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Argentina: muito ruído para seguir o mesmo rumo

Christian Castillo

Argentina: muito ruído para seguir o mesmo rumo

Christian Castillo

Veja a análise de Cristian Castillo, dirigente do PTS (organização irmã do MRT) sobre as eleições primárias (PASO) na Argentina.

Carta aberta de Cristina criticando o curso econômico. Renúncia "à disposição do Presidente" do Ministro do Interior Wado de Pedro e outros membros do gabinete e altos funcionários relacionados com a Vice-Presidenta. Supostamente vazaram áudios da deputada Fernanda Vallejos chamando Alberto Fernández de "mequetrefe", "inútil" e "peso-morto" e com outros termos semelhantes a Martín Guzmán, Santiago Cafiero e outros funcionários "albertistas", além de denunciar a política econômica “ajustadora" e, no mesmo sentido, a reforma da Previdência implementada pela Frente de Todos. Até um tweet de Rodolfo Tailhade dizendo que quem questiona Cristina sobre a renúncia dos ministros “são os mesmos que há 15 anos vêm acordando com o macrismo da CABA e dividem o bolo com Angelici pelas costas da militância”, quase repetindo a denúncia que Myriam Bregman fez tantas vezes. Por outro lado, Alberto e o hoje renunciado Biondi, obtendo pronunciamentos dos governadores, da burocracia da CGT e do Movimento Evita, que convocou e cancelou uma marcha de apoio ao Presidente na luta interna. Mas foi muita crise e minueto para terminar com uma mudança de gabinete claramente orientada à direita. Apenas colocar a seta do lado esquerdo antes de seguir decididamente na direção oposta.

Os que foram acusados ​​de serem responsáveis ​​por uma política econômica que teria sido a causa da derrota eleitoral seguem todos em seus lugares, um claro sinal de que o roteiro de acordo com o FMI em troca de ajuste perpétuo se mantém incólume. Do Chefe de Gabinete vai Juan Manzur, homem predileto dos laboratórios, especialmente de Hugo Sigman, responsável por ter feito uma menina de 11 anos parir, lenço azul se houver e com excelentes relações com a direita israelense. O homem que Cristina afirmou ter proposto para esse cargo em sua carta aberta e que foi o organizador dos votos peronistas que permitiram a Macri aprovar sua reforma previdenciária, enquanto dezenas de milhares a enfrentávamos nas ruas. Ao Ministério da Agricultura, Julián Domínguez, amigo das patronais agrárias, do Vaticano e da maior burocracia sindical mais mafiosa, como a do SMATA. Sabina Frederic, a ministra "progre", deixa o Ministério da Segurança, substituída por Aníbal Fernández, aquele que, sendo ministro do Interior de Néstor Kirchner, disse poucas horas depois de seu desaparecimento que Julio López "tinha ido para a casa de uma tia". Orquestrador das insólitas denúncias e perseguições contra o “Pollo” Sobrero e Pino Solanas, acusando-os de terem organizado a queima de trens na ferrovia Sarmiento, protagonizada por usuários indignados com as deploráveis ​​condições em que viajavam. Chegaram a prender o dirigente da União Ferroviária de Haedo por essa causa absurda, impulsionado por este "duhaldeano [1] de paladar sombrio", como ele mesmo se definiu em algum ocasião, também incluso entre os responsáveis ​​políticos pelo assassinato de Darío Santillán e Maxi Kosteki, quando disse que “os piqueteros se mataram”, à direita o Clarín, que disse “a crise causou duas novas mortes”. Aquele que nos chamou de "esquerda sinistra". Talvez ao ver tantos nomes amigos, Miguel Pichetto (lembre-se, chefe da bancada peronista no Senado durante os doze anos de governos kirchneristas) esteja arrependido de ter saído com Macri: foi um disco cantado nesse novo gabinete. O tipo humano é o dos que foram menemistas, duhaldistas, kirchneristas, alguns também massistas ou randazzistas, e com Macri "pintaram-se de amarelo", e somente alguns poucos, como o próprio Pichetto, não voltaram ao redil com a Frente de Todos. O resto das mudanças são nomes secundários.

