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Agenda cultural: GUERRA, espetáculo da A Próxima Companhia ganha versão online

Luno P.

Agenda cultural: GUERRA, espetáculo da A Próxima Companhia ganha versão online

Luno P.

A Próxima Companhia traz à cena, no espetáculo GUERRA, a cidade em disputa. Os conflitos de sete territórios percorridos pelo coletivo no centro de São Paulo se friccionam com a tragédia Sete Contra Tebas, de Ésquilo, em uma tradução contemporânea. GUERRA reúne os fragmentos, os escombros, espólios dos embates e principalmente as pessoas que formam e são a cidade de São Paulo, mas que são expressões de questões tão reais que fogem tal localização e se encontram em cada esquina das periferias de grandes metrópoles. Resultado de cerca de um ano de pesquisa do grupo pelo Centro de São Paulo, o espetáculo foi reformulado para ser apresentado online. Em junho deste ano, A Próxima Companhia começou o seu projeto de circulação do espetáculo GUERRA - uma travessia virtual. Quando inscreveu o projeto no Prêmio Zé Renato, o grupo queria expandir a discussão sobre disputa de território, apagamento cultural e outros temas sempre presentes na realidade de grandes metrópoles para outros territórios além do centro de São Paulo. O grupo levaria o espetáculo para espaços em São Miguel Paulista, Brasilândia, Bexiga, Belenzinho, Santo Amaro, Morumbi e Jaguaré.

Sete portais atravessados. Largo do Arouche, Santa Efigênia, Estação da Luz, Cracolândia, Favela do Moinho, Higienópolis e Minhocão. Sete territórios marcados por muitas fronteiras e desigualdades.

“GUERRA fala de muitos territórios e de uma realidade que se tornou ainda mais problemática desde março de 2020. Mais do que disputa de espaços, a peça continua calcada na questão humana. Partimos de questões muito particulares de algumas regiões de São Paulo para falar sobre como elas ecoam a vida do cidadão. Essas questões podem ser vistas em muitos outros locais, como o uso do crack, questões de direitos trabalhistas de prostitutas, a busca por um teto digno etc. O que falamos com GUERRA é como um modelo econômico e de sociedade atual afeta vidas humanas e esse último ano escancarou isso de uma maneira ainda mais cruel”, afirma Edgar Castro, diretor do espetáculo.

Para criar GUERRA, a Próxima partiu da tragédia Os Sete Contra Tebas de Ésquilo e foi a campo no entorno da sua sede, em Campos Elíseos (SP), ver como algumas questões que se davam na história da Grécia antiga ainda refletiam (e de que maneira) nos dias de hoje. O elenco é formado por Caio Marinho, Caio Franzolin, Gabriel Küster, Paula Praia, Juliana Oliveira e as atrizes convidadas, Rebeka Teixeira e Lígia Campos.

"Achamos interessante tomar como metáfora essa tragédia grega clássica para pensarmos quais os portões temos à nossa volta? E quais são as disputas que marcam esses territórios? Durante todo esse longo processo de pesquisa, chegamos à conclusão, inclusive revisitando constantemente a própria tragédia, onde se colocam em disputa dois grandes donos do poder, uma disputa entre reis, que do alto dessa hierarquia, assim como o povo de Tebas, não estamos na linha de prioridade desses reis, que tem como único objetivo se manter no poder. Foi isso que a gente descobriu nesses territórios. As mulheres estão gritando e eles pouco se importam. Essas disputas são sempre entre eles. Se depender do Estado, da polícia, se depender de tudo isso, nos mandarão calar a boca e pisarão em nossa cabeça", afirma Juliana Oliveira.

Em Os Sete Contra Tebas e em GUERRA - uma travessia virtual, o que se vê é a preparação para as batalhas e no espetáculo ainda mais a luta travada todos os dias em uma das maiores capitais do mundo e também uma das mais injustas. Disputa de território, preconceito, um plano de revitalização que esquece as vidas já existentes em algumas áreas da cidade, apagamento cultural, homofobia, machismo, falta de planejamento urbano e ausência de empatia são algumas das problemáticas levantadas no espetáculo.

GUERRA - uma travessia virtual tem uma dramaturgia coletiva com orientação de Victor Nóvoa, que assina a dramaturgia da versão presencial do espetáculo. A nova dramaturgia foi construída pelo grupo a partir do texto dramatúrgico da versão presencial e nos experimentos cênicos de intervenção urbana realizados nos territórios em disputa durante a pesquisa - Largo do Arouche, Cracolândia, Santa Efigênia, Favela do Moinho, Luz, Higienópolis e Minhocão. A adaptação virtual conta com a condução do elenco de forma ao vivo e ainda com trechos audiovisuais que trazem índices documentais do processo e dos territórios antes e durante a pandemia.

"O nosso processo foi longo. Foram 7 territórios, onde fizemos uma intervenção em cada território. 7 meses, 7 diretores e 7 atrizes/atores convidados. Praticamente 7 peças. No final juntamos tudo e surgiu o espetáculo Guerra. Adiamos bastante a decisão de fazer online porque o nosso espetáculo encontrou muita vida pulsante na rua, gente que vive e sobrevive ainda com alegria e afeto. Nosso espetáculo é muito presencial e exige isso, então a pergunta de como vamos conseguir transpor isso para o online ainda se coloca como um quebra cabeças que ainda estamos tentando descobrir", explica a atriz Juliana.

Na versão pandêmica e online do espetáculo, cada um dos atores assume o papel de corifeu de um dos territórios, trazendo com eles as questões que foram pesquisadas pela companhia naquela localidade, bem como suas memórias do processo.

Gabriel Küster também explica parte da atualização do texto frente a nova realidade pandêmica:

"o texto também foi atualizado. Conversamos com alguns grupos ou representantes das comunidades que visitamos no processo de criação do GUERRA para saber como eles estavam enfrentando esse período de isolamento e de políticas nada articuladas em torno do enfrentamento da Covid-19. Isso nos ajudou a trazer algumas questões para os dias de hoje”.

O cenário da montagem ao vivo trazia alguns elementos documentais coletados pelo grupo durante o processo de criação. Agora, com os atores em casa, seus espaços na tela também serão transformados com base nesses elementos da travessia na cidade, ajudando o público a se localizar em cada um dos territórios abordados por meio dessa ambientação.

Em meio ao governo Bolsonaro e Mourão, com o avanço da crise sanitária e econômica que já chegam a marcas de mais de meio milhão de mortos, entre altas taxas de fome e desemprego, fica ainda mais nítido que entre as disputas desses "reis", nossa vida vale menos que 1 dólar e os lucros dos capitalistas.

Para mais informações, confira o site da Próxima Companhia, Facebook e Instagram.

Próximas apresentações:

De 7 a 10 de julho - Morumbi
Youtube: A Próxima Companhia
Facebook: CEU Paraisópolis
https://www.facebook.com/ceuparaisopolisoficial

De 14 a 16 de julho - Santo Amaro
Youtube: A Próxima Companhia
Facebook: Paideia Associação Cultural
https://www.facebook.com/ciapaideiadeteatro

De 21 a 24 de julho - Jaraguá
Youtube: A Próxima Companhia
Facebook: CEU Vila Atlântica
https://www.facebook.com/ceuatlantica

De 28 a 31 de julho - (Região Brasilândia)
Youtube: A Próxima Companhia
Facebook: CEU Paz
*Quarta e Sexta - 20h - Sábado - 17 horas.
https://www.facebook.com/CEUPazJardimParana

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Luno P.

Coordenador Geral do Centro Acadêmico do Teatro da UFRGS (CADi)
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