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Bacurau: que as cabeças imperialistas venham à prêmio

Em meio ao bolsonarismo um corajoso filme arrebata o público brasileiro que vê nas telas uma alegoria de seu drama atual contra um governo reacionário e racista que lambe as botas do imperialismo norte-americano. Só podia ser de Recife. CONTÉM SPOILERS.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

segunda-feira 16 de setembro| Edição do dia

O cinema brasileiro neste 2019 de Bolsonaro resiste como nunca. Com tentativas de censura pela via do aumento de burocracias na Ancine e busca de controle e filtro "ideológico" contra filmes que questionam "a ordem" é preciso também dizer que não é de hoje que o cinema brasileiro, em especial vindo do Nordeste do país tem antecipado debates fundamentais. "Som ao Redor" também de Kléber Mendonça Filho apontava de forma inovadora as contradições de classe no interior do lulismo, assim como o menos famoso porém brilhante "Um lugar ao sol" de Gabriel Mascaro. O cinema nordestino, com destaque para Recife, pulsa política filmando o Brasil profundo.

Neste Bacurau de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles a alegoria é atual: uma burguesia nacional que se associa como capacho do imperialismo, verdadeiros urubus com uma política de rapina contra um povo explorado e oprimido que "sequer está no mapa" mas como disse o menino "é gente!". Percebe-se na tela a influência de Era uma vez no Oeste, Sob o domínio do medo e Mad Max. Esta alegoria, por mais caricata que possa soar, incomoda ferozmente a direita. Demétrio Magnoli chama o filme de "maniqueísta", "poderia ter sido um Glauber Rocha em 1968" (que elogio!) mas que hoje expressa apenas de forma espelhada uma versão lunática do que é o próprio bolsonarismo. Um sociólogo direitista querendo se opor aos extremismos de direita e de esquerda, para que o centro resolva os conflitos de classe que neste momento atendem, também, aos interesses de rapina dos Estados Unidos.

O filme talvez tenha mais a ver com o "chega de diálogo" do também sociólogo Vladimir Safatle, que em sua última coluna refletiu o caminho da esquerda brasileira nas últimas décadas, em especial na transição pactuada ("dialogada" com os militares) e apontando a necessidade de ruptura. Não diz qual, nem como, mas fala em ruptura. O filme também no fundo não diz qual, nem como, mas é de ruptura que fala. É de revolta, luta pela subsistência e resistir diante da agressão imperialista. Mostra um povo que não está no mapa mas que contraditoriamente tem no museu a sua arma. É o museu que das suas paredes arma o povo. É a história que nos arma. E é da escola que sai o povo armado. Quando um presidente tem como programa de governo o enfrentamento contra a ciência, a educação e o conhecimento essa é uma mensagem poderosa. É assim também a forte presença de Lia de Itamaracá já em seu enterro, aparecendo pela segunda vez em filmes de Mendonça Filho: foi ela que com sua voz evocou o sol no genial "Recife Frio".

A inevitável comparação entre a humilhante batida de continência bolsonarista à Donald Trump e as cabeças imperialistas à prêmio são um recado que de fundo tentam mostrar que não haverá só ataques, haverá também resistência. O filme também indica que talvez o Nordeste brasileiro seja vanguarda desse processo. Esse sentimento disruptivo, em um momento de desilusão e ceticismo mostra o enorme papel que o cinema pode cumprir. Não é um panfleto e nem um programa acabado. Não nos indicará a estratégia. É uma alegoria fantástica de um Brasil difícil de ler e de entender mas que merece ser visto por milhões e que não poupou nem mesmo o autoritarismo da toga. No fundo, fica para nós a tarefa de decifrar o que seria o nosso psicotrópico de hoje que permite ao povo se libertar e ter um poder de enfrentamento como vimos nas cenas de Bacurau. Decifrar esse "enigma" exigirá ir muito além dos inimigos óbvios que vemos em Bolsonaro e Trump.




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