Uma tentativa de superar a crise refugiando-se no peronismo mais senil, com lideranças vinculadas a diversos fatores de poder, talvez com a expectativa de recuperar parte do voto perdido de Sérgio Massa, mas sobretudo com a intenção de evitar perder o poder diante da eleição de novembro e tentar evitar que o descontentamento nas urnas chegue às ruas. E se chegar, o conjunto Aníbal-Berni está aí para enfrentá-lo. Embora nos próximos dias provavelmente haja um anúncio para tentar aliviar alguns dos bolsos daqueles que protestaram em 12 de setembro com seu voto ou não, o que está se delineado é um governo como uma expressão clara de "partido da ordem" mais do que como “partido da contenção”, apoiando-se nos governadores que, como a própria Vice-presidenta admitiu na cerimônia de encerramento da campanha em La Plata, votaram tudo em Macri. Uma tentativa de afastar o "fantasma de De la Rúa", após as primárias fazerem ouvir algo de "que se vayam todos"(fora todos). O eclipse da "primavera albertista", como Fernando Rosso dizia ironicamente em uma troca. Para se fartar de novo com sapos, os "progressistas" que se iludiram com Alberto! (O que estava na lista de Cavallo, andava com o Clarín, estava com Massa e Randazzo ...) e eles apenas ousaram falar em ajuste quando "o patrão" os autorizou ... Ou justificaram a repressão em Guernica nas redes sociais , a vacinação VIP ou a foto dos “clandes” de Olivos. "Corra, Trosko, estamos indo para a direita", podiam twittar agora. Aqueles que sempre pensam que para garantir a “governabilidade” é preciso girar à direita e depois justificar que mudanças progressistas não podem ser feitas porque “a relação de forças não permite”.

A verdade é que, para além da direitização do gabinete, persiste a causa estrutural que motivou a derrota eleitoral de 12 de setembro e a subsequente crise governamental, prevendo que será difícil para o governo recuperar algo até novembro: a incompatibilidade entre legitimar e pagar uma dívida ilegal, ilegítima e fraudulenta e "encher a geladeira dos argentinos e das argentinas", promessa eleitoral que cimentou a vitória da Frente de Todos em outubro de 2019, depois de quatro anos de terror do governo Macrista. A crise terá novos episódios.

A dura derrota eleitoral do governo

No domingo, 12 de setembro, aconteceu algo que, embora na contramão da maioria das pesquisas e do que os próprios membros do governo esperavam, que festejavam a partir de bocas de urna que supostamente lhes davam como vencedores, era previsível, apenas encoberto pela relativa passividade social favorecida tanto pela campanha eleitoral quanto pela direção do movimento de massas. O descontentamento, a decepção ou a revolta, que qualquer um podia perceber em amplos setores da população, foram expressos com contundência nas urnas ou na decisão de não votar, já que o voto de 67% do total de eleitores foi o mais baixo de todas as eleições desde 1983 até o momento. Embora seja difícil saber exatamente, diferentes analistas apontaram que, na Província de Buenos Aires, dois em cada três ausentes eram votantes anteriores da coalizão governista. A Frente de Todos perdeu cerca de 4 milhões de votos em comparação às primárias de 2019 [2] e só foi vencedora em 6 dos 24 distritos do país. Na Província de Buenos Aires, só venceu em uma das oito seções eleitorais, e mesmo na que venceu, a terceira, por uma diferença muito menor do que o resultado de dois anos atrás. Já os municípios de Buenos Aires, prevaleceram em 22 de 135. A oposição nucleada em Juntos por el Cambio [3], por sua vez, embora tenha prevalecido nacionalmente tanto em votos absolutos quanto em 16 distritos, não teve um crescimento expressivo de votos em comparação com dois anos atrás e também está atravessada por disputas internas entre aqueles que representam uma linha mais "centrista" e aqueles que ocupam posições de "extrema direita". As primárias não definiram um vencedor claro nesse terreno, já que na Província de Buenos Aires o resultado de Juntos estava ligado à boa escolha do candidato do radicalismo, Facundo Manes, que, embora tenha perdido para Diego Santilli (também expressão de "centrismo" larretista [4]) venceu em 4 das 8 seções eleitorais provinciais e obteve 40% dos votos na interna. Em CABA, por outro lado, embora a larretista María Eugenia Vidal tenha vencido as primárias, os chamados “falcões” (como Patricia Bullrich e o próprio Mauricio Macri) foram incentivados pela soma dos votos obtidos por Ricardo López Murphy, dentro da coalização, e o ultradireitista Javier Milei, que com lista própria obteve quase 14% dos votos. Portanto, apesar da frouxa vitória da coalização de Macri, se as diferentes listas que competiram nas Primárias forem somadas, a celebração da coalizão de oposição estava longe de ser exuberante. Junto com isso, a partir da Frente de Izquierda Unidad, obteve-se a maior votação em primárias, tornando-se a terceira força nacional. Se somarmos os quase 1.100.000 votos da FITU aos das outras forças da esquerda anticapitalista e socialista que se apresentaram às eleições, são cerca de 1.500.000 os recebidos pelas forças de esquerda nessa eleição. Daí a unilateralidade de quem apresenta os resultados como uma expressão de uma direitização geral do eleitorado, algo que não corresponde aos fatos. Se os resultados expressam uma derrota clara e avassaladora do governo, o “castigo" não teve uma única expressão nem um único beneficiário. Ainda que expresse uma certa recomposição de Juntos Por el Cambio após seu desastroso governo, também mostram tendências de polarização à direita (Milei) e à esquerda, bem como ao crescimento do voto em branco em algumas províncias e ao declínio da participação eleitoral que já mencionamos.

