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BBB e o exército industrial de reserva

sexta-feira 26 de fevereiro| Edição do dia

Eu não assisto ao BBB. Imagine, então, a minha surpresa ao descobrir que o reality da família Marinho está popularizando um termo relativamente antiquado da teoria econômica burguesa: curva de Philips. Se entendi bem, um dos favoritos desta temporada, Gil, é doutorando em economia e usou o conceito para argumentar que a inflação é o custo que “a sociedade” paga quando o Banco Central emite moeda.

Tal conceito foi criado por um economista keynesiano, A. W. Phillips, após a Segunda Guerra Mundial. A partir de uma análise empírica da economia britânica, Phillips constatou a existência de um trade-off entre inflação e desemprego. Em outras palavras, a diminuição de um provocaria necessariamente o aumento do outro. Isto implica que não existe uma taxa ideal de desemprego ou inflação e que as metas para ambas são uma escolha “política”, valorativa. Não há certo ou errado; depende das preferências de um ou outro governo privilegiar a diminuição do desemprego às custas de uma taxa de inflação mais elevada ou o contrário. A análise de Phillips foi estendida aos EUA por Paul Samuelson e Robert Sollow mas, posteriormente, foi criticada pelo neoliberal Milton Friedman, para quem a correlação não era entre desemprego e inflação, e sim entre o desemprego e a variação da inflação. Segundo Friedman, haveria em cada país uma taxa de desemprego “natural”, ou “não aceleradora da inflação” (em inglês, non-accelerating inflation rate of unemployment, ou NAIRU). Logo, o governo não poderia tomar medidas para tornar o desemprego menor que esta taxa sem provocar uma hiper-inflação.

Obviamente, o conceito de desemprego natural é falso, mas evidencia o fato, e é praticamente uma “confissão” da burguesia, de que o capitalismo nunca poderá prescindir de um exército industrial de reserva. No capítulo de O capital sobre a “lei geral da acumulação capitalista”, Marx explica que, à medida que o nível de emprego aumentasse e a oferta de força de trabalho se tornasse escassa, os salários aumentariam de tal modo que comprometeriam a lucratividade do capital caso não existisse tal exército. Então, trabalhadores seriam demitidos; alguns capitalistas iriam à falência, enquanto outros investiriam na mecanização da produção, até que a queda dos níveis de salário e de emprego restaurasse, assim, a lucratividade. Ao pressionar os salários dos trabalhadores empregados para baixo, o exército de reserva não só permite aos capitalistas aumentarem a exploração, como também impede que a escassez de mão de obra seja um fator limitante da acumulação, ou que o ritmo desta dependa do crescimento da população.

E, sim, seria ridículo tentar erradicar a pobreza imprimindo e distribuindo dinheiro até que todo mundo seja “rico”. Mas, ao contrário do que dizia Friedman, tampouco é verdade que toda e qualquer emissão monetária gera inflação. Por exemplo, os resgates de empresas, bancos e outras instituições financeiras feitos pelos governos dos EUA e de outros países após a quebra do Lehman Brothers, em 2008, e mais recentemente, na pandemia, resultaram em uma injeção massiva de dinheiro na economia que, mesmo assim, não provocou um aumento significativo da inflação, já que este dinheiro continuou todo nas finanças. Mas, mesmo quando o aumento da quantidade de dinheiro em circulação eleva a demanda de bens de consumo, o primeiro efeito do aumento dos preços destes bens é estimular os capitalistas a produzirem mais, inclusive contratando mais trabalhadores e investindo na ampliação das plantas industriais, etc. Assim, a oferta aumenta e os preços caem novamente para os patamares anteriores. É só quando a capacidade produtiva não pode mais ser expandida que o aumento da demanda de bens de consumo provoca inflação, o que não significa que esta não possa ter outras causas, nem que não possa aumentar quando a produção ainda pode ser expandida.

Entretanto, não é possível acabar com o desemprego a não ser através da auto-organização dos trabalhadores, que deverão controlar a produção e a distribuição, dividindo todo o trabalho a ser feito na sociedade entre todas as pessoas aptas a trabalhar e fiscalizando os estoques, a contabilidade e a compra e venda dos produtos finais e dos insumos, para que os salários sejam reajustados automaticamente de acordo com a inflação. Estas são medidas transicionais, ou seja, são o primeiro passo de uma reorganização geral da economia sobre novas bases, socialistas; portanto, só irão se sustentar se a classe trabalhadora puder conquistar para si o poder político, estabelecendo um governo de ruptura com o capitalismo. Naturalmente, a burguesia e seus ideólogos irão alegar que tais medidas são “impossíveis”, mas se são impossíveis ou não é, na realidade, uma questão de correlação de forças. Como escreveu Trótski: “Se o capitalismo é incapaz de satisfazer as reivindicações que surgem infalivelmente dos males que ele mesmo engendrou, então que morra!”




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