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7S | Ato em Brasília: muito longe do Capitólio e das projeções bolsonaristas

Alguns analistas falavam sobre uma espécie de “Capitólio bolsonarista” no 7S. A 6 de janeiro, um Trump derrotado nas eleições presidenciais nos Estados Unidos realizou uma medida de força para demonstrar seu peso político.

André Barbieri São Paulo | @AcierAndy

terça-feira 7 de setembro | Edição do dia

Os trumpistas assaltaram o Capitólio, em Washington, com a conivência da polícia, enquanto o Congresso estava conduzindo a contagem de votos do Colégio Eleitoral da eleição de 2020. Bolsonaro e seus seguidores da extrema direita justificaram a invasão do Capitólio como uma “oposição às fraudes” eleitorais que deram a vitória a Biden.

A admiração pela política de Trump levou Bolsonaro, indubitavelmente, a imitar sua campanha pelo voto impresso, semeando a ideia da fraude eleitoral que explicaria sua derrota. Bolsonaro já realizou essa parte da operação, que é instalar o debate nacional sobre que uma eventual derrota sua só poderia se dar através de fraudes. Mas, se é verdade que Bolsonaro quer criar a versão brasileira do Capitólio - como tentou fazer Keiko Fujimori e a extrema direita peruana – há diferenças substanciais com o 7S e as razões da manifestação em si.

Com a façanha do 6 de janeiro, Trump queria mostrar que sobrevivia à derrota eleitoral na figura do movimento político de extrema direita que respondia a Trump e a mais ninguém. O objetivo de Trump foi preservar-se como principal figura da direita e dono político do Partido Republicano mesmo com a derrota eleitoral. E de fato o conseguiu. Não existe político que queira se candidatar pelos Republicanos que antes não seja obrigado a se curvar a Trump.

No caso de Bolsonaro, na manifestação do 7S joga suas fichas para uma importante demonstração de forças defensiva, que dê fôlego a suas perspectivas políticas num momento de fragilidade. Não acontece depois de uma derrota eleitoral, como nos Estados Unidos; nem sequer conteve a mesma “radicalidade” da extrema direita norte-americana, que invadiu de fato o Capitólio (em Brasília as ameaças ao STF não se traduziram em invasões). Isso é assim porque estamos diante de uma movimentação reativa de Bolsonaro, que quer alterar a correlação de forças entre as instituições, afastar a pressão do STF sobre seus aliados, e impor sua agenda política. Nessa atual correlação, como dizíamos, Bolsonaro não tem possibilidade de “aplicar golpes”, dada a enorme divisão em distintos segmentos da classe dominante, a oposição de outras instituições da burguesia e a antipatia do imperialismo norte-americano encabeçado pelo Partido Democrata.

A situação, ademais, é bastante distinta daquela nos Estados Unidos. O autoritarismo judiciário brasileiro tem disputas sistemáticas com a extrema direita bolsonarista, em nome de que contornos dar ao regime político burguês. Trump não contava com uma oposição semelhante pela Suprema Corte, cujo conservadorismo fora incrementado por indicações de ministros trumpistas. Nos EUA, os militares, um dos pilares mais reacionários do país, foram prudentemente afastados pelo establishment da figura do Republicano (especialmente depois da foto de Trump com o general Mark Milley, que foi disciplinado pelo Pentágono e o Congresso). No Brasil, a proximidade dos militares com Bolsonaro é maior, com todas as patentes das Forças Armadas tendo cargos no governo de extrema direita.


Ato em Brasília no 7S

Dentro do objetivo de Bolsonaro, até agora, o 7S o auxilia a mostrar que politicamente tem apoio suficiente para conter determinadas pressões do STF, mas incapaz de resolver o impasse institucional dentre as frações da burguesia. Depois de dois meses convocando, os atos do 7S até agora não chegam perto daqueles da direita golpista entre 2015-16. Tendo sido realizados em 16 Estados até agora, compete com os atos antigovernamentais dos últimos meses. O ato em São Paulo será decisivo.

O ato em Brasília foi grande, sem ser “estupenda”. A presença de bolsonaristas no DF foi muito menor que o anunciado, tendo em vista que o governo concentrou todas as forças para fazer bons atos. Não houve tentativa de bolsonaristas “radicalizarem” contra os edifícios da Praça dos Três Poderes. Bolsonaro aproveitou a ocasião para insistir, de fato, em que “todos os poderes são valiosos”, e exigiu que Alexandre de Moraes (fazendo algum esforço por separá-lo do STF) deve parar de assediar e prender seus aliados, ou “pedir para sair”. Em São Paulo, o ato tende a ser grande também, talvez ainda inscrito na mesma dinâmica: grandes, mas que não liquidam a parada na disputa entre os poderes.

Longe ainda dos “milhões” propagados pelos organizadores, o fato de toda a concentração bolsonarista no 7S não se traduzir (por ora) em massividade decisiva apenas acirra os choques institucionais mergulhados no impasse. De um lado, Bolsonaro pode jogar melhor tendo posto seus seguidores nas ruas; de outro, não ter sido “esmagador” deixa seus adversários dentro do regime com margem de manobra para manter posições. A situação reacionária das disputas entre a direita e a extrema direita continua.

Veremos como se dará em São Paulo. A demonstração de forças defensiva ainda está em curso, e sua magnitude ficará mais clara ao final da jornada.

Para nós a política da esquerda revolucionária é ajudar no surgimento da classe trabalhadora como sujeito político independente de qualquer variante burguesa; para que os trabalhadores intervenham com seu próprio programa. Isso é completamente avesso a depositar confiança em que “assumam o leme” os que já “navegam o barco”: STF, Congresso e governadores, responsáveis junto a Bolsonaro pela crise. O PT e a CUT simplesmente entregaram o 7S para a direita. Estão clamando pelas instituições "entrarem em campo", enquanto Lula articula sua campanha com os partidos burgueses da direita.

A frente única defensiva das organizações de classe dos trabalhadores, contra o conjunto dos capitalistas, é o fundamento de um programa de ação que imponha aos capitalistas que paguem pela crise. Para derrotar Bolsonaro, Mourão e os militares, e colocar abaixo seus ajustes econômicos, privatizações, a fome e o desemprego, a única política independente é defender a imposição, pela luta, de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que acentue os choques de classe e coloque todos os problemas sócio-econômico estruturais sobre a mesa, permitindo aos trabalhadores impulsionar sua auto-organização para enfrentar os capitalistas, o que poderia abrir caminho à luta por um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo.




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