Internacional

Agronegócio capitalista e Covid-19: uma combinação mortal.

Apresentamos abaixo uma entrevista com Rob Wallace, biólogo evolutivo e autor de Big Farms Make Big Flu [ Grandes Fazendas Criam Grandes Gripes] (Monthly Review Press, 2016) sobre os perigos de Covid-19 e a responsabilidade da agroindústria. A entrevista foi realizada por Yaak Pabst, da revista Marx21 da Alemanha. Publicamos aqui traduzida para o português, uma versão resumida da mesma.

sábado 21 de março| Edição do dia

Você esteve investigando as epidemias e suas causas durante vários anos. Em seu livro Grandes Fazendas Criam Grandes Gripes procura expressar estas conexões entre as práticas agrícolas industriais, a agricultura orgânica e a epidemiologia viral. Quais são suas ideias?

RW: O perigo real de cada novo surto é o fracasso ou, melhor dizendo, a recusa oportuna de compreender que cada novo Covid-19 não é um incidente isolado. O aumento da incidência dos vírus esta estreitamente vinculado a produção de alimentos e a rentabilidade das empresas multinacionais. Qualquer um que pretenda compreender porque os vírus estão tornando-se mais perigosos deve investigar o modelo industrial da agricultura e, mais concretamente, da produção pecuária. Na atualidade, poucos governos e poucos cientistas estão preparados para fazê-lo. Ao invés disso, o que prima é totalmente o contrário.

Quando surgem novas eclosões, os governos, os meios de comunicação e inclusive a maior parte do establishment médico estão tão centrados em cada uma das emergências que descartam as causas estruturais que estão levando a múltiplos patógenos marginais a tornarem-se celebridades mundiais de forma repentina, um atrás do outro.
Quem tem a culpa?

RW: Mencionei a agricultura industrial, mas há um escopo maior. O capital está encabeçando a apropriação de terras nas ultimas matas primárias e terras agrícolas de pequenos proprietários em todo o mundo. Estes investimentos impulsionam o desmatamento e o desenvolvimento que levam a aparição de enfermidades. A diversidade funcional e a complexidade que representam estas enormes extensões de terra estão desmontando-se de tal maneira que os patógenos que antes estavam armazenados se estão estendendo à pecuária local e as comunidades humanas. Em resumo, as metrópoles, lugares como Londres, Nova Iorque e Hong Kong, devem ser considerados nossos principais focos de enfermidades.

Em relação a que enfermidades isto ocorre?

RW: Neste momento não há patógenos que estão por fora da circulação do capital. Inclusive os mais remotos se encontram afetados, ainda que seja perifericamente. O ebola, o zika, o coronavírus, a reaparição da febre amarela, uma variedade de gripes aviárias e a peste suína africana são alguns dos muitos patógenos que saem das zonas mais remotas do interior até os meandros periurbanos, as capitais regionais e, em última instância, até a rede mundial de transportes. Podem se originar em morcegos frugívoros no Congo até chegar a matar os banhistas de Maimi em poucas semanas.

Qual é o papel das empresas multinacionais neste processo?

RW: O planeta Terra em grande medida é Planeta Fazenda neste momento, tanto em biomassa como em terra utilizada. A agroindústria tem como objetivo concentrar o mercado de alimentos. Quase a totalidade do projeto neoliberal se organiza em torno do apoio às intenções das com sede nos países industrializados mais avançados para ficar com a terra e os recursos dos países mais débeis. Como resultado disso, muitos desses novos patógenos que antes estavam mantidos a distância pelas ecologias florestas de uma longa evolução estão se liberando, ameaçando o mundo inteiro.

Que efeitos tem os métodos de produção das agroindústria sobre isto?

A agricultura dirigida pelo capital que substitui as ecologias mais naturais oferece os meios exatos pelos quais os patógenos podem evoluir em fenótipos mais virulentos e infeciosos. Não se poderia desenhar uma sistema melhor para criar enfermidades mortais.

Como é isso?

RW: O crescente monocultivo genético de animais domésticos elimina qualquer barreira imunológica disponível para frear a transmissão. Os grandes tamanhos e densidades de população facilitam maiores taxas de transmissões. Estas condições de superlotação deprimem a resposta imunológica , proporciona um fornecimento continuamente renovado de pessoas suscetíveis, que é o combustível para a evolução da virulência. Em outras palavras, a agroindústria está tão centrada nos lucros que fazer evoluir um vírus que poderia matar um bilhão de pessoa se considera um risco que vale a pena.

