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Bancada Revolucionária: “Nossa candidatura não é para fazer promessas vazias, mas para lutar”

O Esquerda Diário entrevistou a Bancada Revolucionária de Trabalhadores, candidatura coletiva do MRT que concorre às eleições para vereador em São Paulo, com Diana Assunção, Letícia Parks e Marcello Pablito, conversando sobre os principais pontos de seu programa e da campanha.

quarta-feira 11 de novembro| Edição do dia

A Bancada Revolucionária de Trabalhadores do MRT é composta por três candidatos: Diana Assunção, trabalhadora da USP, foi fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas no Brasil, e é reconhecida por sua luta em defesa dos direitos das mulheres, das trabalhadoras terceirizadas, por suas contribuições para o feminismo socialista e é apresentadora do podcast Feminismo e Marxismo. Marcello Pablito, também trabalhador da USP, e Letícia Parks, professora, são fundadores do grupo Quilombo Vermelho – Luta Negra Anticapitalista, e editaram juntos livros sobre a questão negra e a luta contra o racismo e o capitalismo, como “A Revolução e o Negro”; há muitos anos estão na linha de frente de diversas batalhas dos trabalhadores. O Esquerda Diário pediu aos membros da Bancada Revolucionária que falassem um pouco a nossos leitores sobre os principais pontos de seu programa e da campanha.

ED: O que é o mais importante que vocês do MRT estão apresentando como política nessas eleições?

Diana: Vivemos hoje em um regime político cada vez mais reacionário e autoritário, marcado por um golpe institucional que atacou até o limitado direito ao voto. Apresentamos nossa candidatura para expressar no espaço das eleições, marcadamente antidemocrático, onde os candidatos capitalistas são bancados por rios de dinheiro para seguir adiante com os ataques contra os trabalhadores, com o objetivo de ser uma voz da classe trabalhadora e dos setores oprimidos contra esse regime. Nossa luta é por fora Bolsonaro, Mourão e todos os golpistas, e por isso nos colocamos também em luta contra o STF e o Congresso, que são parte integrante do golpe e de todos os ataques contra os quais lutamos, como a reforma da previdência e trabalhista, e agora o projeto de reforma administrativa que estão unidos para aprovar.

Pablito: Sim, por isso levantamos a necessidade de lutar para impor uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, para poder botar abaixo esse regime e combater para acabar com todas estas leis que privilegiam os ricos, na perspectiva de garantir os direitos da grande maioria. Contra os políticos e juízes privilegiados que governam para os ricos, defendemos que todos ganhem os mesmos salários que uma professora, e que os juízes sejam eleitos, com mandatos revogáveis para eles e também para os políticos.

ED: E por qual programa vocês lutam? Vocês podem dizer alguns dos pontos fundamentais que defendem para mudar essa situação?

Letícia: Estamos em meio a uma crise que foi criada pelos capitalistas, mas que eles nos fazem pagar com desemprego, ataques aos nossos direitos, privatizações, baixos salários, tudo para manter seus lucros milionários. Dizemos que são os capitalistas que devem pagar pela crise, e por isso lutamos pelo fim do pagamento da dívida pública, um mecanismo de roubo do orçamento público para os capitalistas, e pela taxação das grandes fortunas. Lutamos pela proibição das demissões durante a pandemia.

Pablito: Com o dinheiro de medidas anticapitalistas como essas, poderia ser feita, uma reforma urbana radical, com planos de obras públicas que garantiriam saneamento, moradia, escolas e creches, hospitais, transporte e todas as necessidades fundamentais da população que hoje são tratadas como mercadoria. Para isto, também consideramos fundamental lutar contra a absurda Lei de Responsabilidade Fiscal, um mecanismo que os capitalistas utilizam para cortar os gastos sociais e reservar o dinheiro público para seguir pagando a dívida pública.

Diana: Também é fundamental lutar para reverter todas as privatizações, como são as Organizações Sociais que domina a saúde e que Guedes e Bolsonaro querem ampliar ainda mais, avançando para a destruição do SUS. Lutamos por um SUS 100% estatal sob controle dos trabalhadores. Para garantir direito à educação para todos, defendemos a ampliação das cotas lutando pelo fim do vestibular, com estatização das universidades privadas.

ED: Recentemente vimos casos de machismo absurdos ganhando como os de Robinho e do julgamento do estupro de Mariana Ferrer gerarem imenso repúdio. Como a Bancada vê estas questões?

Diana: Para nós a luta contra o machismo e o patriarcado que violenta as mulheres todos os dias de inúmeras formas é um ponto central. Construímos ativamente as manifestações de repúdio contra a absurda sentença de “estupro culposo” de Mari Ferrer não apenas em São Paulo, mas com o Pão e Rosas e nossas demais candidaturas, como a de Val Müller, em outros locais do país. Estivemos com um importante bloco da Bancada Revolucionária e do Pão e Rosas no Bloco. Em relação ao tipo de feminismo que defendemos, é fundamental destacar que é socialista e revolucionário, porque compreendemos que existe uma profunda inter-relação entre machismo e capitalismo em que este sistema econômico se utiliza das opressões para aumentar seus lucros. Por isso, não defendemos a estratégia de meramente ocupar lugares de poder com mulheres, enquanto para a imensa maioria se mantém a mesma opressão e exploração. Nos colocamos contra esse regime golpista profundamente machista, o que se expressa no bolsonarismo mas também no judiciário e no Congresso, que dá sentenças absurdas como as de Mari Ferrer e mantém a proibição do aborto, responsável pela morte de milhares de mulheres todos os anos. Sabemos que é ao lado dos trabalhadores, negros e brancos, e lutando contra o capitalismo e o machismo com um só punho que poderemos rumar para a libertação das mulheres.

