ELEIÇÕES EUA

Bolsonaro nas mandíbulas eleitorais dos EUA: que faria numa derrota de Trump?

Qual o destino de Bolsonaro diante de uma eventual derrota de Donald Trump? Difícil dizer, mas o certo que seu isolamento internacional seria inaudito desde que assumiu a presidência em 2019, deixando-o mais vulnerável no plano interno.

André Barbieri

São Paulo | @AcierAndy

terça-feira 3 de novembro| Edição do dia

Nesse dia das eleições de 3 de novembro nos Estados Unidos, podemos dizer que a sorte está lançada para a extrema direita bolsonarista. A média das pesquisas eleitorais nacionais nos Estados Unidos (segundo dados da BBC, do instituto FiveThirtyEight, da Quinnipiac University, entre outros) dá uma margem de 8% a 9% de vantagem para Joe Biden, candidato do imperialista Partido Democrata, contra o xenófobo amigo de Bolsonaro, Donald Trump.

Uma eventual derrota de Trump, cujas botas foram arduamente lambidas por Bolsonaro, Mourão e os militares desde janeiro de 2019, seria o mais duro revés internacional para a extrema direita brasileira, que veio amargando severos contratempos no cenário latinoamericano. Em 18 de outubro a extrema direita boliviana, encabeçada por Luís Camacho e Jeanine Áñez, que orquestraram com a ajuda de Washington e do Itamaraty o golpe de Estado de 2019, foi humilhada nas eleições presidenciais. Trabalhadores, camponeses e indígenas bolivianos repudiaram o legado corrupto do golpe, que haviam combatido fisicamente nas ruas de El Alto, Cochabamba e distintas cidades da Bolívia, incluindo a tentativa de Áñez de perpetuar o mandato golpista em agosto. A luta de classes foi freada pela burocracia do MAS (partido de Evo Morales) e da COB, partido que terminou se beneficiando da raiva popular e vencendo o pleito presidencial em primeiro turno, com 55% dos votos. Luís Arce, eleito pelo MAS, terá de se haver com a relação de forças imposta pelos combates, ainda que desviados, que levaram seu partido de conciliação de classes à presidência. Já Bolsonaro, que havia participado ativamente da arquitetura do golpe, sentiu na pele o rechaço de massas a sua política, cortesia da Bolívia.

A 25 de outubro, Bolsonaro teve de sentir o gosto azedo do repúdio de massas da população chilena à herança constitucional do ex-ditador Augusto Pinochet, a quem homenageou presencialmente no Chile. A esmagadora maioria da população votou pela substituição da Constituição de Pinochet, instalada na década de 1980. Apesar da vontade expressa das massas de mudar tudo, o regime político chileno, questionado por completo desde a rebelião de outubro de 2019, está organizado para preservar o essencial: montaram uma convenção constituinte totalmente controlada pela direita tradicional e a ex-Concertación, com poder de veto diante de qualquer mudança substancial. Para os trabalhadores e jovens chilenos que chacoalharam o país no ano passado, resta confiar exclusivamente em sua organização e mobilização extraparlamentar, no terreno de luta de classes, para de fato enterrar a constituinte pinochetista, o governo Piñera amigo de Bolsonaro, e instalar uma verdadeira Assembleia Constituinte Livre e Soberana, revolucionária, sobre as ruínas desse regime.

Nesse panorama, que inclui a greve geral e as mobilizações contra a violência policial na Colômbia, as manifestações na Costa Rica contra o FMI, assim como os protestos contra os ajustes neoliberais no Equador, uma derrota de Trump terminaria de assentar o annus horribilis de 2020 para Bolsonaro, que ainda tem de ser haver com os 160 mil mortos pela Covid-19 no Brasil, auxiliada pela catástrofe sanitária organizada em décadas pelos capitalistas.

Bolsonaro sempre se escorou submissamente às orientações de Trump. Se não pôde levar até as últimas consequências a agressividade contra a China, pela enorme dependência econômica brasileira diante do autoritarismo chinês, não deixou de atacar o "vírus chinês" e dizendo que não vai comprar a vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac. No demais, foi bastante subserviente em praticamente todos os temas. Das críticas ao Acordo de Paris ao negacionismo diante da pandemia da COVID19, do pacto anti-migratório aos ataques a Cuba, Venezuela e Nicarágua. Bolsonaro lambia como ninguém as solas do trumpismo. Apoia a campanha de Trump, e já teve celeumas com Biden, no episódio em que o candidato Democrata criticou a política ambiental do governo brasileiro. Segundo reportagem do G1, a campanha de Biden não aceitou fazer contato com Bolsonaro diante da tentativa do governo brasileiro de estabelecer relações com o Democrata. O imperialista Biden, afinal, sabe fazer política.

