Opinião

AGRONEGÓCIO

Barões do agronegócio chamam ato por Bolsonaro e suas ameaças golpistas

Nesse próximo sábado, 15 de maio, acontecerão novos atos de apoio ao presidente Jair Bolsonaro, contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo fim das medidas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos, dessa vez com apoio de setores radicalizados do agronegócio. Com a defesa o voto impresso, se comprometem com as ameaças de Bolsonaro de contestar uma eventual derrota eleitoral dele em 2022.

Ítalo Dias

Sociólogo

quarta-feira 12 de maio| Edição do dia

“No dia 15, pessoal, está todo mundo convocado. Eu vou lá para o meio da rua com o pessoal do campo. O pessoal do agronegócio está tomando Brasília, e vou estar lá no meio deles”. Foi o que disse Bolsonaro em um passeio de moto em Brasília no último domingo.

O que poderia ser mais um dia de ações do pequeno grupo proto-fascista que apoia o governo, passou a receber adesão de um setor do agronegócio. Os organizadores falam de mais de 100 entidades patronais rurais convocando para o ato em Brasília, mas também em outras cidades. Os principais articuladores são o Movimento Brasil Verde e Amarelo, criado em 2019 e coordenado pela Associação Nacional de Defesa dos Agricultores, Pecuaristas e Produtores da Terra (Andaterra). Além destes, a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), a Associação dos Cafeicultores do Brasil (Sincal) e federações ligadas à Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), grandes entidades patronais do campo, também assinam a convocação dos atos.

A grande burguesia do agronegócio constitui um importante setor burguês de sustentação do governo Bolsonaro. Essa semana o escândalo do “tratoraço”, a compra de parlamentares do Centrão através de tratores superfaturados para fazer obra nas estradas, deixou bastante explícita a relação entre Bolsonaro, o agronegócio e as oligarquias regionais. São um setor chave na economia brasileira hoje, que depende cada vez mais da venda de commoditties como soja, carne e ferro, no mercado internacional, em especial para China.

E é a primeira vez que essa velha burguesia latifundiária é parte da convocação de uma manifestação em defesa do governo, e que se enfrenta com as medidas de isolamento dos governadores e com o STF. Além disso, tem como principal eixo a defesa da aprovação do voto impresso, proposta que Bolsonaro voltou a repetir nas suas entrevistas, falando que ou o Congresso aprova ou “não terá eleições em 2022”. Para aprovar essa lei, Bolsonaro precisa do voto de 3/5 da Câmara e do Senado, o que por hora não está colocado.

Esse discurso remete ao de Donald Trump nos Estados Unidos que, frente à derrota para Joe Biden nas eleições do ano passado, apoiou a invasão de uma trupe de vikings de extrema-direita do Capitólio, buscando alterar o resultado da eleição, mas que foi um vergonhoso fiasco. Não é novidade que os bolsonaristas fazem chantagem com esse episódio, que expressou a decadência da democracia imperialista dos EUA, ameaçando fazer no Brasil um “Capitólio Tupiniquim”. Contudo, é a primeira vez que um setor radicalizado de latifundiário passou a se colocar abertamente disposto a apoiar as chantagens golpistas de Bolsonaro, no caso, o questionamento do resultado de uma eleição.

Trata-se de uma medida de forças dessa política. Até agora não está claro a força que terá esse ato em Brasília. Antonio Galvan, presidente da Aprosoja e uma das principais figuras que estão convocando o ato, supostamente teria mandado um áudio em um grupo de bolsonaristas do Mato Grosso lamentando que os voluntários para ir a Brasília “não enchem um ônibus”. A bancada ruralista do Congresso também declarou que não está convocando tais atos. São expressões de que não é homogêneo o comprometimento do agronegócio com a política agressiva de Bolsonaro nesse momento, pelo contrário, trata-se de um setor radicalizado da burguesia que quer medir forças com as instituições do regime do golpe institucional.

Em entrevista à Gazeta do Povo, o coronel Koury que faz parte de um grupo de militares apoiadores de Bolsonaro, o B-38, declarou: “O povo quer uma solução imediata, quer fuzil, quer pólvora, quer tanque. A sociedade está pedindo intervenção militar, o que não é uma boa medida”, mas que acredita que um golpe ou uma revolta popular podem acontecer se não houver voto impresso e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou um de seus “hologramas” for declarado vencedor em 2022. “Aí vai ficar ao nível de 1964. Se forças poderosas que atuaram antes vão atuar novamente não sabemos”, afirma o coronel.

