Mundo Operário

GREVE DOS METROVIÁRIOS

Assembleia vota fim da greve dos metroviários de São Paulo: era possível ir por mais

Os metroviários de São Paulo mostraram uma vez mais sua tradição de luta, sua capacidade de organização e unidade pela base, de parar a cidade e fazer o governo tremer.

Fernanda Peluci

Diretora do Sindicato dos Metroviários de SP e militante do Mov. Nossa Classe

Larissa Ribeiro

Metroviária de SP e e militante do Mov. Nossa Classe e Pão e Rosas

quinta-feira 20 de maio| Edição do dia

imagem de Paulo Ianonne

Nesta quarta-feira, 19/05, se fez sentir mais uma vez a força dos metroviários e metroviárias de São Paulo que deflagraram uma forte greve, por tempo indeterminado. Lutamos contra o ataque do governo João Doria e o Metrô de São Paulo, que buscavam retirar direitos conquistados pela categoria em uma tentativa de ação exemplar para abrir caminho a retirada de direitos de outras categorias. Diante disso, a resposta foi a organização dos trabalhadores com seus métodos, mostrando uma impressionante unidade e disposição de luta da categoria. Mais uma vez ficou evidente que é necessário confiar apenas nas nossas próprias forças e em aliança com a população.

Nos distintos piquetes e em conversas com os usuários ficava claro o apoio, com todos levantando as mãos quando perguntados sobre apoiar ou não a greve dos metroviários. Isso ocorreu apesar de toda a campanha criminosa feita ostensivamente pela imprensa. Passaram o dia vomitando mentiras contra os metroviários. Falaram que a média salarial dos metroviários era de 9 mil, querendo misturar os supersalários da cúpula do metrô que recebe 40 mil com os salários básicos dos metroviários, mentiam dizendo que o governo não tinha dinheiro para pagar os metroviários, quando só no mês passado Doria deu mais de R$1 bilhão para a CCR, dona das linhas 4 e 5. Essas foram só algumas das mentiras. Mas nessa greve pudemos contar com o Esquerda Diário como a principal ferramenta de difusão da nossa luta, com dezenas de notas durante o dia e desmascarando cada mentira, inclusive pegando flagrantes de manipulação da mídia com a população, veja o video. Eles tentaram, mas não conseguiram jogar a população contra nós.

Isso porque, ficou cada vez mais claro que essa greve não era só pelos direitos de quem se arrisca todo dia pra garantir que os trabalhadores cheguem ao trabalho, não era só para defender vacina para todos, contra a demagogia de Doria que deixa a população sem vacina e mesmo no metrô não deu vacina para a maioria das terceirizadas. Essa greve era também porque os patrões querem usar a pandemia para jogar o salário de todo mundo lá embaixo, cortar direitos e todo tipo de ataque. E uma vitória dos metroviários poderia ser um novo patamar para todas as categorias, para todos os trabalhadores. Era disso também que se tratava.

E quando tudo isso estava em jogo, a política corporativa da maioria da Diretoria do Sindicato foi um grande erro. Passaram o dia inteiro fazendo falas que não defendiam as demandas da população, não explicavam que nossa greve serve para defender o transporte público para população com qualidade, não defenderam que um dos eixos da greve fosse a vacina para toda população. Não diziam que querem nos atacar para fazer a gente de exemplo para atacar mais todos os trabalhadores.

Infelizmente não tivemos assembleias democráticas durante a greve, com voz para os trabalhadores. Isso impediu que a discussão sobre o conteúdo da nossa greve fosse levado até o final. E essa foi uma batalha que viemos dando para fortalecer nossa categoria. Durante toda a mobilização lutamos por assembleias democráticas, onde todos os trabalhadores pudessem falar e apresentar propostas, e assim realmente decidir os rumos da luta, e não somente clicar sim ou não, pois a democracia operária é fundamental para nossa organização. Essa greve mostrou o preço caro que se cobra ao impedir a voz aos trabalhadores. Basta de assembleias onde só os coordenadores do Sindicato falam!

Por isso, também defendemos uma forte linha de aliança com a população para romper o cerco da mídia e enfrentar a campanha de mentiras que fizeram contra nossa greve. Até porque é essa a aliança que eles mais temem. Para isso, teria sido fundamental que as centrais sindicais, dirigidas pela CUT e CTB, os parlamentares do PSOL e todas as correntes de esquerda, se jogassem com todas suas forças para fazer dessa greve vitoriosa, sabendo que a política do governo seria dura e de repressão, com ameaças inclusive televisionadas, como vimos o dia inteiro através do bolsonarista Datena. Mas a CUT e a CTB estiveram longe de fazer uma enorme campanha. As principais figuras públicas do PSOL, como Guilherme Boulos, no máximo enviaram um áudio de 45 segundos apoiando a greve, mas sem nenhuma declaração pública. Imaginem se todos os sindicatos, parlamentares, correntes de esquerda tivessem de jogado com tudo em uma forte campanha nacional? Para isso deveria servir os sindicatos e a esquerda.

Ainda assim, a força da nossa greve impôs a conciliação com o TRT que teve que reapresentar uma proposta muito similar a do MPT. Ainda que não atendia o conjunto das nossas reivindicações era expressão real da correlação de forças da greve. Mas essa negociação, além de mediada pela justiça, teve um outro mediador: o apresentador arqui-reacionário Datena, que tem sido tratado com bom grado pela esquerda, mas que arquitetou uma operação midiática digna de máfia sindical, se fazendo de grande amigo dos metroviários para terminar o dia ameaçando a greve com repressão junto ao Secretário de Transportes, Alexandre Baldy, que manteve a intransigência do governo e do Metrô até o final.

Infelizmente, a maioria da Diretoria do Sindicato - tanto a burocracia da CUT e CTB, que veio atuando desde antes tentando a todo custo evitar a greve, quanto, neste momento, a maioria da esquerda que faz parte da diretoria do sindicato (PSOL-Resistência, Frente Povo Sem Medo, UP, PSTU, MES) - não quis se opor à armadilha de Doria, do Tribunal e de Datena, que tentou nos manobrar dizendo que deveríamos sair da greve sem nada, sem nenhuma garantia, que é exatamente o que Doria queria, para isso o Tribunal fez uma "clausúla de Paz" falando em punições, na qual o Metrô se apoiou para fazer mais ameaças. Com isso, ajudaram a criar medo e dúvida, e enfraquecer a enorme confiança que vinha se expressando entre os trabalhadores na luta.

Nós do MRT, que compomos junto a independentes a Chapa 4 Nossa Classe Metroviários, defendemos com nossa companheira Fernanda Peluci, Diretora do Sindicato dos Metroviários, a proposta de seguir a greve aceitando a proposta do TRT e ampliando a aliança com a população. A CST também defendeu a continuidade da greve, mas sem colocar ênfase na aliança com a população. A ampla maioria da Diretoria defendeu a proposta que venceu na Assembleia com 2488 votos. A proposta de manutenção da greve teve 724 votos, o que demonstra uma expressiva vanguarda que estava disposta a ir por mais. Agora é necessário, mantendo toda a unidade da nossa categoria, seguir a nossa mobilização para não deixar nas mãos da justiça o destino dos nossos direitos e avançar em um profundo balanço dessa batalha para preparar melhor os futuros embates da nossa classe que certamente estarão por isso. Nos próximos dias nós buscaremos desenvolver um balanço mais de conjunto dessa greve para compartilhar e debater com toda categoria.




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