É muito provável que Bolsonaro tenha de se realinhar em alguma medida em todas as principais questões internacionais em que, até então, andou serenamente encoleirado no gorjal de Trump.

Indo ao nó da questão: quais são as chances de Bolsonaro perder seu maior aliado, e ter de lamber as botas de outro amo?

Uma viagem pelos números

Joe Biden possui a maior vantagem de um candidato presidencial, às vésperas das eleições, desde 1996, quando o Democrata Bill Clinton tinha mais de 13% de intenção de voto sobre o Republicano Bob Dole – detalhe: a margem real foi 5% menor. Nessa altura, nos anos 2000 e 2004, George W. Bush sobrepujava seu oponente nas pesquisas por 3.6% e 2.3%, respectivamente. Em 2008 e 2012, Barack Obama aparecia na frente dos seus adversários por uma diferença de 6.7% e 0.3%, respectivamente. Em 2016, Hillary Clinton derrotava Trump nas pesquisas por 3.9%. Com a vantagem atual de Biden sobre Trump, este, que a essa altura tinha 35% de chance de vitória em 2016, agora possui apenas 10%.

Outro ponto favorável para Biden é que, em 2020, há menos chances de que os resultados finais divirjam excessivamente do retrato nas pesquisas. Segundo analisa Nate Silver, diretor do FiveThirtyEight, agência especializada em pesquisas eleitorais e que mais perto chegou na previsão do triunfo de Trump em 2016, as pesquisas até agora estiveram estáveis em larga medida, e o número recorde de votação prévia – mais de 100 milhões de pessoas – praticamente anula um fator substancialmente importante em toda eleição: a incógnita de uma virada de última hora não prevista nas pesquisas. Ademais, a polarização política e social nos Estados Unidos reduziu consideravelmente o peso dos votos indecisos, que são muito poucos às portas do 3 de novembro. Trump se valeu desses dois últimos fatores combinados para garantir o triunfo no Colégio Eleitoral em 2016. Outro fator, não menos importante, é que a vantagem atual de Biden nos distintos Estados lhe confere um colchão sustentável diante de um erro das pesquisas na magnitude de 2016. Segundo uma projeção feita pelo jornal The New York Times, mesmo se as pesquisas atuais estiverem erradas na mesma proporção que as de 2016, Biden ainda conquistaria 335 delegados no Colégio Eleitoral e seria eleito com facilidade.

Tomemos como exemplo cinco Estados chave nas eleições, em que a disputa pode ir para um ou outro lado, como Arizona, Georgia, Carolina do Norte, Flórida e Pensilvânia. Como vemos no quadro abaixo, com dados extraídos do FiveThirtyEight, um erro da magnitude de 2016 nas projeções do voto no Arizona (-1.2%), que levou a que Hillary perdesse de 3.5% e não de 2.3%, hoje faria com que Biden vencesse por 1.9% ao invés de 3.1%. Uma margem menor, mas suficiente para estabelecer o terreno conquistado. Estando na frente por 2.1% e 1.6% na Flórida e na Georgia, respectivamente, um erro semelhante a 2016 nas projeções ainda daria um triunfo a Biden nos dois Estados, por margens pequenas, de 0.4% e 0.5%. Na Pensilvânia, que custou caríssimo aos Democratas em 2016, e sendo agora provavelmente o mais importante swing state nessas eleições, Biden ainda venceria por 0.7%.

Ou seja, uma vitória de Trump é ainda plausível, mas uma margem de erro das projeções da magnitude de 2016 não seria suficiente para garantir seu triunfo sobre Biden.

O baixo número de votos indecisos torna as coisas difíceis, como dissemos, para o Republicano. As projeções para Biden estão acima de 50% em todos os Estados que Clinton venceu em 2016, e vencendo em Michigan, Wisconsin e na Pensilvânia (estando aqui com apenas 50.1% das projeções), além do Segundo Distrito de Nebraska, Biden conquistaria os 271 votos do Colégio Eleitoral necessários para vencer as eleições (a metade mais um dos totais 538).

Biden, atualmente, vence os swing states de Arizona, Michigan, Minnesota, Nevada, New Hampshire, Pensilvânia e Wisconsin, e dentro da margem de erro está à frente na Flórida, Geórgia e Carolina do Norte. Trump está à frente, dentro da margem de erro, apenas em Iowa, Ohio e Texas. Para assegurar o pleito, Trump precisaria vencer cinco swing states que pendem para Biden: Pensilvânia, Florida, Geórgia, Carolina do Norte e Arizona.

