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ESQUERDA FRANCESA | #Anasse2022: o trabalhador ferroviário trotskista de origem marroquina que vai concorrer à presidência da França

Em abril do próximo ano a França vai eleger um novo presidente. Anasse Kazib é um trabalhador socialista revolucionário, que espera usar o processo eleitoral para dar voz aos movimentos anti-racistas e às lutas dos trabalhadores.

terça-feira 6 de julho | Edição do dia

A França vai eleger um novo presidente em abril de 2022. Marine Le Pen, do partido de extrema direita francês, Reagrupamento Nacional (antiga Frente Nacional), está indo bem nas pesquisas. O atual presidente, Emmanuel Macron, espera ficar à frente da sua rival adotando o programa da extrema direita. Nos últimos meses, assistiu-se a uma onda de ataques do governo aos direitos democráticos em geral, e em particular aos direitos dos muçulmanos. Estes ataques estiveram combinados com reformas neoliberais que minam os direitos dos trabalhadores.

As eleições nesta antiga república burguesa podem muito bem assumir a forma de uma “escolha” entre a direita neoliberal e a extrema direita populista - um fenômeno bastante familiar nos Estados Unidos.

Nessa situação de polarização reacionária, um novo candidato anunciou sua entrada nas presidenciais. Anasse Kazib é ferroviário na Société Nationale des Chemins de fer Français, SNCF, empresa ferroviária estatal, e é também militante do Révolution Permanente, seção francesa da Fração Trotskista. Kazib se tornou conhecido em toda a França como uma voz da classe trabalhadora, tendo tido inúmeras aparições na TV debatendo com ministros do governo.

A campanha começou ontem com a hashtag #Anasse2022. O Mediapartpublicou uma carta aberta com mais de 40 militantes, artistas, atletas, sindicalistas e intelectuais relevantes em apoio à candidatura de Kazib. Isso inclui líderes das recentes lutas dos trabalhadores, como Adrien Cornet da Total oil refinery em Grandpuits e Gaëtan Gracia da indústria de aviões.

De longe, a apoiadora mais conhecida da campanha é Assa Traoré, cujo irmão Adama Traoré foi assassinado há cinco anos pela polícia. Este é um dos casos mais infames de violência policial na história recente da França, e o Comitê de Justiça e Verdade por Adama desempenhou um papel de liderança nas lutas antirracistas. Recentemente, Kazib divulgou um longo vídeo com os familiares e os amigos de Traoré detalhando os cinco anos de luta por justiça para as vítimas da violência policial.

Nos últimos anos, Kazib construiu uma reputação como lutador da classe trabalhadora. Quando os trabalhadores lutaram contra a reforma da previdência de Macron em 2019, ele era uma importante figura dirigente nas assembleias de base. Foram estas assembleias que mantiveram a luta em andamento quando os dirigentes sindicais burocráticos quiseram recuar.

O movimento dos Coletes Amarelos, iniciado em 2018 sacudiu a França, e Kazib fazia parte dos contingentes de trabalhadores que se juntaram às manifestações com os seus Coletes Laranja, roupas dos trabalhadores da SNCF.

Essas lutas operárias estiveram conectadas com movimentos antirracistas. O Estado francês tem uma longa história de colonialismo e imperialismo e, assim como nos Estados Unidos, as pessoas racializadas estão sujeitas ao terror policial e a ideologia estatal do secularismo é usada para atacar os direitos democráticos dos muçulmanos.

Nesse contexto, a candidatura de Kazib pode ser um importante impulso para as lutas dos trabalhadores negros e muçulmanos. Ele seria um dos primeiros candidatos não brancos ao cargo.

Há pouco mais de um mês, Kazib foi expulso do Novo Partido Anticapitalista (NPA) junto com outros 300 militantes. A liderança desse partido se opunha veementemente à ideia de que Kazib pudesse ser o candidato presidencial do NPA. Kazib faz parte de uma nova geração de trabalhadores que deseja construir um partido revolucionário independente.

O NPA, ao contrário, está voltado para alianças com o partido reformista do ex-ministro social democrata Jean-Luc Mélenchon, e no último fim de semana nomeou Philippe Poutou como seu candidato presidencial, o mesmo das duas últimas eleições. Embora Poutou tenha desempenhado um papel progressista no passado, ele recentemente formou uma aliança com o partido de Mélenchon para as eleições regionais. Assim, ele terá dificuldade em explicar por que os eleitores devem apoiá-lo e não Mélenchon. Sua fraqueza como candidato é ilustrada pelo fato de que, na conferência do NPA, [já sem os 300 militantes expulsos,] cerca de 45% dos delegados se abstiveram de votar nele.

Kazib e os 300 militantes excluídos do NPA começaram o processo de construção de uma nova organização revolucionária na França. O Révolution Permanente, site “irmão” do Left Voice [e do Esquerda Diário], será um instrumento dessa luta, assim como a campanha #Anasse2022. Esse deve ser um passo para conectar a tradição trotskista na França com jovens dirigentes operários e militantes antirracistas.




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