Se algo caracterizou o discurso do setor kirchnernista do governo durante a disputa interna, foi culpar o "albertismo" por tudo e encobrir o que aconteceu nesses 21 meses de governo. É que, ao contrário do que defendeu o governismo durante a campanha, o ajuste sofrido pelas massas populares ao longo da pandemia é algo que não pode ser atribuído apenas à COVID 19 ou à herança macrista, mas sim à decisão de ir a uma acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) que legitima a dívida ilegal, ilegítima e fraudulenta de US $ 44 bilhões para favorecer a fuga de capitais do governo anterior. E, de forma mais geral, o resultado lógico de formar uma coalizão com aqueles que “votaram tudo” no governo do Cambiemos, como a própria Cristina admitiu na cerimônia de encerramento da campanha da Frente de Todos, quando ainda tinham expectativas de triunfo eleitoral.

A partir da Frente de Esquerda Unidade, apontamos tanto na campanha presidencial de 2019 quanto no governo de Alberto Fernández, que validar a dívida de Macri era antagônico a satisfazer as demandas populares para recuperar o que foi perdido no governo Cambiemos. Somente quando muitos de seus eleitores permaneceram em suas casas, especialmente nos subúrbios de Buenos Aires, e outros optaram por votar na esquerda ou em outras alternativas, o kirchnerismo teve que falar publicamente sobre algo que era evidente. Mas fingindo que a responsabilidade era apenas do economista de La Plata e do presidente "mequetrefe" e "peso-morto" e que eles não haviam votado de mãos livres e defendido enfaticamente o orçamento de ajuste de Guzmán (o ratificaram duas vezes na Câmara de Deputados) e a reforma da previdência, que haviam suspendido antes da pandemia, justamente no ano em que a fórmula daria aumentos acima da inflação após a queda registrada no macrismo. Durante o debate parlamentar sobre o orçamento, Nicolás Del Caño destacava que era um projeto claramente ajustador que eliminava o IFE [5] e a partida COVID, não apenas Guzmán quando apresentou o projeto, mas também Fernanda Vallejos ou Itaí Hagman (este último pertencente ao mesmo grupo que Juan Grabois) fizeram discursos entusiasmados em defesa do orçamento que agora questionam. Até mesmo o grupo de deputados da Frente de Todos votou contra a moção da Frente de Izquierda para colocar as taxas de inflação como piso para os aumentos de pensões. É ilustrativo que um desastroso resultado eleitoral teve que mediar para que aqueles que, até domingo, 12 de setembro, nos confrontavam e nos acusavam de “fazer o jogo da direita” por afirmar que o governo estava ajustando por uma decisão política que não podia ser culpada, dada a herança macrista ou a pandemia, para que depois dissessem o mesmo como se nada tivessem a ver com o que aconteceu. Ninguém os obrigou a reprimir com 4.000 policiais sob o comando de Berni aqueles que exigiam terrenos e moradias em Guernica, para favorecer os especuladores imobiliários que querem construir um condomínio fechado com um campo de golfe incluído. Quando se aprofundou a queda dos salário real e das aposentadorias, quando a pobreza passou de 37% para 42% e a indigência de 8,6% para 11,2%, quando aumentaram a precarização do trabalho, quando ostentaram os privilégios dos servidores públicos como com a "vacinação VIP" ou o foto de Olivos, quando a própria CFK disse que o que entrava com os Direitos Especiais de Saque do FMI iria para pagar os vencimentos da dívida ao próprio fundo e não para atender às demandas populares, o que acharam? Que a classe trabalhadora e os setores populares os aplaudiriam? Isso não durou muito. Agora eles estão tentando justificar o giro à direita. “Isso é peronismo”, dizem eles para tentar conter suas críticas internas. Nós já sabemos. É por isso que o peronismo é uma experiência histórica que a classe trabalhadora deve superar pela esquerda se quisermos acabar com a dependência, o atraso e a decadência nacionais, pelas quais é corresponsável junto com as diferentes variantes da direita.