Nem tudo são rosas para os Democratas, entretanto. O caráter absolutamente antidemocrático das eleições nos Estados Unidos – em que, entre outras aberrações, o vencedor no voto popular pode não ser o vencedor no pleito presidencial – pode auxiliar as preces do neandertal ocupante do Palácio do Planalto. O Estado da Pensilvânia, que abriga um enorme contingente de trabalhadores industriais que foram penalizados pelo desemprego e a pandemia, é uma incógnita e pode dizer muito sobre os resultados em outros swing states. A catástrofe econômica causada pelos efeitos da pandemia, engrandecidos pela precariedade do sistema de saúde nos Estados Unidos, e a alta do desemprego de 3.5% para mais de 10%, removeu boa parte dos votantes operários que Trump havia conquistado em 2016 no antigo Rust Belt (cinturão industrial que compreende a Pensilvânia, Michigan, Ohio, Wisconsin, Minnesota e Iowa), tradicionalmente Democrata. Mas Biden lidera por apenas 4.7% na Pensilvânia, uma diferença que pode ser coberta por Trump. A Pensilvânia expressa os humores desse setor da classe operária branca que se estende pelo meio-Oeste norteamericano. A posição de Biden estaria mais segura se as projeções da Pensilvânia fossem semelhantes às de Wisconsin e Michigan, ou se, perdendo esse Estado, o Democrata tivesse assegurado a Flórida, por exemplo, que confere um grande número de votos no Colégio Eleitoral. Nenhuma das duas coisas é verdadeira. Há uma disputa acirrada na Flórida, e a margem diferencial entre a Pensilvânia e os demais Estados do Rust Belt aumentou nos últimos dias. A Carolina do Norte, o Arizona e a Georgia ainda não parecem suprir a eventual perda da Pensilvânia, que expressaria mudança nos humores dos demais Estados, como mostra a previsão abaixo.

Assim, uma votação de menor vulto que o esperado entre os brancos sem diploma universitário, assim como da comunidade negra, do Rust Belt – ou uma aposta maior da classe operária branca na falácia de recuperação econômica orquestrada por Trump – poderia trazer as margens de Biden para territórios perigosos. Não podemos descartar o eventual acionamento das bandas armadas de extrema direita, como os Proud Boys, que ganharam a chancela de Trump para "vigiar as urnas" e intimidar os votantes, não apenas nesse 3 de novembro mas também nas semanas prévias. Isso significaria boas notícias para Bolsonaro, já acostumado a ajoelhar no altar de Trump.

Nate Silver, em seu artigo "Estou aqui para lhes recordar que Trump ainda pode vencer", enumera algumas razões para um eventual triunfo do Republicano. Em primeiro lugar, Trump pode novamente se beneficiar do Colégio Eleitoral, mesmo perdendo no voto popular. O alinhamento dos swing states corretos, como os cinco que mencionei acima (Pensilvânia, Florida, Geórgia, Carolina do Norte e Arizona) pode conferir a vitória. Outra razão é a indecisão da Pensilvânia, que citei acima. Sem esse Estado, há certos caminhos para a vitória de Biden, mas nenhum deles é seguro. As manobras de Trump, como o anúncio de uma vitória antecipada e todas as medidas possíveis para lançar à Suprema Corte a decisão final do pleito, também entram no rol dos trunfos do Republicano.

Há muita indefinição até a real contagem, por isso se trata de estabelecer parâmetros condicionais para ter uma visão sóbria sobre as consequências políticas de cada desenlace.

Um Bolsonaro isolado e mais engolfado pelo Centrão?

O exercício acima é um verdadeiro mapeamento do imponderável. Nada está dado e os números não podem garantir um desenlace inevitável. Impossível cravar resultados numa eleição tão polarizada, e com os inúmeros fatores que envolvem o pleito: a pandemia do coronavírus e o negacionismo de Trump, a retração da economia norte-americana e mundial, e o reaparecimento da luta de classes — com as enormes mobilizações contra o racismo e a brutalidade policial, a maior da história dos EUA.

O que se pode dizer é que uma derrota de Trump significaria um isolamento inaudito para Bolsonaro desde sua ascensão em 2019, e o mais duro golpe até aqui ao governo Bolsonaro. Seria um curto circuito no andamento da corrente de extrema direita a nível internacional, que ainda vê um de seus bastiões, a Polônia, ser desafiada pela mobilizações de dezenas de milhares de mulheres em defesa do direito ao aborto. Um revés de magnitude que tornaria o ofício da política mais complexo para a extrema direita brasileira empoleirada no Planalto, e que já não vem conseguindo emplacar seus candidatos nas capitais em meio às eleições municipais brasileiras: em apenas 3 das 26 cidades, candidatos a prefeito alinhados ao presidente Jair Bolsonaro aparecem à frente.

