Gabriela De Laurentiis | @gabilaurentiis | trabalha como artista, pesquisadora e professora. Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação da FAU-USP, é autora de artigos e do livro Louise Bourgeois e modos feministas de criar (Annablume, 2017), editado em espanhol pela NoLibros (2020). E desde fevereiro (2021) colabora como autora independente com artigos de opinião, divulgação de exposições etc, na sessão de cultura do Esquerda Diário.




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