Opinião

ANÁLISE

As tensões nas Forças Armadas para além do jogo de cena

A saída inesperada do general Fernando Azevedo do Ministério da Defesa foi um dos pontos altos da crise que se expressou nessa segunda-feira a partir da queda e rearranjo em 6 Ministérios do governo Bolsonaro. Junto dele, os comandantes das três forças, Exército, Marinha e Aeronáutica, entregaram seus cargos ao novo ministro, General Braga Netto (antes na Casa Civil) nessa terça-feira.

Thiago Flamé

São Paulo

Ítalo Dias

Sociólogo

quarta-feira 31 de março| Edição do dia

Como já tratamos em outros artigos, trata-se de uma expressão da tensão que existe nas cúpulas das forças armadas, de que, ao mesmo tempo, precisam desvincular sua imagem da catastrófica condução do país por Bolsonaro, mas sem chegar ao ponto de uma ruptura com o governo que ainda apoiam e participam. Até agora, apesar de todo o discurso da mídia, somente um setor minoritário rompeu com o governo, o dos generais da "terceira via", que tem em Santos Cruz sua figura mais ativa.

Vemos generais, bolsonaristas de primeira hora como Augusto Heleno, que se colocam ao seu lado sem diferenciações, sustentando abertamente Bolsonaro inclusive nos momentos de escalada no enfrentamento seja com o Congresso, os governadores ou o STF. Trata-se de um setor, ainda que minoritário, que vai aprofundando o envolvimento dos militares com o governo, ao ponto de sustentarem um embate maior de forças entre poderes. Há ainda os já citados defensores de uma “terceira via”, na disputa entre Bolsonaro e Lula em 2022, apostando em uma figura lavajatista, composto principalmente pelos generais que romperam com Bolsonaro em 2019, alguns junto com Moro, e adotaram um discurso mais oposicionista. E vemos hoje com a saída de Azevedo, pela primeira vez, divisões no núcleo de generais do Exército que ocuparam postos chave no governo: Braga Netto, Azevedo e Eduardo Ramos. Eduardo Ramos e Braga Netto cada vez menos se diferenciam da postura de total integração de Heleno, diferente da postura de Villas Boas e do próprio Azevedo. Estes, por sua vez, tem como objetivo tentar achar um caminho para realizar uma “retirada organizada” de parte dos seus postos mais visíveis no governo para o centrão, garantindo base parlamentar ao governo e, simultaneamente, um papel mais discreto para o apoio do exército ao governo.

Essas disputas e tensões nas cúpulas militares também estão atravessadas pelos os interesses pessoais dessa burocracia militar que enriqueceu muito com seus novos cargos nos governo, nas estatais, com a reforma da previdência de Bolsonaro que ataca os praças e privilegia ainda mais o alto comando. De conjunto, todos morderam o osso lançado pelo golpismo e depois por Bolsonaro, roeram a carne e agora veem dificuldade de soltar em meio ao fedor dos (300 mil) corpos.

O antropólogo Piero Leirner, especialista em estudos militares, publicou nas suas redes sociais alguns pontos de análise que levam a uma visão bastante distinta. Segundo ele, essas divisões seriam parte de um grande “teatro” executado pelos generais e não de divisões e tensionamentos reais, que enganariam inclusive parte da mídia e dos políticos do centrão, e a esquerda etc. Para ele, os generais mais influentes do Alto Comando, entendidos como um corpo praticamente monolítico, trabalham conjuntamente para se perpetuar no governo e se coordenam numa guerra de informação e contrainformação.

Ou seja, segundo ele, desde a ruptura do general Santos Cruz em 2019, passando pela saída de Pazuello até a demissão dos três comandantes das Forças Armadas após a demissão de Azevedo, não passam de distrações orquestradas pelo grupo que controla o do Alto Comando para esconder as suas reais intenções de, na verdade, aprofundar seu controle sobre o governo. Acusa a grande imprensa de cair nessa manipulação dos generais, e alimentar essa encenação ao apontar as intenções da “terceira via”, das declarações da alta cúpula críticas ao general Pazuello durante as últimas semanas, ou as misteriosas informações fornecidas por “generais anônimos” aos seus analistas, como parte de criar uma falsa intenção de setores do Exército de afastarem sua imagem do governo.