Embora com o giro à direita a crise do governo pareça fechar por cima, estrategicamente aumentam as condições para uma maior cisão entre "os representantes e os representados" que caracterizam o que Gramsci chamava de "crise orgânica", da qual há elementos que se expressaram na eleição em 12 de setembro. Entre eles, a combinação entre uma profunda crise social e a revolta e frustração de grande parte da população, que embora se expresse principalmente com o governo, tende a abarcar todo o regime político, após as sucessivas decepções que significaram tanto Macri como Alberto Fernández carrega em seu mandato. Algo que se expressa não só naqueles que não foram votar ou o fizeram em branco ou impugnaram, mas também nos elementos de polarização à esquerda e à direita que indicamos. A classe dominante sonha com um governo capaz de aplicar uma reforma trabalhista “bolsonarista”, mas debate qual seria o instrumento político mais adequado para levá-la adiante. As classes médias estão fragmentadas, com setores ligados ao comércio ou ao mercado interno que foram arruinados ou caíram fortemente durante a pandemia, enquanto as camadas mais “globalizadas”, que ainda lamentam a derrota de Macri, continuam fazendo negócios e vendo em qual variante da direita apostar. A classe trabalhadora caminha para o quarto ano consecutivo de perda salarial, que em média está perto de 30% de 2017 agora, algo semelhante aconteceu com as aposentadorias. Por sua vez, a economia, cuja recuperação não vai compensar a queda ocorrida na pandemia, continua em situação instável, com alta da inflação que voltará a ficar em torno de 50% ao ano, apesar do congelamento das taxas dos serviço público para o ano eleitoral e a bomba-relógio que significa o aumento muito importante da dívida em pesos. A brecha entre o dólar oficial e o dólar financeiro tem sido relativamente controlada (principalmente graças ao aumento da entrada de divisas em decorrência da expressiva alta dos preços das exportações agrícolas), embora em patamares elevados, podendo disparar se em novembro se repete ou amplifica a derrota eleitoral do governo ou por alguma outra fagulha “incendeie a pradaria”. Pelo que se sabe das minutas existentes, o acordo com o FMI implicará na aplicação das receitas conhecidas, a começar pela demanda pela continuidade e até pelo aprofundamento do ajuste fiscal. Assim, se o acordo for concretizado antes ou logo após as eleições de novembro, ficaria claro que o governo não tem espaço para fazer concessões qualitativas ao movimento de massas, ampliando o descontentamento de sua própria base eleitoral. E se não for fechado, as pressões do capital financeiro se multiplicarão. Além da contenção da crise nas alturas, é improvável que a deterioração do governo em relação à sua própria base continue, assim como a polarização à esquerda e à direita antecipam choques de classes de magnitude.

A eleição da esquerda e nosso desafio estratégico

Antes e depois do processo eleitoral, os meios de comunicação se ocuparam de fustigar e ressaltar o resultado obtido pelo “alt rigth” local de Javier Milei, que chegou a 14% dos votos em CABA. Previam um crescimento um pouco menor para José Luis Espert na Província de Buenos Aires, que novamente ficou, como na eleição presidencial de 2019, atrás da FITU, que foi a terceira força na PBA e também a nível nacional. O voto de Milei, promovido em conjunto com uma trupe de economistas ultraliberais pela mídia televisiva e patrocinado pelas redes e fundações da direita “trumpista”, que incluem o “bolsonarismo” e o vox do Estado espanhol, entre outros, não tem uma única fonte. Baseia-se em um núcleo duro que expressa uma radicalização de setores que haviam apostado no macrismo e consideram que este foi "brando" (soft) e não suficientemente de direita, indo desde as diferentes tribos liberais e "libertárias" até o "partido militar". Isso também inclui, como em outros movimentos semelhantes em outros países, uma reação socialmente conservadora contra o movimento feminista. Mas também conquistou um “eleitorado brando” que votou nele como forma de repudiar uma desprestigiada “casta política”, mesmo entre setores populares que são conquistados pela retórica meritocrática e estigmatizante de quem deve recorrer a planos sociais para sobreviver.

Só depois de divulgados os dados dos resultados eleitorais, a maioria dos meios de comunicação noticiou a eleição da esquerda, que já não podiam esconder, e o fato de a FITU ter permanecido como a terceira força em todo o país. Obviamente, os resultados não foram os mesmos em todas as províncias, mas o que chama a atenção é que ultrapassou 5% dos votos em vários distritos, com Jujuy com Alejandro Vilca como o ponto mais alto com quase 24%, Chubut, 9%, Neuquén com Raúl Godoy e Santa Cruz, quase 8%, CABA com Myriam Bregman, 6,22% e PBA com Nicolás del Caño, 5,2%, com altas votações em vários bairros do segundo e terceiro cordão da Grande Buenos Aires, com o símbolo que significa 8% dos votos em Presidente Perón, onde está localizado Guernica. Se os deputados tivessem sido eleitos nas Primárias, a FITU teria obtido quatro cadeiras.

