ELEIÇÕES NA CÂMARA

Baleia Rossi e Arthur Lira: saiba quem são e por que não são alternativa aos trabalhadores

As eleições para a presidência da Câmara acontecem hoje, 1, e a disputa está concentrada entre dois candidatos com históricos vinculados à oligarquias ligadas ao agronegócio. O histórico de ambos, com inúmeras políticas de ataques aos trabalhadores, deixa claro que nenhum dos dois é uma alternativa aos trabalhadores, e estão justamente no sentido oposto do enfraquecimento de Bolsonaro.

segunda-feira 1º de fevereiro| Edição do dia

Os candidatos à presidência da Câmara Artur Lira e Baleia Rossi Foto: Editoria de
Arte de O Globo

O histórico de Arthur Lira e Baleia Rossi

A começar pelo apoio ao golpe institucional, onde os deputados do DEM e PP votaram juntos pelo impeachment, a lista de acordos é grande. Em 2016, a imposição do teto de gastos (que resultou, entre muitas outras coisas, na aceleração do sucateamento do SUS), teve o voto dos “adversários” Rossi e Lira, verba que hoje faz falta em todos os estados, particularmente no Amazonas. A reforma trabalhista de Temer, que impõe jornadas de trabalho intermitentes a uma enorme parcela da população e a retirada de diversos direitos antes garantidos pela Constituição foi apoiada por ambos, assim como as “flexibilizações” trabalhistas de Bolsonaro para salvar o lucro empresarial e atacar salários e direitos durante a pandemia. A reforma da previdência, articulada por Maia, e planejada por Bolsonaro e Guedes, também teve apoio de ambos os deputados.

Mesmo diante deste histórico de apoio a projetos políticos em comum, tragicamente pode haver os que argumentam em defesa de Baleia Rossi; que a trajetória política de Arthur é mais alinhada ao governo Bolsonaro do que a do mdbista, etc, etc. Mas essa leitura se verifica na realidade? Vejamos um pouco de suas trajetórias.

Suas trajetórias

Arthur Lira é representante fiel do agronegócio brasileiro. Empresário e pecuarista, é filho do latifundiário Benedito de Lira, ex-senador e atual prefeito de Barra de São Miguel pelo mesmo partido do filho (PP), em Alagoas. A família Lira se diz “inimiga” da família de Renan Calheiros, ex-presidente do Senado, que vem do mesmo estado e é quadro histórico do MDB que hoje rivaliza com o PP pela presidência da Câmara. Os dois clãs disputam os mesmos territórios, fontes de voto e lucro para ambos. Enquanto oligarquias rivais, também integram facções políticas adversárias, rivalidade que já vem de décadas. Benedito Lira integrou o partido da ditadura, ARENA, de 65 até 78, e percorreu várias legendas até chegar ao PP em 2009, mesma trajetória percorreu o seu filho.

Arthur Lira se aproveitou muito bem da posição de poder de seu pai, e hoje é o grande responsável pela aproximação de uma ala do centrão com Bolsonaro, garantindo uma importante base de sustentação ao governo na Câmara. O deputado lidera um bloco que, desde março de 2020, passou a se aproximar do presidente. Os laços com o governo se fortaleceram ainda mais depois da saída de Sérgio Moro do governo e com o enfraquecimento das alas ideológicas no Planalto.

Por sua vez, Baleia Rossi não fica muito longe disso. Também é um empresário do agronegócio que ascendeu para a política com o nome e poder do seu pai, Wagner Rossi, ambos carreiristas de longa data no PMDB. Wagner Rossi foi ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento no governo de Dilma entre 2010 e 2011, e fez carreira no interior de São Paulo, na famosa cidade marcada pela criação de boi, Ribeirão Preto. Com esse histórico familiar, também é há bastante tempo empresário do agronegócio que ascendeu para a política com o nome e o poder de seu pai. Baleia Rossi teve um papel central na “renovação” do PMDB (MDB). O deputado chegou à liderança da bancada do partido em maio de 2016, mesmo período em que o impeachment de Dilma foi votado. Ou seja, esteve à frente desse partido que teve peso determinante para o golpe institucional e para uma série de medidas de destruição da CLT.

Como recentemente apontou o próprio golpista Cunha, então presidente da Câmara, Baleia Rossi teria sido, junto a Michel Temer, um pilar fundamental para a efetivação do impeachment, fato que abriu a porteira para toda a agenda golpista autoritária de ataques posteriores. Após isso, Baleia também foi importante para o estancamento da crise do próprio governo Temer no ano seguinte, quando era alvo de investigações. De medidas reacionárias uma após outra, como a investigação por seu envolvimento com a Máfia das Merendas, chegou à presidência do partido em 2019.

Baleia Rossi é explícito em sua trajetória: o deputado votou com o governo Bolsonaro em 90% das ocasiões, incluindo pelo porte de armas para colecionadores, em 2019. Também votou a favor da redução da maioridade penal em 2015, durante o governo Dilma.

Essa eleição aponta como adversários dois grandes representantes do latifúndio que compartilham uma história envolta do agronegócio, apadrinhados pelos seus pais, companheiros do golpe institucional em 2016, e estiveram de mãos dadas em todas as votações que nos impuseram uma série de ataques. Tudo isso a partir de regiões diferentes, com interesses econômicos concorrentes entre si, nunca rivais no interesse em comandar o Estado burguês para garantir os lucros dos latifundiários e dos capitalistas do agronegócio.

