Opinião

OPINIÃO

BBB21 e a política da Globo em tempos de Governo Biden

Thiago Flamé

São Paulo

quarta-feira 10 de fevereiro| Edição do dia

Começo esse texto retomando as breves palavras de Mano Brown: “Não sou obrigado a ter opinião sobre o BBB. Não tenho tempo para assistir e particularmente não gosto!”. Também não gosto, ainda que seja difícil não ter assistido ao menos alguns trechos e inevitável ter opinião sobre.

Verdade seja dita, ainda que Mano Brown diga que não tem opinião, sua fala é uma posição contundente. Brown se nega, se recusa como sempre se recusou, a ser pautado pela Rede Globo. Esse rechaço, é verdade, soa um tanto impotente quando a Globo consegue pautar o debate nacional e o debate no movimento negro a partir de um programa de entretenimento tido como das coisas mais fúteis da televisão. Mas nada é fútil para a indústria cultural, menos ainda a futilidade que promove. É também preciso entrar no terreno no inimigo e colocar em pratos limpos o debate ideológico armado pela Globo. Evidentemente, nem Mano Brown nem ninguém deveria ser obrigado. Mas a verdade é que somos, dado o bombardeio geral, diário, sistemático em todas as plataformas analógicas e digitais.

Seria chover no molhado uma coluna para dizer o que é a Rede Globo. Já sabemos que ela só prosperou agarrada no coturno dos generais, que omitiu o quanto pode até mesmo a suprapartidária e ultra comportada campanha das Diretas Já, que armou em 1989 para garantir o triunfo de Collor. Inclusive as novas gerações tem fresco na memória sua relação intima com Sergio Moro e a Lava Jato e seu apoio entusiasmado à reforma da previdência e trabalhista durante o governo Temer e Bolsonaro. Ou seja, sabemos bem que interesses ela representa.

Por isso é mais impressionante ainda ver o alcance que têm sua programação “fútil”. Não falamos somente de audiência, mas principalmente sua habilidade em criar identificações, de abrigar subjetividades e assim ir estreitando as margens do possível no debate de ideias e ideologias. Que ninguém seja ingênuo de achar que a programação cultural e de entretenimento não segue uma estratégia muito bem definida e arquitetada. Especialmente nas novelas, séries e programas como o BBB. A sensibilidade frente amplista e liberal tem sido sistematicamente, dia após dia, agitada em toda a programação da Globo. Ora na defesa cínica da democracia, da justiça social e da diversidade, ora na afirmação genuína e sincera das pautas neoliberais.

Esse BBB21, o primeiro com metade de participantes negros, deve ser tomado como uma forte sinalização do quem vem pela frente. Fortalecida pelo fato de que seus aliados retomaram o controle do governo dos EUA a Globo vai vir ofensiva para reconstruir uma alternativa de centro e também retomar o controle da presidência para seus aliados preferenciais no Brasil. Vai jogar pesado para incorporar e canalizar o sentimento antirracista e antimachista e sobretudo evitar que a luta das mulheres e dos negros possa confluir com a luta da classe trabalhadora contra as reformas neoliberais e a uberização. Buscará diuturnamente impor um consenso em torno do mínimo denominador comum na oposição a Bolsonaro, que a esquerda institucional está pronta para aceitar, enquanto vai dar sustentação aos ataques do governo.

Vamos aceitar jogar esse jogo, limitar o nosso universo de possibilidades a esse mínimo denominar comum política e culturalmente ou vamos virar esse tabuleiro, ampliar nosso leque de aspirações, alargar o horizonte de possibilidades e criar as condições de tornar possível o impossível?

Em Tempo:

O SP TV de hoje deu um considerável espaço para a expor a situação dos estudantes e professores nas escolas e para a denúncia das condições vergonhosas das escolas, depois de passar semanas ocultando esses problemas e apoiando tacitamente a abertura insana de Dória e Covas. Uma mostra de que a abertura está sendo mal recebida pelas famílias trabalhadoras que não querem expor suas vidas e de seus filhos às conveniências de ocasião dos governos tucanos e que a greve tem espaço para avançar e furar o bloqueio midiático da própria Globo, que não cita a mobilização na reportagem.




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