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Artes Visuais - De Marielle a Marcos Vinícius: relato do trabalho "Abrir um nome" (Parte 2)

Lina Hamdan

Artes Visuais - De Marielle a Marcos Vinícius: relato do trabalho "Abrir um nome" (Parte 2)

Lina Hamdan

Parte 2: O Material - "O pensamento dialético dá aos conceitos, por meio de aproximações sucessivas, correções, concretizações, uma riqueza de conteúdo e de flexibilidade; atrever-me-ia inclusive a dizer que lhes dá uma ’suculência’que em certa extensão os aproxima muito dos fenômenos vivos." Leon Trotski, 1940

(A primeira parte deste relato pode ser encontrada aqui.)

Da vontade de transformar em matéria memorial o nome de pessoas que fazem parte de um todo coletivo amplo, trouxe para o âmbito da pintura (que remete ao exemplar único ou de baixa reprodutibilidade, insubstituível, frágil, perfurável, cuja função é bastante questionável, de significado muitas vezes interpretativo, cujo acesso ainda remete a algo restrito a poucas pessoas) um objeto do espaço da cidade, a placa de rua, feito para ser altamente replicável, resistente, de material rígido, de comunicação precisa e rápida, direta, que não deixa dúvidas, feito para servir funcionalmente a uma quantidade incomensurável de pessoas cotidianamente.

É possível que a própria contradição material entre esses dois âmbitos seja parte das transformações de significações que o projeto desenvolveu, refletindo de maneira ambígua contradições sociais que o tema do trabalho suscita.

Todas telas foram pintadas de azul escuro - ainda que cada uma tenha sua cor particular -, semelhante às placas de Belo Horizonte, onde vivo. Após a secagem, a ideia original seria seguir o mesmo processo com todas as telas, fazendo uma "impressão artesanal" dos nomes, ação que me deixou em contato com esses mesmos nomes por um período de tempo muito longo. O processo constituía de passar fita crepe cobrindo toda a parte da frente da tela; transcrever, a partir da impressão com ajuda de folhas de carbono azul, os nomes para a fita; cortar as letras com estilete, seguindo o traçado do carbono; retirar a parte da fita crepe que compunham as letras; cobrir o nome com tinta branca (foi escolhida a técnica de encáustica fria que permite a conformação de uma grossa camada de tinta que difere da materialidade lisa e planificada das placas de rua de metal); após a secagem, retirar a fita crepe, "revelando" novamente o nome.

Os nomes escritos são verdadeiras feridas abertas do passado recente. Nomes tomados a cada nova notícia brutal. Nomes que foram noticiados com maior ou menor expansividade. A gigantesca maioria negros, jovens de origem periférica. Em sua totalidade, trabalhadores ou filhos de trabalhadores.

Porém, ao "abrir os nomes" com estilete, algumas vezes este ultrapassava o tecido, cortando-o [Penso que o metal que avança sobre a carne viva é do mesmo metal que cor as formas tipográficas]. Ao retirar pedaços da fita adesiva, é perceptível o vislumbre do nome completo, mas surgem aos olhos formas sem letra, novas proliferações que vão surgindo, multiplicando os possíveis nomes [Penso nos nomes ressurgindo nos jornais, penso nas mães que enterram seus filhos]. Quando revela-se o nome por completo, sua grafia é recoberta, velada, antes de ser revelada. Neste ato de velar, é a cor branca que recobre os nomes [A cor branca os esconde, os obscurece, lembrando o tanto que forçam por embranquecer as ruas]. Cobre-se mais um nome com tinta branca, que seca e endurece, áspera, em cima da fita adesiva também branca [A realidade é relembrada e fixada, mete-se novos nomes abaixo de matéria]. O "último" revelar exibe-se então também branco [Como nada branca é a cor da pele daqueles que foram assassinados].

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Lina Hamdan

Estudante de Artes Visuais na UFMG
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