A declaração é expressiva de que não pretendem passar das palavras aos atos, mas que esses atos são uma resposta à tentativa de desgaste eleitoral de Bolsonaro via CPI da COVID e o fortalecimento da candidatura de Lula, que foi à Brasília essa semana organizar um encontro com políticos do Centrão.

Desde que ela foi instalada a CPI da COVID, Bolsonaro vem escalando a sua retórica negacionista e ameaça impor um decreto contra as medidas de isolamento nos governos estaduais, o que desafiaria determinações do próprio STF. “Esse decreto, o Supremo não pode contestar. O Supremo é defensor da Constituição. Se eu baixar o decreto, será cumprido. Todos os ministros vão cumprir”, afirmou o presidente, na semana passada.

A revista Crusoé divulgou que a Abin teria pedido aos seus agentes para investigarem possíveis desvios de verbas da saúde nos governos dos Estados. Um dos alvos é Renan Filho (MDB), governador de Alagoas, filho do relator da CPI. O senador bolsonarista Eduardo Girão (PODE-CE) convocou o secretário estadual de Pernambuco para depor à CPI. São tentativas dos bolsonaristas de obterem um contra-jogo na CPI, visando debilitar adversários.

Por outro lado, o objetivo desse ato tenta mostrar robustez da base de apoio de Bolsonaro frente os acenos de Lula ao Centrão. Segundo a revista Veja, na segunda-feira, 3, Bolsonaro telefonou para o presidente do PSD, Gilberto Kassab, e pediu que ele não fosse ao encontro que o ex-presidente organizou em Brasília. O PSD é exemplo das divisões que os partidos do Centrão enfrentam sobre quem irão apoiar em 2022. Nos estados do Nordeste, onde a popularidade de Lula e a rejeição de Bolsonaro são maiores, o PSD pensa que poderá eleger mais parlamentares estando com Lula. Já no Centro-Oeste e Norte, onde o bolsonarismo e o agronegócio tem peso, Bolsonaro é o candidato preferível. Por sua vez, em capitais onde governa, como Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a preocupação do PSD é de manter uma postura equidistante dos dois presidenciáveis.

É evidente que frente a essas chantagens golpistas de Bolsonaro e agora de uma parcela do agronegócio, não vai ser barrada pelas vias normais desse regime podre do golpe institucional. A CPI da COVID que não tem nada a ver com salvar vidas, mas apenas pressionar e desgastar Bolsonaro, é anunciada pelo PT como caminho para o impeachment de Bolsonaro. Um impeachment que demoraria meses para se efetivar e não mudaria nada no cenário de mortes da pandemia, da crise econômica, pois colocaria Mourão na presidência, o mesmo que tem mil e um laços com o próprio agronegócio, e declarou junto com Bolsonaro apoio à chacina que ocorreu na última semana em Jacarezinho. Na verdade, o PT se apoia na CPI da COVID e no Impeachment, que seriam encabeçadas por esse Centrão fisiológico e golpista, pra eleger Lula como “salvador da pátria em 2022”.

Essa estratégia de desgaste pelas vias institucionais da República do Golpe, como o Centrão e o STF, é tão ineficaz que a aprovação de Bolsonaro cresceu de 35% para 40%. Lula busca governar novamente para o agronegócio que tanto se fortaleceu no seu governo, mas também com os militares, golpistas do STF, e já está negociando novamente com o Centrão. Não só está propondo não tocar nas reformas aprovadas por Temer e Bolsonaro, nem falar na propriedade sagrada desses poderosos herdeiros da escravidão e do latifúndio, como promete privatizar a Caixa, seguindo com os ataques.

A extrema-direita está disposta a fazer com que não tenha eleições em 2022 e os trabalhadores não podem esperar tanto tempo para impedir que aumentem as mortes, o desemprego e a fome. É necessário unificar as lutas como a do Metrô de São Paulo, os atos contra a chacina de Jacarezinho, em uma perspectiva de impor o Fora Bolsonaro e Mourão, junto com todo o regime do golpe institucional, se enfrentando com os interesses do agronegócio. Somente uma Assembleia Constituinte, Livre e Soberana, imposta pela luta, poderia colocar em discussão a revogação da LSN e sua nova versão aprovada no Congresso, e cada herança da ditadura, assim como a necessidade de impor uma reforma agrária radical, através da nacionalização e divisão das terras, uma medida não só para barrar o agronegócio, mas erradicar a fome no país que alimenta 10% da população mundial.




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