Cultura

ARTE E MARXISMO

Arte, ideologia e a batalha cultural

O fato de Marx e Engels não terem redigido um tratado de Estética levou muitos autores marxistas a considerarem a arte um problema periférico, uma besteirinha do reino da ideologia, um detalhe superestrutural cuja influência no destino político da sociedade não passaria de um pequeno rojão que jamais poderia chegar a ser um fuzil.

Afonso Machado

Campinas

sexta-feira 25 de setembro de 2015| Edição do dia

Em contrapartida é abundante e heterogênea a gama de autores marxistas que suaram a testa no estudo sobre o papel que a arte ocupa no materialismo dialético. O problema, no entanto, não está na falta de referências teóricas (enquanto concepção filosófica o marxismo já deu provas suficientes de que o seu método responde à dinâmica histórica da arte), mas no despreparo intelectual que boa parte da militância de esquerda apresenta na hora de exercer a práxis no sentido artístico.

Se nas universidades existem alguns gatos pingados que estudam academicamente a arte sob o prisma marxista (sabe-se do clima de cerceamento ideológico que alguns intelectuais de esquerda sofrem em várias universidades), no território da crítica militante as fileiras de combate estão quase vazias. É importante que o marxismo seja estudado nas universidades: a exemplo da medicina, as pesquisas podem trazer descobertas que ajudam a dinamizar a teoria. Porém, enquanto pensamento revolucionário o marxismo não pode, a custo da sua própria envergadura política, deixar de efetivar-se seio do proletariado.

Não é difícil definir o lugar do marxismo na esfera tradicional da militância política: sindicalismo, imprensa operária, passeatas, assembleias, comícios e movimentos sociais sempre foram contextos de atuação. São nestes mesmos contextos que o militante político mede/compara seus esforços, pensa, corrige e avança teoricamente. Mas e no campo da militância artística? Como medir os resultados teóricos e práticos da batalha? Publicar artigos, estudos, poemas/textos literários em geral, promover mostras de filmes e peças teatrais, saraus, shows, intervenções em festas, são algumas das práticas recorrentes dentro da militância cultural.Entretanto, tais esforços não podem avançar esteticamente e politicamente se equívocos teóricos permanecerem.

A primeira grande tentação de muitos militantes de esquerda é restringir a obra de arte a sua dimensão ideológica. Evidentemente que o condicionamento econômico e político da arte não pode fazer com que ela exista fora da ideologia: o registro artístico exprime homens concretos; e na História das civilizações estes mesmos homens produzem visões de mundo em sociedades dividas em classes. Aliás, a própria arte não está fora da organização social do trabalho: humanizando objetos de acordo com os níveis de desenvolvimento técnico de uma dada sociedade, a atividade artística pode ser definida enquanto trabalho criador. Do ponto de vista marxista isto é inquestionável. Feita esta premissa, será que a arte limita-se apenas ao seu caráter ideológico? Como explicar o fato de obras de arte realizadas em sociedades que já desapareceram (e a arte revela as formações ideológicas destas sociedades) ainda não tenham perdido o seu poder de fogo? Como estas obras ainda não perderam o seu efeito comunicativo e logo sua capacidade de tomar de assalto os nossos sentidos? O próprio Marx disse que o grilo da arte clássica não está em compreender as suas raízes materiais na Grécia Antiga mas em explicar a sobrevivência dos seus valores em contextos históricos posteriores.

Converter as reflexões estéticas do marxismo em mero sociologismo não responde às aspirações políticas revolucionárias que a arte pode exercer hoje. A premissa de explicar a arte de acordo com o seu condicionamento histórico (e sua consequente carga ideológica) é indispensável, mas insuficiente para sacarmos as implicações comunicativas da forma artística. A pesquisa estética não é atalho para ideias objetivas, mas o resultado de uma necessidade interior. A expressão artística, fruto da necessidade, é inevitavelmente ideológica (não existe “arte pura" ou “neutra “) mas ao mesmo tempo possui um nível de autonomia que lhe reserva um sentido peculiar: a arte exprime as ideologias de uma época de acordo com uma totalidade estética, que por sua vez lhe confere especificidade na esfera da superestrutura. Em sua coerência interna a arte, sob o ponto de vista ideológico, defende a classe dominante ou promove a Revolução proletária enquanto arte, de acordo com as suas próprias “leis”.

Se o capitalismo é hostil à atividade artística, submetendo a obra de arte à constrangedora/castradora condição de objeto subordinado às leis de compra e venda, cabe ao artista militante criar imagens que possam invalidar, transgredir e denunciar esta realidade. É importante frisar que as criações envolvendo formas artísticas de oposição efetivem-se numa realidade técnica atrelada à luta operária. Exercendo a partir da sua própria constituição formal um papel revolucionário a arte não é reflexo de uma ideologia política revolucionária: o diferencial da arte está no ato de criar e não reproduzir ideias/visões. Deste modo obras de arte combativas precisam durar e não limitar-se à condição de produtos ideologizantes de momento: a consistência expressiva enraizada numa atividade livre e criadora permite que a obra se perpetue no tempo e no espaço, ultrapassando conjunturas históricas e servindo de referência para as futuras gerações.

A arte que integra-se ao movimento político revolucionário precisa ser pensada enquanto linguagem, enquanto forma de comunicação: há uma grande diferença entre a comunicação revolucionária e a comunicação alienada, ainda que o tema de uma obra de arte seja o mesmo. Quer dizer, se uma pintura ou um romance tomam por tema a miséria , não adianta idealizar a pobreza e criar trabalhadores segundo manda a cartilha ideológica. Isto seria alienante do ponto de vista comunicativo. Já do ponto de vista da comunicação revolucionária, os caminhos são inúmeros porque não obedecem a um padrão discursivo mas à exteriorização de situações a partir da subjetividade de quem cria (artistas são essencialmente criadores, o que ressalta as qualidades individuais do criador mediante sua sensibilidade e percurso pessoal) . Resumindo: para que a batalha cultural acompanhe a luta política, é preciso que exista um aprofundamento da teoria estética revolucionária.




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