Política

PRONUNCIAMENTO

Bolsonaro mente, não há vacinas nem para seu negacionismo nem para cumplicidade do regime

quarta-feira 24 de março| Edição do dia

Foto: Carolina Antunes/PR

Em meio a mais um dia de recorde de mortes pela covid no país, Bolsonaro resolveu fazer um pronunciamento em rede nacional, o primeiro do ano. Enquanto o caos sanitário se aprofunda no país, com o colapso do sistema de saúde em diversos estados, incluindo falta de oxigênio e até falta de “kits intubação”, Bolsonaro deu sequência a sua tentativa capenga de reverter sua imagem negacionista, tendo a pachorra de vir em cadeia nacional retratar seu governo como um defensor desde o início da vacinação, alegando que sempre esteve empenhado arduamente no combate a covid.

A desfaçatez absurda com que Bolsonaro busca se relocalizar, é parte de um movimento mais geral de todo o regime também tentando mostrar serviço, tomando campanha pela vacinação. Um movimento que teve início desde a semana passada, com a pressão do centrão pela troca do ministro da saúde, general Eduardo Pazuello, tão subalterno a linha anti-vacina de Bolsonaro, tantas vezes responsável por fiascos e atrasos na campanha de vacinação, que era impossível dar uma guinada sem sua troca.

Ao que se seguiu a carta reunindo 500 assinaturas de banqueiros e empresários exigindo medidas do governo federal pela imunização, apelando até para um consórcio de governadores, em caso da recusa do ministério da saúde, e foi o ápice dessas movimentações de relocalização dos atores do regime. Lira e Pacheco, presidentes da Câmara e do Senado, prontamente se movimentaram no mesmo sentido, se reunindo com os empresários e banqueiros no mesmo dia de hoje (23/03) para se mostrarem ativos em torno da campanha. Até o ministro da Defesa, Azevedo e Silva, colega de farda de Pazuello e cúmplice da sua assassina gestão, mudou a posição oficial do Exército em coluna para o Estadão.

Com quase um ano de atraso, depois de tantos fracassos em torno da vacinação, desde a falta de seringas a falta de insumos, os setores do regime que antes assistiam ao negacionismo do presidente decidiram mudar de linha e se relocalizar, lhe fazendo pressão.

Concomitante a essas movimentações esteve o reabilitamento de Lula, seu discurso como pré candidato, acenando “sem mágoas” para todos os atores do regime, centrão, empresários, governadores, mas cobrando fortemente as vacinas como um dos seus eixos, até mesmo de Joe Biden e das nações imperialistas dias depois. Não é mera coincidência que o primeiro pronunciamento do ano de Bolsonaro ocorra justamente no dia em que se confirmou a parcialidade de Moro, e a vitória de Lula sobre a Lava Jato. Bolsonaro não quer ceder palco para Lula, muito menos o eixo das vacinas, como ele disse quer fazer da vacina a sua arma.

Entretanto, do discurso para a realidade vai um abismo. No pronunciamento Bolsonaro falou que já foram adquiridas 500 milhões de doses, enquanto isso ainda hoje mais uma vez o ministério da saúde reduziu o cronograma de entregas para o próximo mês em 10 milhões de doses, que passou de 57,1 milhões para 47,3 milhões. A verdade é que não há vacinas suficientes para atender a demanda das nações imperialistas, que buscam garantir em primeiro lugar a imunização de suas populações, junto a sede de lucros das indústrias farmacêuticas, que sob contratos sigilosos estão garantindo bilhões para seus bolsos.

Que Bolsonaro mente e que não engana a quase ninguém com seu discurso de que o ano de 2021 será o ano da vacinação da população brasileira é um fato. Comprovado pelos fortes panelaços escutados nas capitais durante o pronunciamento, que repudiam veemente sua gestão catastrófica durante a crise sanitária. Mas, tampouco, se deve confiar na carta de “boas intenções” de empresários e banqueiros, de deputados e senadores, de juízes e generais, todos atores que estiveram até o momento de braços cruzados em relação à imunização da população, se beneficiando das reaberturas para manter seus lucros, ou seu capital político, enquanto eram os trabalhadores que morriam nos transportes lotados.

Contra a demagogia desses setores, é imprescindível batalhar pela vacinação de toda a população, colocando as indústrias farmacêuticas sob controle estatal, e quebrando suas patentes para torná-las o quanto antes acessível a todos. Sem um programa assim que ataque o lucro das grandes farmacêuticas seguiremos reféns do cinismo de Bolsonaro e da demagogia da carta de boas intenções desses setores.




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