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Bertolt Brecht: resenha, legado e polêmica

Sofía Scala

José Arlecchino

Bertolt Brecht: resenha, legado e polêmica

Sofía Scala

José Arlecchino

Recordamos aqui o célebre dramaturgo e poeta alemão, pai do teatro épico, no mês em que se completam 65 anos de sua morte.

Sem dúvida nenhuma Brecht foi um dos dramaturgos e poetas mais influentes do século XX. Viveu até os 26 anos em Augsburgo, sua cidade natal. E ali mesmo, em sua adolescência, quase foi expulso de seu colégio por polemizar, nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, com a famosa frase: “Doce e honorável é morrer pela pátria”, afirmando que era uma “propaganda dirigida” em que só os “tontos” caíam. Anos depois, se viu obrigado a interromper seus estudos de medicina ao ser chamado para participar desta disputa como soldado sanitário.

Sua primeira obra teatral escrita “Baal” foi finalizada quando ele tinha 20 anos. Sua vida girou em torno do teatro e da literatura ao erradicar-se em Berlim, começando aí a trabalhar como dramaturgo em 1924. Desta forma, começou seu êxito com a obra “Tambores na noite”. Seu primeiro matrimônio com Marianne Zoff (atriz e cantora de ópera), o induziu a adaptar a “Ópera do mendigo” (escrita originalmente por John Gay) com a música de Kurt Weill, escrevendo a mais flamante de suas obras, “A ópera dos três vinténs”.

Brecht exilado

Mais além da teoria, os encontros frequentes com artistas socialistas e a grande influência da revolução russa em muitos jovens daquele momento, levaram Brecht a se reivindicar marxista. Desde o começo, suas obras possuem, em seu conteúdo, uma crítica ao sistema capitalista. Em 1933, ano em que Hitler é nomeado chanceler e começa uma onda persecutória contra os comunistas, Brecht foge para a Dinamarca e posteriormente para os países nórdicos.

Em seus 15 anos de exílio escreveu: “A vida de Galileu”, “Mãe coragem e seus filhos”, entre outras; obras em que questiona a autoridade religiosa e as causas e consequências dos conflitos bélicos. Já morando na Califórnia, escreveu uma de suas obras mais maduras: “O círculo de giz caucasiano”.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, e vivendo nos Estados Unidos, Brecht é interrogado pelo Comitê de Atividades Antiamericanas no dia 30 de outubro de 1947. Nunca pertenceu a nenhum partido, apesar de ter sido influenciado pela linha oficial do KPD (Partido comunista alemão). De qualquer forma, no dia seguinte foi para a Europa. No dia 14 de agosto, faleceu em Berlim por conta de uma parada cardíaca.

Brecht contraditório e inovador

Na época em que Brecht se desenvolve como dramaturgo, dentro do campo da arte, do campo intelectual e também político, aconteciam debates candentes sobre estética, e qual o papel que a arte e os artistas deveriam cumprir. Isso ocorria, porque no mundo inteiro com o processo revolucionário aberto pelo Outubro Russo, se colocava em jogo nada mais, nada menos, do que o triunfo das revoluções operárias ou a contrarrevolução reacionária e conservadora. Como bom patriota de sua época, Bertolt não ficou de fora desses debates.

Não só se dedicou a escrever obras, mas também teorizou e levou para a prática uma nova dramaturgia. Seu teatro hoje é conhecido como Teatro Épico, que se diferencia do naturalismo de Stanislavsky e a teoria aristotélica sobre o teatro. A técnica principal para isso foi o “distanciamento” que tinha como objetivo a participação ativa do público. Ou seja, o que mais importava para Brecht não era a empatia que o público pudesse ter com uma personagem, mas o que buscava evidenciar a construção da ficção e, portanto, que o público tomasse uma posição sobre o que estava vendo. Isso não significa que menosprezou a beleza estética da arte, pelo contrário: foi capaz de gerar uma própria estética em que os cantos líricos, por exemplo, foram distintivos.

Brecht tem o mérito de revolucionar a forma de pensar o teatro de sua época, mas isso não condiz consequentemente com sua visão ao regime stalinista, inclusive chegando a receber em Moscou o prêmio Stalin da Paz, no ano de 1955. Já a essa altura, o PC dirigido por Stalin até sua morte, em 1953, tinha traído todas as revoluções que se inspiravam no exemplo russo. Tinha também perseguido e assassinado toda a oposição política em seu país, como também muitas vezes no estrangeiro, como é o caso de Trotski no México. No campo da arte tinha quase a mesma política autoritária, repressora e restrita que o nazismo.

Em 1932 o Estado soviético declara o realismo socialista como cultura oficial. Essa prática restringia e perseguia qualquer tipo de arte que não reivindicasse o regime burocratizado da URSS.

Em um mundo polarizado pelo ascenso do nazismo e pela consolidação de uma burocracia no único Estado operário que existia, a única opção era optar por algum dos dois? Breton, exponente do movimento surrealista e León Trotski, dirigente da Oposição de Esquerda, do PC e fundador da Quarta Internacional, escreveram o Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente em 1938, e conseguem colocar e traçar tarefas para realizar um caminho independente e emancipatório para a arte.

Os artistas deviam combater inquebrantavelmente qualquer subordinação estatal ou partidária em suas produções, como pretendia o nazismo e o stalinismo, mas ser plenamente conscientes de que para conquistar esse “sonho” era necessária a independência da arte pela via da revolução e a revolução pela total liberação da arte.

Bertolt Brecht nunca adquiriu esse Manifesto. Até sua morte manteve um teatro com sua esposa em Berlim Oriental. Suas inovações teatrais seguem sendo fonte de debate entre catedráticos da arte. E também fonte de inspiração para as novas gerações que não pensam a arte como mera mercadoria para ser vendida. Para todos eles é fundamental conhecer o legado deste dramaturgo, estudá-lo e avaliá-lo a luz dos acontecimentos históricos.

Esta nota foi publicada originalmente em agosto de 2020.
Traduzido por Lara Zaramella

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