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Bolsonaro e a Copa América: uma afronta aos colombianos e desprezo pelos mortos

Após a recusa de dois países, respectivamente Colômbia e Argentina, a Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) anunciou na manhã de ontem que o Brasil será a sede do torneio que está previsto para começar dia 13 de junho. Enxergando uma oportunidade para se alavancar politicamente, Bolsonaro não tardou em aceitar o convite que parece uma comemoração macabra aos mais de 460 mil mortos pela Covid-19 no país.

João Salles

Estudante de História da Universidade de São Paulo - USP

terça-feira 1º de junho| Edição do dia

Foto: Marcos Corrêa/PR

O anúncio gerou repercussão nas redes sociais, principalmente pelo fato de que seria impensável um dos países que apresenta maior índice de contaminação e morte pela pandemia da Covid-19 com surgimento de novas cepas ser a sede de um torneio internacional deste esporte. Isso é agravado ainda pelo lento ritmo de vacinação da população que se aglomera nos transportes públicos e locais de trabalho insalubres correndo risco de contaminação e com a chantagem da fome que já atinge milhões de brasileiros.

O fato da Colômbia, país pensado inicialmente para sediar o torneio, ter recusado devido as massivas manifestações de rua contra o governo direitista de Iván Duque foi um duro golpe aos capitalistas do esporte e a lógica de querer impor um retorno à normalidade enquanto os números da catástrofe sanitária seguem a subir em particular nos países dependentes e semi-coloniais da periferia do mundo. A Argentina que também vê cenários de instabilidade e sem uma garantia de que uma decisão dessas se reverta em capital político internacional e nacional, foi a segunda a recusar.

O cálculo parece ser relativamente simples: Financiar um evento dessa magnitude em meio a uma pandemia onde as prioridades de saúde, emprego e serviços públicos não é atendida, somado ao fato de que os trabalhadores não desfrutarão nem um mínimo dessa competição mantida apenas para o lucro dos empresários e patrocinadores. Tudo isso pode fazer com que estoure a panela de pressão que se gesta em todos os países, fruto da crise sanitária, econômica, política e social que a burguesia é incapaz de resolver e segue descarregando nas costas dos setores mais explorados e oprimidos da sociedade.

Mas Bolsonaro, longe de representar a tendência de amplos setores do empresariado (conter e desviar a revolta social para uma via institucional de “pacificação”), quase que como resposta aos expressivos atos contra o governo no último dia 29 e sua queda recorde popularidade, se junta mais uma vez a máfia da CBF para manter o lucro dos setores capitalistas ligados ao futebol.

Após o anúncio vimos movimentações dentro do próprio regime político brasileiro. Luiz Eduardo Ramos, Ministro da Casa Civil, disse que as partes envolvidas ainda estão em tratativas, que ainda não há acordo firmado e que a decisão se daria hoje. Claramente um discurso mais mediado em relação ao torneio, muito provavelmente por conta da repercussão negativa da decisão de sediar a Copa América em meio a pandemia e para evitar um desgaste político grande em recuar de uma medida desse porte, o que seria uma demonstração de fraqueza grande por parte do governo.

O senador golpista Randolfe Rodrigues (Rede - AP) e vice-presidente da CPI da Covid já declarou que vai convocar o presidente da CBF, Rogério Caboclo, para depoimento em sessão. Mas apesar da bravata oposicionista na câmara o que vemos é uma completa adaptação desses setores a essa lógica de normalização da pandemia e do lucro acima das vidas.

É só olharmos como se declararam os governadores dos Estados em relação a sediar jogos do torneio. Em SP, João Doria (PSDB - SP) já disse que aceita e não fará objeções caso se decida pelos jogos no Estado. Na Bahia, Rui Costa (PT - BA) disse que o Estado se recusará a sediar caso haja exigência de público, mas sinalizando que com o cumprimento de "normas seguras" não descarta a possibilidade. Essa é a cara da oposição institucional ao Bolsonaro: negociar nossas vidas pelo lucro dos patrões.

Veja também: Com internações em alta no RS, Melo quer trazer jogos da Copa América para Porto Alegre

Paulo Câmara, do PSB, agora está se colocando contra a realização do evento fazendo demagogia sobre se importar com a pandemia. É importante destacar que em seu Estado, que tem como vice governador o PCdoB, ocorreu uma repressão direta e violenta da polícia ao 29M, que resultou em duas pessoas que perderam o olho, vítimas das balas de borracha. Ainda que tente se defender afastando o comandante da tropa, há muitos fatos que mostram que o governo acompanhava de perto a ação policial.

Gilmar Mendes, uma figura proeminente do bonapartismo institucional, se disse preocupado com a ação violenta da polícia, uma vez que os protestos podem aumentar, temendo ações mais disruptivas do movimento de massas, como aquelas que foram o estopim para as jornadas de junho de 2013 e que geram calafrios nos capitalistas até hoje.

Precisamos responder a esse absurdo e potencializar a força expressa nas mobilizações do dia 29 para que esse seja só o estopim da luta organizada contra o governo negacionista e assassino de Bolsonaro e Mourão, mas também contra a cumplicidade no morticínio do STF, dos governadores e do conjunto do regime golpista. Não aceitamos que o dinheiro público seja utilizado para sediar eventos dos capitalistas em meio a uma pandemia com quase 500 mil mortos! Para isso, no entanto, é fundamental que essa força retorne para cada uma das estruturas, das escolas, universidades e de cada local de trabalho e estudo para que os rumos da mobilização sejam definidos em assembleias de base, com a mais ampla democracia e discussão política.

Os partidos políticos que hoje estão à frente da majoritária da UNE pelos estudantes (PT, PCdoB e Levante Popular da Juventude) e das centrais sindicais CUT (PT) e CTB (PCdoB) são as mesmas, mas buscam de toda forma separar a luta desses setores como vimos recentemente com o chamado de ato simbólico da CUT para o dia 26 ao invés de unificar no dia 29, enquanto Lula sequer comentou sobre os atos em apoio. Essa divisão de tarefas faz parte de sua lógica eleitoral de apostar no desgaste do governo, enquanto atua para controlar e canalizar os rumos da nossa mobilização para as eleições de 2022, enquanto o país atinge quase 500 mil mortes evitáveis e anuncia que sediará a Copa América!

Lutemos hoje pelo Fora Bolsonaro, Mourão e os militares, sem confiar nesses setores golpistas que também preferem nossas mortes a diminuir os lucros dos capitalistas. Contra qualquer ilusão na conciliação petista precisamos nos apoiar na força dos colombianos que com suas manifestações enfrentaram Duque e impediram a Copa América no país!

No desenrolar do dia 29 apostemos nas nossas forças, para impor através da nossa luta uma nova Constituinte Livre e Soberana que possa redefinir as prioridades do país, revogar as reformas e o teto de gastos e garantir verba pública para saúde e educação, rompendo com a fraude da dívida pública (o maior “bolsa banqueiro” do país) que drena nossos recursos para o capital financeiro internacional e abrindo caminho à luta de um governo de trabalhadores para romper com o capitalismo.

Veja nosso editorial: 5 pontos para potencializar a mobilização com a força do 29M




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