O PT e a esquerda buscando cada vez mais seu lugar no regime do golpe

Para uma esquerda que tenha o objetivo de derrotar Bolsonaro e o regime do golpe, o fato de Maia e Baleia Rossi estarem intimamente atrelados ao poderoso agronegócio e terem sido articuladores diretos de toda agenda política e econômica do golpe institucional seria o bastante para não permitir nenhum voto em nenhuma das duas chapas. Mas não é o que acontece.

No caso do PT, o partido continua a adotar a mesma tradição pragmática da política burguesa que, de coligação a traições, nos levou ao golpe institucional. Dessa vez, o PT não somente apoia o DEM na Câmara, como também apoia o candidato de Bolsonaro à presidência do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM). O pragmatismo justifica ao DEM ser “oposição” na casa baixa e governista na casa alta por simples questão de divisão de cargos, verbas e a gestão das riquezas da burguesia oligárquica, e o PT apenas o segue.

O PT se apoia nessa mesma lógica pragmática com o argumento de que eleger os “opositores” do bolsonarismo neste momento “é a única coisa que é possível conquistar no imediato”. E enquanto o PT faz essa campanha midiática da “incapacidade de fazer algo diferente disso” por cima, por baixo atua através dos sindicatos e da CUT, uma das maiores centrais sindicais do país, dirigida pelo PT, a abafar toda e qualquer insatisfação dos trabalhadores com as políticas impostas pelas patronais.

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Mas mesmo tendo sofrido tantos revezes dos próprios golpistas, o PT não apenas continua a apostar na conciliação de classes, como a cada dia busca mais ofensivamente a ser parte integral desse regime político muito mais degradado, reacionário, conservador, anti-operário. E essa é exatamente o mesmo caminho que traça o PCdoB, cada vez mais irrelevante no cenário nacional.

Essa mesma lógica pragmática tem sido cada vez mais o modus operandi do PSOL. O partido nas eleições municipais passadas participou de coligações eleitorais com vários partidos capitalistas. Em São Paulo, Boulos buscou e teve apoio do mercado financeiro, do mesmo modo buscou articular-se com os proprietários do comércio e, por fim, no segundo turno, lançou uma frente junto com PDT, PSDB e Rede, com quem prometeu um governo em comum.

Agora, figuras como Fernanda Melchiona e Samia, ambas dirigentes do MES e deputadas federais, dizem que o debate sobre apoiar Baleia Rossi é tático. De fato, é um debate puramente tático: discutem se apoiam Rossi agora no primeiro turno, ou daqui uns dias no segundo turno. Não há muito para esmiuçar: Baleia não é oposição real a Bolsonaro. Nem o próprio nunca se colocou assim. Apenas a cegueira de uma esquerda cada vez mais adaptada e profundamente cética do potencial da classe trabalhadora como sujeito político independente pode enxergá-lo como “mal menor” e como “alternativa a Bolsonaro”.

Apenas a mobilização da classe trabalhadora pode ser alternativa contra Bolsonaro

Para uma esquerda marxista, que aposta na mobilização dos trabalhadores e na luta contra os atores burgueses e seus apêndices, a conclusão jamais poderia ser apoiar o bloco de Baleia Rossi mas sim mobilizar a classe trabalhadora para enfrentar os ataques de Bolsonaro e de todo esse regime político fruto do golpe institucional.

Ainda há o argumento de que o apoio do PSOL a essa candidatura poderia garantir em troca posições na mesa diretora, como se isso implicasse em fragilizar o poder exercido pela direita tradicional dentro do congresso. Nada mais distante da realidade. Vale lembrar que com esse mesmo argumento de moeda trocada, o PCdoB e boa parte do PT apoiaram a eleição de Rodrigo Maia em 2019 e conquistaram cargos diretores na mesa, mas isso não impediu em nada os diversos ataques que ocorreram.

Essa política de buscar alianças com a direita é a política de conciliação que nos trouxe até aqui. Não é este o caminho para derrotar o governo Bolsonaro, um facínora que acumula uma lista de crimes nesta pandemia contra a vida da população, defende os ataques mais cruéis contra a classe trabalhadora, em especial suas camadas mais exploradas que são compostas majoritariamente por mulheres, negros e LGBTs. Não é possível combater Bolsonaro com aqueles que o fecundaram e lhe deram asas, que foi justamente o que fez o PT.

Setores de esquerda vêm agitando o impeachment como saída diante da crise econômica e sanitária, aproveitando o enfraquecimento do governo, contudo, o próprio faz questão de deixar claro que não tem esse objetivo. Ou, ainda se assumisse essa política, quem assume é Mourão, que terá blindagem institucional do STF, Senado, governos e todas as frações do centrão que condensam a oligarquia centenária de latifundiários e empresários, junto com outras bancadas como da bala e da bíblia. Centrão este que hoje se aglomera como baratas nos bueiros, esperando qual será o que terá mais esgoto para alimentá-las: Rodrigo Maia e seus aliados ou Bolsonaro e militares.

Por estes motivos, nós do Esquerda Diário e do MRT não apoiamos o voto em Baleia Rossi e nem apoiamos qualquer política que ultrapasse as fronteiras da independência de classe. Foi justamente a conciliação de classes e confiança na institucionalidade burguesia que abriu espaço para o golpe institucional, que trouxe todos esses ataques que a classe trabalhadora vem sofrendo.

Uma política de independência de classes deve se apoiar na organização e na mobilização dos trabalhadores, confiando somente em suas próprias forças, e não depositando as expectativas de que um suposto impeachment orquestrado pelos atores desse regime podre, que colocará Mourão na presidência e dará ainda mais destaque aos militares. Essa política hoje deve ser a luta por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, imposta pela força da mobilização, onde os próprios trabalhadores sejam sujeitos a ditar os rumos da política, e não um punhado de parasitas.

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