O quê?!

RW: Estas empresas podem simplesmente externalizar os custos de suas operações epidemiologicamente mais perigosas aos demais. Desde os próprios animais até os consumidores, os trabalhadores das fazendas, dos ecossistemas locais e dos governo de todas as jurisdições. Os danos são tão extensos que se transferíssemos esses custos aos balanços das empresas a agroindústria tal como a conhecemos terminaria para sempre. Nenhuma empresa poderia suportar os custos dos danos que impõe.

Em muitos meios se afirma que o ponto de partida do coronavírus foi um “mercado de alimentos exóticos” em Wuhan. Está certa esta descrição?

RW: Sim e não. Há pistas que tem a ver com o espaço que apontam em torno desta suspeita. O rastreio dos contatos relacionou as infecções com o mercado atacadista de marisco de Hunan em Wuhan, onde se vendiam animais selvagens. A amostragem parece apontar o extremo oeste do mercado onde se guardavam animais selvagens.

Mas, quanto tempo atrás e quanto amplamente devemos investigar? Quando começou realmente a emergência? O enfoque no mercado passa por alto as origens da agricultura silvestre no interior e sua crescente capitalização. A nível mundial, e na China, os alimentos silvestres estão se formalizando cada vez mais como setor econômico. Mas sua relação com a agricultura industrial se estende mais além de simplesmente compartilhar a mesma fonte de renda. A medida que a produção industrial - porcos, aves domesticas e similares – se expande ate as matas primárias, exerce pressão sobre os manejadores de alimentos silvestres para que se adentrem mais nas matas em busca de sua matéria prima animal, aumentando o contato com novos patógenos, incluindo o Covid-19, e os infectados indiretos destes.

O Covid-19 não é o primeiro vírus que se desenvolve na China e que o governo tratou de encobrir.

RW: Sim, mas de todo modo esta não é uma excepcionalidade chinesa. Os EUA e a Europa serviram como “zonas zero” para novas influenzas também, como recentemente o H5N2 e o H5NX, e suas multinacionais e representantes neocoloniais impulsionaram o surgimento da ebola na África Ocidental e do zika no Brasil. Os funcionários da saúde pública dos Estados Unidos encobriram o agronegócio durante as eclosões de H1N1 (2009) e H5N2.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou agora uma “emergência sanitária de interesse internacional”. É correto este passo?

RW: Sim. O perigo de um patógeno desse tipo é que as autoridades sanitárias não tem o controle sobre a distribuição estatística do risco. Não temos nem ideia de como responder ao patógeno. Passamos de um surto em um mercado a infecções disseminadas por todo o mundo em questão de semanas. O patógeno poderia se queimar. Isso seria genial, mas não sabemos. Uma melhor preparação melhoraria as probabilidade de reduzir a velocidade de disseminação do patógeno.
A declaração da OMS também é parte do que eu chamo de teatro da pandemia. As organizações internacionais morreram frente a inação. Me vem a mente a Liga das Nações. O grupo de organizações da ONU sempre está com usa relevância, poder e financiamento. Mas tanta “demonstração de atividade” também poderia servir para convergir na preparação e prevenção que o mundo necessita para interromper as cadeias de transmissão de Covid-19.

A reestruturação neoliberal do sistema de saúde piorou tanto a investigação como a atenção geral dos pacientes, por exemplo nos hospitais. Qual é a diferença que poderia fazer um sistema de saúde melhor financiado para lutar contra o vírus?

RS: Esta é a história terrível, mas reveladora do empregado da companhia de dispositivos médicos de Miami que ao voltar da China com sintomas de gripe fez o correto por sua família e sua comunidade e exigiu que um hospital local fizesse testes para Covid-19. Se preucupava que sua opção mínima de Obamacare não cobriria os testes. E tinha razão. De repente se viu obrigado a pagar 3270 dolares.
Uma exigência para os EUA poderia ser a aprovação de uma lei de emergência que estipule que, durante um surto de pandemia, todos os custos médicos pendentes relacionados aos testes de infecção e o tratamento depois de um resultado positivo devam ser pagos pelo governo federal. Ao fim e ao cabo se trada de alentar as pessoas a buscar ajuda, no lugar de esconderem-se e infectar outros porque não podem pagar o tratamento. A solução óbvia é um serviço nacional de saúde – com pessoal e equipe suficientes para manejar tais emergências em toda a comunidade - para que nunca surja um problema tão ridículo como o de desalentar a cooperação da comunidade.