ED: Vocês apontam também uma relação forte entre o racismo e a exploração capitalista, não é?

Letícia: É fundamental esta questão. As mulheres negras recebem em média 60% a menos que um homem branco, são a maioria das trabalhadoras terceirizadas nos cargos mais precários e compõem o imenso exército das empregadas domésticas, uma das maiores categorias de trabalhadores e das que sofrem mais com a precarização e os baixos salários. Nossa luta é ao lado destas mulheres, por um feminismo que está com as trabalhadoras em cada luta, unindo como a Diana colocou os trabalhadores negros e brancos nessa luta.

Pablito: Também lutamos pela igualdade salarial entre negros e brancos, homens e mulheres, defendendo os direitos e salários de terceirizados e dos entregadores, que recentemente protagonizaram uma importante luta contra as empresas de aplicativos que os exploram, luta da qual participamos ativamente e hoje seguimos construindo com diversos companheiros a rede de trabalhadores precarizados. Defendemos também os direitos dos imigrantes, e entendemos que a xenofobia com que são discriminados é mais uma forma de opressão da qual o capitalismo se utiliza para lucrar mais.

ED: Outra questão fundamental em relação ao racismo é a violência policial. Como enxergam essa questão?

Pablito: A polícia, como o judiciário, são um pilar fundamental do Estado para garantir a propriedade privada, a desigualdade. Em um país tão racista quanto o Brasil, que foi o último do mundo a abolir a escravidão e com uma maioria negra que é mantida na miséria, a polícia é das mais assassinas do mundo porque sua função é justamente manter pela força essa desigualdade. Nós lutamos contra essa instituição racista e assassina, e não caímos na ilusão de que é possível “humanizá-la” justamente porque faz parte desse Estado, o que infelizmente até o PSOL vem alimentando nessas eleições. Com o judiciário vemos o mesmo: com uma das maiores populações carcerárias do mundo, a maior parte dos presos é negra e uma imensa parte deles sequer foi julgado. Nossa luta contra o racismo passa pela luta pela legalização da maconha, num combate contra a absurda guerra às drogas que serve de pretexto para que a polícia siga matando nas periferias.

ED: E como vocês constroem a campanha de vocês? Como pretendem atingir esses objetivos?

Diana: A nossa campanha é uma campanha militante e independente dos capitalistas, construída por jovens e trabalhadores que estão construindo ela por acreditarem em suas ideias: ninguém é contratado para panfletar ou fazer campanha, não recebemos nenhum centavo de empresas ou mesmo do fundo partidário. Todo o dinheiro que temos é aquele que recebemos de contribuições dos que querem construir esse projeto político revolucionário. A nossa candidatura não é para fazer promessas vazias, mas para lutar. Por isto, não vendemos a ninguém a ilusão de que basta votar na gente, que vamos entrar na Câmara e aprovar projetos de lei que vão resolver os problemas estruturais da vida dos trabalhadores, do povo pobre, das mulheres, negros e LGBTs, especialmente no marco de um país governado por Bolsonaro e que vem de um golpe institucional, que veio para passar ataques mais profundos que o PT vinha fazendo. O que nossa candidatura se propõe a fazer é apoiar e fortalecer as lutas por nossas demandas que só podem ser conquistadas com a organização e luta dos trabalhadores.

Pablito: Sim, defendemos a auto-organização dos trabalhadores a partir de cada local de trabalho, e lutamos para retomar os sindicatos das mãos dos burocratas que hoje os dominam para garantir seus privilégios, dando as costas para os trabalhadores. Defendemos a construção de um pólo anti-burocrático nacional onde todos os candidatos, parlamentares e sindicatos ligados às organizações que se colocam no campo à esquerda do PT, se unifiquem para batalhar por um plano de lutas e que exija das grandes centrais como CUT e CTB que organizem a luta contra os ataques. Nossa candidatura é para fortalecer essa perspectiva.

Letícia: Para nós é fundamental a superação da estratégia de conciliação que marcou a história do PT, em que a ilusão de que é possível governar unindo os interesses dos grandes capitalistas e da classe trabalhadora, fazendo acordos com a direita, e aos poucos resolver os problemas dos mais pobres. Compreendemos que os interesses entre explorados e exploradores são inconciliáveis, e por isso não sentamos com patrões para fazer compromissos de que não atacaremos seus lucros: pelo contrário, sabemos que a única forma de atingirmos nossos objetivos é com a organização dos trabalhadores, mulheres, negros e LGBTs de forma independente para atacar a propriedade privada e, com isso, garantir nossos direitos.




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