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LESTE EUROPEU

Bielorrússia: As greves ganham terreno

Um movimento de grande amplitude atravessa a Bielorrússia contra a reeleição fraudulenta de Alexandre Loukachenko, no poder desde 1994. Desde 13 de agosto, o movimento operário se juntou aos protestos por meio de greves, piquetes e manifestações.

quarta-feira 19 de agosto| Edição do dia

Por Cléo Rivierre

No dia 9 agosto, o presidente bielorrusso Alexandre Loukachenko foi reeleito pela sexta vez seguida desde 1994. As manifestações não pararam: uma grande parte da população questiona o resultado, que deu ao vencedor 80% dos votos. Os manifestantes exigem uma recontagem dos votos e novas eleições. Muitos expressam seu apoio à opositora Svetlana Tikhanovskaïa, uma candidata populista atualmente refugiada na Lituânia. Todo movimento contra Loukachenko é duramente reprimido, como mostram muitos relatos.

O movimento não se limita a um apoio à oposição. Durante vários dias, o movimento de trabalhadores se juntou aos protestos por meio de greves, piquetes e manifestações. Os chamados de greve contra o regime são diversos, ainda que o direito de greve seja muito limitado na Bielorrússia e que a resistência trabalhadora seja duramente reprimida. De acordo com um artigo do blog sobre as lutas no setor automotivo "NPA Auto Critique", sob o título "Bielorrússia: as principais indústrias de montagem automotiva estão em greve", "os chamados de greve geral se multiplicam, especialmente por iniciativa da usina BelAz (máquinas de mineração e transporte de mercadorias), que no meio da semana contagiaram Grodnozhilstroy (BTP), MAZ (automobilístico), MTZ (tratores), Keramin (cerâmica), Belcard (componentes automotivos), Integral (eletrônicos), BelZhD (ferrovias)".

Além disso, "Uma greve total foi programa para segunda dia 17 de agosto na Fábrica BelAz se quatro reivindicações não fossem atendidas: a deposição do Presidente e do seu governo, a liberação de prisioneiros políticos e organização de novas eleições políticas. O simbolismo é muito forte. BelAz é uma das maiores industrias do país. Um dos lugares onde sempre as pessoas votavam por Loukachenko" escreveu o jornal Le Monde.

De acordo com o blog Mediapart de Jean-Marc B, ”Os mineiros da Bielorrússia se reuniram em 17 de agosto e declararam que a formação de comitês de greves já tinha começado". Um dos poucos sindicatos independentes do país, o Congresso Bielorrusso de sindicatos democráticos (BKDP) convocou à “imediata criação de comitês de greve nas empresas", bem como a “criação de um comitê nacional de greve".

Conforme o Liberation, “Na noite de segunda-feira, cerca de 30 fábricas estavam em greve realizando assembleias gerais. Até mesmo os trabalhadores da BelAZ saíram para rua com suas máquinas de mineração, e os da imensa fábrica de tratores MTZ”, que é “uma das maiores do país" com 30.000 empregados.

O jornal continua “Alexandre Loukachenko não pode mais contar com a televisão estatal para apresentar uma imagem favorável. Os dois principais grupos públicos também entraram em greve. Os jornalistas da Belteleradio não estão mais na plateia, mas a câmera e a música continuam a girar. A ONT, cuja sede fica perto da praça da Vitória de Minsk, saíram para um comício público no fim da manhã. Cerca de 30 trabalhadores estavam presentes, cinegrafistas, jornalistas, mas nenhuma pessoa do serviço politico veio. ’Eles não estão apoiando a greve, não sei se por medo ou por lealdade a Loukachenko’, comentou Kátia, 22 anos, jornalista esportiva em greve. Mesmo nos esportes estamos submissos e não podemos cobrir os assuntos que queremos! Os atletas foram presos e agredidos durante as manifestações, não nos foi permitido mencionar isso".

Na segunda feira, dia 17 de agosto, o presidente bielorrusso visitou os trabalhadores do MZKT, uma fábrica de indústria pesada. Diante de uma multidão hostil, ele pareceu inflexível, declarando: “Se vocês me provocarem, vou lidar cruelmente com a situação”. Mas segundo o Courrier International, que contém informações do diário Russo Vedomosti, o presidente acabou cedendo sob a pressão das greves e manifestações, anunciando “que novas eleições podem acontecer”. No entanto, essa possibilidade está condicionada à “adoção de uma nova Constituição adotada por referendo”.

Como escrevemos no último detalhado artigo sobre a situação da Bielorrússia, as dinâmicas de contestação e de greve na Bielorrússia não são sem contradições. As organizações sindicais são, em grande parte, subordinadas a interesses de autoridades políticas, o que se reflete nas suas reivindicações. Mas ainda que existam esses limites subjetivos e organizacionais, a participação de setores importantes da classe trabalhadora em contestação ao regime de Loukachenko parece dar medo nos líderes da oposição, que pedem aos participantes moderação, coisa que também fazem ao presidente. É uma demonstração da força do movimento dos trabalhadores, atualizando a necessidade de a classe operária, arrastando consigo as demais camadas oprimidas e exploradas da sociedade, se organizar independentemente do Estado e das classes dominantes, a fim de desafiar não só o regime reacionário de Loukachenko, como todo o sistema de exploração capitalista.

Nesse sentido, as mobilizações nas fábricas são muito encorajadoras pois poderiam dar formas de auto-organização operária que dariam mais poder ao movimento. A mobilização dos trabalhadores, ao mesmo tempo que se desenvolve, também pode se tornar um ponto de apoio na luta pela imposição de uma assembleia constituinte verdadeiramente livre e soberana, para discutir e decidir questões democráticas estruturais, mas também reivindicações econômicas dos explorados e oprimidos na sociedade. Na Bielorrússia como em todo o mundo, os trabalhadores precisam construir um partido operário e revolucionário para lutar contra o capitalismo e por uma nova sociedade livre de exploração e opressão, por uma sociedade socialista que nada tem a ver com a aberração stalinista que gerações bielorrussas inteiras experimentaram na União Soviética. É por todas essas razões que o despertar da classe operária é tão importante.




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