Assim que se descobre o vírus em um país, logo os governos de todas partes regem com medidas autoritárias e punitivas, como a quarentena obrigatória de regiões inteiras de países e cidades. Estão justificadas estas medidas drásticas?

RW: Usar um surto para fazer o teste beta do último grito da moda em como exercer um controle autocrático ideal é o exemplo de um capitalismo que está desbarrancando. Em termos de saúde pública, creio que é melhor equivocar-se por excesso de confiança e compaixão, que são variáveis epidemiológicas importantes. Sem nenhuma das duas, as jurisdições perdem o apoio de suas populações.

O sentido da solidariedade e de respeito comum é uma parte fundamental para obter a cooperação que necessitamos para sobreviver juntos a essas ameaças. A quarentenas autoimpostas com o apoio adequado – controle por parte de brigadas de bairro treinadas, caminhões de abastecimento de alimentos que vão de porta em porta, licenças trabalhistas e seguro desemprego – podem provocar esse tipo de cooperação, de que estamos todos juntos nisto.

Como você sabe na Alemanha há um partido nazista de fato, a AfD, que tem 94 assentos no parlamento. A direita nazista dura e outros grupos relacionados com a AfD usam a crise do coronavirus para sua agitação. Propagam informes (falsos) sobre o vírus e demandam mais medidas autoritárias do governo: restringir os voos e as estações de entrada dos imigrantes, fechamento de fronteiras e quarentenas forçadas...

RW: A proibição de viajar e o fechamento de fronteira são demandas com as quais a direita radical quer racializar o que agora são enfermidades globais. Isto, obviamente, é um absurdo. Neste momento, dado que o vírus esta no caminho de propagar-se por todas as partes, o sensato é trabalhar no desenvolvimento de um tipo de saúde pública resiliente na qual não importe quem seja que busque um hospital com uma infecção; tenhamos os meios para tratá-la e curá-la. Certamente, é necessário parar de saquear as terras dos povos de outros países, que geraram os êxodos na primeira instância, dessa forma podemos evitar desde sua origem que emerjam novos patógenos.

Quais seriam as mudanças sustentáveis?

RW: Para reduzir a aparição de novos surtos de vírus, a produção de alimentos tem que mudar radicalmente. A autonomia dos agricultores e um setor público forte podem freiar a devastação ambiental e a disseminação das infecções. Introduzir variedades de gado e de outros cultivos - uma repopulação estratégica da fauna silvestre – tanto a nível da exploração agrícola como no nível regional. Permitir que os animais destinados a alimentação se reproduzam in situ para transmitir as imunidades comprovadas. Conectar a produção justa com a circulação justa. Subsidiar os apoios ao preços e os programas de compras dos consumidores que apoiam a produção agroecológica. Defender estes experimentos tanto de ambas as compulsões que a economia neoliberal impõe aos indivíduos e às comunidades , como da ameaça da repressão do Estado dirigida pelo capital.

O que deveriam exigir os socialistas frente a crescente dinâmica dos surtos de enfermidades?

RW: O agronegócio como modo de reprodução social deve terminar para sempre, mesmo que somente por uma questão de saúde pública. A produção altamente capitalizada de alimentos depende de práticas que põe em perigo toda a humanidade, neste caso ajudando a desencadear uma nova pandemia mortal.
Deveríamos exigir que os sistemas alimentares se socializem de tal forma que patógenos tão perigoso não cheguem a aparecer. Para isto será necessário reintegrar a produção de alimentos as necessidades das comunidades rurais em primeiro lugar. Isto requererá práticas agroecológicas que protejam o meio ambiente e aos agricultores enquanto se produzem nossos alimentos. Em geral, devemos curar as rupturas metabólicas que separam nossa ecologias de nossa economia. Em resumo , temos um mundo a ganhar.

Tradução para o espanhol: Guillermo Iturbide, publicada noIdeas de Izquierda, Semanário Teórico do Izquierda Diario, integrante da mesma rede internacional de diários que o Esquerda Diário.




Tópicos relacionados

Coronavírus   /    Agrotóxicos   /    Agronegócio   /    Internacional

Comentários

Comentar