Ademais, é plausível que Bolsonaro, que após sua ruptura com a pró-imperialista Lava Jato, do qual foi o fruto realmente existente, aproximou-se do Centrão, seja ainda mais engolfado por este. Com um debilitamento maior da corrente de extrema direita a nível internacional, Bolsonaro teria forçosamente de aparecer mais ligado ao fisiologismo do regime político golpista, e nesse caso do Centrão, dentro de cujos baixos escalões era oriundo. O atual líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, do PP, é uma das "sumidades" do Centrão que disse aberta e impunemente que a aproximação de Bolsonaro era o movimento lógico se este quisesse governar. As dificuldades de 2021, com o agravamento da crise econômica - que prevê queda no PIB brasileiro de pelo menos 4.4% este ano - e o fim do auxílio emergencial que colocaria, segundo a FGV, um terço da população de volta na linha de pobreza, acalentando cenários de luta de classes: tudo isso, num mundo sem Trump e com parcos ganhos nas eleições municipais, poderia deixar Bolsonaro ainda mais atado às vontades de um Centrão faminto que vai exigir sua paga com juros.

Caso Trump vença, a injeção moral na extrema direita internacional também terá grande influência sobre os destinos de Bolsonaro, e o favorecerá politicamente no próximo período.

Naturalmente, essas são hipóteses que não descartam outros desenlaces. Movimentos bruscos na situação mundial podem exigir saídas desesperadas de um governo de extrema direita que não veja nenhuma ponte de ouro para retirar-se. Uma eventual derrota de Trump não implica o desaparecimento de Bolsonaro, muito menos do bolsonarismo, que tratará de dar suas batalhas defensivas. Bolsonaro não está - nunca esteve - alheio a aventuras, e pode recorrer a elas em casos extremos.

Mas o fará sem seu tutor e estrela guia, no caso de que Trump perca a poltrona na Casa Branca. Em outras palavras, independentemente de suas ações, Bolsonaro estaria mais vulnerável no plano interno. Isso, numa etapa de giros bruscos na relação de forças em toda a América Latina, que com fluxos e refluxos desde 2019 vive um retorno das graves oscilações políticas e da luta de classes.

Demais está dizer que Trump é um produto asqueroso da crise orgânica a nível mundial, que se alimenta dos efeitos não resolvidos da Grande Recessão de 2008 e da crise capitalista; sua política racista e xenófoba precisa ser derrotada com a força da luta de classes. Biden não é nenhuma alternativa para "derrotar Trump". Representa a posta do establishment bipartidário imperialista para relegitimar as instituições norte-americanas. Biden tem um longo currículo de políticas segregacionistas no Senado desde a década de 1970, e é autor da Crime Bill de 1994, que incrementou a polícia de encarceramento em massa dos negros desde a administração Clinton. Foi parte direta das intervenções imperialistas de Barack Obama no Oriente Médio, sendo o vice do presidente apelidado de “senhor dos drones”, responsável por guerras e intervenções no Iraque, na Síria, na Líbia, no Iêmen, no Afeganistão, lembrado também na América Latina pela legalização dos golpes em Honduras e no Paraguai. Na posição de vice, traz consigo Kamala Harris, atual senadora pela California, e que nesse Estado é reconhecida pela “mão dura” junto à polícia e por aumentar exponencialmente a perseguição e encarceramento dos negros. “Progressistas”, not so much. Pior para organizações como o MES/PSOL, que se comprometem com o partido imperialista mais antigo do mundo, chamando voto em Biden.

Enfrentar a extrema direita trumpista exige delimitar-se do Partido Democrata, e batalhar por uma política de independência de classe que prepare os combates futuros, quer sob uma administração Republicana, quer Democrata. Essa preparação consciente abre a possibilidade de que uma nova organização socialista revolucionária possa surgir nos Estados Unidos, construída a partir da vanguarda anti-racista, da vanguarda dos trabalhadores que enfrentaram diretamente a pandemia, e de novos setores se radicalizando no calor da crise. Essa é a aposta do Left Voice, organização irmã dos MRT nos Estados Unidos. Se houver luta de classes na forma de resistência aos planos de austeridade ou um novo despertar do movimento anti-racista, os socialistas revolucionários terão a possibilidade de enraizar um programa revolucionário e propor uma alternativa política independente que galvanize as forças dos trabalhadores, aliados aos negros, aos latinos, às mulheres e à juventude.

Quanto ao Brasil, nosso combate deve ser preparado, e organizado com uma política independente, desde já, não apenas contra Bolsonaro e Mourão, mas contra todo o regime político golpista, do STF, dos governadores e do Congresso.

Siga André Barbieri no Twitter




Tópicos relacionados

Eleições Estados Unidos 2020   /    Fora Bolsonaro, Mourão e os militares   /    Joe Biden   /    Governo Bolsonaro   /    Jair Bolsonaro   /    Donald Trump   /    Estados Unidos

Comentários

Comentar