COLUNA

Bill Gates e a sanha predatória do capitalismo tapada com a... poeira

Como naqueles filmes e séries de ficção científica em que nos vendem o fim do mundo sendo salvo por algum "Sr. Wilford", como no "Expresso do Amanha", depois do próprio capitalismo devastar o meio ambiente, tornando a intensificação do aquecimento global inevitável e, posteriormente, ser “salvo” por algum empreendimento como o resfriamento da Terra por meio de bombas atômicas para que, tempos depois, o planeta congelasse a ponto de se tornar inabitável, Bill Gates (cofundador da Microsoft) agora nos surge, não como o primeiro, mas como mais um milionário, com um roteiro de ficção científica para “solucionar” os problemas causados pela sanha predatória de sua própria classe social. Um dos homens mais ricos do mundo, agora, decidiu querer jogar “poeira” no sol (sic!).

Douglas Silva

Estudante de Ciências Sociais da UFJF

sexta-feira 19 de fevereiro| Edição do dia

Gates virou um dos assuntos mais comentados no Twitter, semanas atrás, depois de divulgado como sendo um dos financiadores do projeto da Universidade de Harvard que busca jogar “poeira” no sol para dissipar a quantidade de luz solar que incide sobre nosso planeta e, assim, diminuir a temperatura terrestre. A saída do milionário da tecnologia representa – como diria minha avó – “tapar o sol com a peneira” (ou, nesse caso, com a poeira) para no fundo não admitir quem são os verdadeiros responsáveis pela destruição ambiental: a burguesia e seu sistema de produção e exploração capitalista.

Com viagens de jatinho ao redor do mundo, ganhando aproximadamente US$ 380 por segundo, de acordo com cálculos do Business Insider, Gates se diz preocupado com a situação do planeta, mas para sair dessa encruzilhada, não oferece saída que não seja um “trem do Sr. Wilford”, pois enquanto milhares de pessoas vivem na miséria e na exploração ao redor do mundo, o milionário mantém todas as condições de vida luxuosas da burguesia, inclusive podendo optar por qualquer dieta vegetariana de custo elevado.

Em outra série carregada de distopia e teorias da conspiração que mais parecem um universo de trumpismo e bolsonarismo, a Amazon Prime apresentou – Utopia – outra daquelas semelhanças entre o universo distópico e a realidade. Pois foi nessa série, de uma temporada, que o milionário da indústria farmacêutica Kevin Christie vende a ideia de carne sintética – defendida por Bill Gates em entrevista sobre seu novo livro “Como evitar um desastre climático” – e esbanja a mesma filantropia das classes burguesas que buscam tapar o sol com a peneira para não revelar o verdadeiro responsável pelos problemas ambientais, pela fome e miséria que assola milhares de pessoas ao redor do mundo, sobretudo nos países mais pobres em que, inclusive, acabam servindo de grandes reservatórios humanos de mão de obra barata com péssimas condições de trabalho para sustentar grandes indústrias e seus capitalistas.

A solução para a questão ambiental, assim como para toda “questão social” como Engels denunciava em seu livro A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, passa longe da velharia filantrópica com a qual se busca não apenas dissipar os raios solares, mas também qualquer vestígio da responsabilidade burguesa sobre a destruição do meio ambiente, bem como das condições de vida do conjunto da classe trabalhadora. Portanto, a solução da crise ambiental não pode passar pelos roteiros de ficção científica idealizados por “mentes generosas” que sobrevoam de jatinhos os países pobres enquanto palestram sobre “carne sintética, feita em laboratório”.

Como diria o companheiro revolucionário de Marx, naquele mesmo livro citado acima, “bela filantropia a dessa classe que, para ajudar ao proletariado, começa por explorá-lo até a última gota de sangue para, em seguida, lançar sobre ele sua complacente e farisaica beneficência e [...] apresentar-se ao mundo com a aparência de campeã da caridade!” Gates é uma dessas figuras que, depois de envelhecer lucrando, inclusive, com uma série de denúncias sobre a exploração de mão de obra infantil na África pela Microsoft (incluindo outros gigantes das tecnologias, como Google, Apple, Tesla e Dell), busca se vender ao mundo como um filantropo preocupado com a vida em nosso planeta devastado pela ganância não da humanidade, em geral, como aparece em seus discursos, mas por um punhado de burgueses ao redor do mundo.

Todavia, diferentemente de grupos extremistas e fanáticos por teorias da conspiração, como os apoiadores de Donald Trump da QAnon, não acreditamos nem que o ex-presidente de extrema direita travava uma guerra secreta contra pedófilos adoradores de Satanás nem que Bill Gates tenha inventado o vírus responsável pela atual pandemia. O que acreditamos é que, sim, Gates a seu modo e Trump, como uma figura mais caricata e negacionista do próprio aquecimento global, se encontram em um lugar comum: fazem parte da mesma classe social que nos arrastou para tal crise e buscam – cada um a sua maneira – se livrarem da responsabilidade dos desastres, e não querem que a solução seja um magnífico velório do capitalismo e de sua classe social. Ou seja, como nas séries e filmes de ficção científica em que nos vendem uma saída megalomaníaca como mais provável do que uma que seja construída pela superação do capitalismo aqui e agora, a burguesia, que pelo Estado vende seus interesses como sendo os interesses de toda a sociedade, agora vende a destruição ambiental como sendo responsabilidade de toda a humanidade e não de sua própria classe social. São eles que devem virar poeira!




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