Quando em 10 de março de 1850 na França, as eleições complementares no departamento do Sena, onde Paris pertence, deram a vitória ao "partido vermelho" (uma aliança do proletariado e suas organizações operárias e socialistas com a pequena-burguesia democrática) sobre o “partido da ordem” (o bloco dos bonapartistas, orleanistas e legitimistas), Marx caracterizou que “por trás do voto eleitoral estão os paralelepípedos”. Não foi por menos. A lista encabeçada por um dos condenados pela insurreição de junho de 1848, Paul La Flotte, até derrotou nas fileiras do exército o ministro da Defesa de Luís Napoleão Bonaparte. As situações não são comparáveis ​​e longe de nós qualquer visão exitosa de um resultado eleitoral em que ainda seguimos sendo minoria. Mas parafraseando Marx, poderíamos dizer que por trás do voto da Frente de Esquerda está a convicção de muitos de seus eleitores de que é preciso enfrentar o ajuste em curso e os ataques que os patrões estão preparando, em particular os diferentes projetos de reforma trabalhista. Que estão cansados ​​dos políticos do sistema e que sempre fazem os trabalhadores pagar pela crise, como aconteceu novamente durante a pandemia.

O que distingue a votação da Frente de Izquierda Unidad nas últimas primárias foi seu crescimento entre os diferentes setores da classe trabalhadora, bem como sua relação com os processos de luta no governo de Alberto Fernández. Terceirizados ferroviários e da empresa de energia em AMBA; os que lutam por terra e moradia na Província de Buenos Aires e em outros lugares do país; produtores de vinho em Mendoza; citricultores em Tucumán; trabalhadores rurais em Jujuy; trabalhadores de saúde autônomos em Neuquén e setores da comunidade Mapuche; lutadores contra a megamineração em Chubut; são apenas alguns dos muitos exemplos de quem militou na campanha e fiscalizou, às vezes com toda a família, convencendo seus vizinhos e colegas de trabalho a apoiar a FITU. Também na CABA, setores da intelectualidade e do progressismo que têm destacado a coerência da esquerda e suas figuras. À medida que os resultados se faziam conhecidos, choviam felicitações nos locais de trabalho, desde as grandes fábricas de alimentos até os jovens entregadores precários. Um voto que foi nutrido pelas diferentes camadas do movimento operário, com peso importante na juventude trabalhadora, onde a proposta de reduzir a jornada de trabalho para 6 horas sem afetar o salário para dividir o trabalho entre empregados e desempregados, com um mínimo que cobre a cesta familiar. Porque ao contrário das campanhas bizarras que predominaram no processo eleitoral, a campanha da FITU teve como foco agitar pontos-chave para a classe trabalhadora, como a redução da jornada de trabalho já mencionada ou a denúncia do acordo com o FMI e as consequências do ajuste que já está sendo aplicado, bem como da denúncia das diversas políticas extrativistas compartilhadas pelo governismo e pela oposição, nossa contribuição nacional para a crise climática planetária.

Para além do imediato e da nova luta levantada no campo eleitoral rumo às eleições de novembro com o objetivo de obter uma cadeira de esquerda anticapitalista e socialista no Congresso Nacional (o que será uma luta dura já que nenhuma posição está garantida), o desafio do nosso partido, o PTS, é utilizar o entusiasmo gerado por esse resultado para avançar na estruturação de uma força militante no seio da classe trabalhadora e nos diferentes movimentos de luta. Nossa preparação é estratégica, para os grandes combates de classe que a incipiente polarização dessas eleições parece antecipar. Para que neles estejamos à altura das circunstâncias e possamos ser um fator que permite à classe trabalhadora tomar o poder e reverter a espiral de declínio para onde a classe dominante nos conduz.

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FOOTNOTES

[1Referência a Eduardo Duhalde, presidente da Argentina durante as jornadas revolucionárias de 2002

[2A Frente de Todos perdeu 4 milhões de votos entre a PASO de 2019 e 2021, e Juntos por el Cambio ganhou mais 800 mil

[3Coalizão direitista de Macri

[4Grupo alinhado com Hugo Larreta, prefeito de Buenos Aires

[5Uma expécie de auxílio emergencial argentino
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Christian Castillo

Dirigente do PTS, sociólogo e professor universitário
Dirigente do PTS, sociólogo e professor universitário
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