Uma coisa é fato, há muito de teatro em tudo isso. Os informantes anônimos da grande imprensa certamente atuam de forma coordenada com o intuito de exagerar as diferenças dos comandantes com o governo e facilitar o trabalho de se desvincular do governo Bolsonaro sem precisar entregar os cargos. Pazuello sempre permaneceu na ativa, portanto subordinado hierarquicamente às ordens do Alto Comando que é integralmente responsável pela sua condução da pandemia. Também, cada militar da ativa que ocupa cargos no governo só podem fazer isso por que foram autorizados pelos seus superiores, em última instancia por que o demissionário Pujol autorizou.

Mas estaremos mais próximos da verdade, se ao contrário da leitura de Piero vermos outro espetáculo sendo encenado. É justamente o grau de tensões dentro das Forças Armadas, do Exército e do governo que determina o espetáculo de mentiras inventadas pela grande mídia e seus “generais anônimos” (esses entes fantasmagóricos). De forma habilidosa os generais manipulam suas próprias diferenças para favorecer um ponto que é do interesse comum de todos, ou da maioria: preservar a imagem do exército e seguir dando sustentação ao governo, escondendo o máximo possível as intenções e as divisões reais que atravessam o Alto Comando e os generais da reserva.

A ideia de que os militares, em geral, estão hoje tendendo a trabalhar uma “terceira via” é um dos exageros e enganos interessados divulgados, por exemplo, por Vera Magalhães. Ao se ludibriar pelos informantes anônimos por que eles expressam muito mais os seus desejos e de setores do bonapartismo institucional de que alguma figura da centro-direita, como Dória, Leite, Huck, ou mais de extrema direita até, como Moro, se fortaleça para as próximas eleições.

Essa tensão está posta e Bolsonaro e sua ala de militares mais fiéis sabe disso, tanto que tudo indica que tentaram provocar a situação de motim policial na Bahia para impor ao conjunto dos militares um fato dado, que validasse uma intervenção federal num estado governado pelo PT (já antes, para confirmar essa hipótese, Heleno foi nomeado para o Conselho de Defesa, órgão do estado que avalia as intervenções e pedidos de estado de defesa e de sítio). Bolsonaro teve que recuar, como se expressou na retirada das postagens dos parlamentares bolsonaristas nas redes sociais. A saída de Azevedo e a renúncia coletiva dos comandos das forças armadas é mais do que uma mera operação distracionista e revela rachaduras profundas que o Alto Comando tenta minimizar.

Nesse sentido, os acontecimentos de ontem são uma medida de força e um alerta por parte de setores do Exército e das Forças Armadas para que Bolsonaro reconheça a correlação de forças e o debilitamento do seu governo e não embarque em aventuras golpistas que dividam ainda mais as forças armadas. Ainda é muito difícil de saber qual posição é hoje a que prevalece entre os comandantes militares, mas é plausível supor que no próximo período vai se desenvolver uma batalha surda pelo controle das forças armadas.

Ao contrário do que propõe Piero, é fundamental perceber as fragilidades e diferenças dentro do condomínio de militares que compõem o governo, ainda mais nesse momento em que aumentam as rusgas entre os golpistas nas Forças Armadas e o próprio Bolsonaro, pois representam um importante estremecimento nas relações internas entre os atores desse regime autoritário. É através dessas fissuras nas entre “os de cima” que os trabalhadores podem encontrar seu caminho para emergirem de fato como uma “via”, uma alternativa política própria, organizada, contra todas as alas do regime do golpe institucional: Bolsonaro, militares, STF, governadores e parlamentares. O PT busca seu lugar no interior desse regime, e Lula orienta alianças com a direita (em especial com PSDB) através dos seus governadores, como disse Gleisi Hoffmann. Através das centrais sindicais como a CUT e CTB, garantem a tranquilidade dos de baixo e permitem que conduzam o país para a pior crise sanitária, social e econômica dos últimos tempos, mostrando a docilidade que teria um eventual governo petista em 2022 frente a esse fortalecimento dos poderes autoritários dos militares, do Centrão e do Judiciário. Não podemos esperar 2022, a classe trabalhadora precisa de uma saída hoje, que varra a LSN e todos os resquícios e privilégios dos militares adquiridos nos últimos anos, batalhando pela revogação de cada reforma aprovada pelo golpismo e impondo uma nova Constituinte que mude as regras do jogo.




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