Sociedade

DESIGUALDADE DE GÊNERO NO ESPORTE

Afinal, porque as atletas ganham menos?

A disparidade salarial entre homens e mulheres nesta sociedade é um fato amplamente conhecido. E no esporte não é diferente. Além do número bem menor de atletas mulheres em relação aos homens, é comum que integrantes de uma equipe feminina tenham um rendimento financeiro muito inferior a uma equipe masculina de um mesmo esporte, e inclusive em um mesmo clube.

Zuca Falcão

Professora da rede pública de MG

sábado 6 de março| Edição do dia

Imagem: Arte do UOL.

Essa é uma realidade que cada vez mais é questionada, e os questionamentos já resultam em mudanças, ainda que modestas. E para terminar com essa desigualdade tão injusta, é preciso seguir questionando, exigindo e se colocando na linha de frente da luta pela isonomia no esporte. Para isso, é importante conhecer mais profundamente as causas desse problema, a fim de dar um combate eficiente. Entender o papel do esporte nessa sociedade e a relação disso com a atual estrutura econômica é fundamental para compreender o que está por trás da desvalorização das atletas.

O papel do esporte sofreu uma grande transformação se comparamos seus primórdios ao denominado esporte moderno – que compreende o período desde o século XVIII até a atualidade. Antes do surgimento do esporte moderno as práticas tinham um caráter de lazer e confraternização, e eram comuns entre os trabalhadores. Com o avanço do capitalismo o esporte, apropriado como um instrumento da burguesia, adquiriu um outro caráter: o da competição.

A classe dominante percebeu que introduzindo na prática esportiva o alto rendimento, poderia estabelecer sobre ela o seu domínio. O esporte deixaria de ser algo exclusivamente popular, praticado por qualquer pessoa num momento de lazer e passaria a ser privilégio de atletas profissionais, que competiriam entre si em busca de premiações e status, e o preparo desses atletas estaria condicionado ao patrocínio e investimento financeiro da burguesia que obviamente exigia seu retorno.

Mas o retorno esperado pela burguesia não se expressava somente no lucro obtido com prêmios nas competições e jogadas de marketing. Havia uma forma muito superior de aproveitar a elitização do esporte. A emergência de figuras heróicas que representassem um país, a representação nacional nas competições mundiais que além de atrair a atenção das massas enquanto distrairia das questões sociais, reforçava o sentimento de nacionalismo, tão útil para que um Estado alcance uma coesão em torno de seu projeto de exploração.

A única modalidade de esporte valorizada agora era a “profissional”, de alto rendimento, que passou a girar bilhões e bilhões em dinheiro, que coloca o lucro acima de qualquer valor, inclusive da vida, à imagem e semelhança do capitalismo. O esporte “amador” não tem mais valor. Não produz lucro nem visibilidade. O esporte agora se tornou reflexo da superestrutura econômica desta sociedade, o reflexo do capitalismo.

E uma parte fundamental do capitalismo é a exploração e a opressão às mulheres. Assim esse sistema se beneficia do mito da fragilidade feminina para controlar nossos corpos, menosprezar nossa força de trabalho e nos pagar menos, porque “damos menos lucro”. Engravidamos, cuidamos da família, não rendemos tanto quanto os homens... Essas são as desculpas para justificar o fato de ganharmos menos mesmo exercendo a mesma função dos homens.

E no caso das atletas existem algumas peculiaridades das quais o patriarcado se aproveita pra nos restringir o acesso ao esporte. Desde pequenas somos ensinadas aos cuidados do lar, não podemos estar “soltas pelas ruas” jogando bola, andando de bicicleta, skate... atividades que desde muito cedo escutamos que são perigosas ou são coisa de menino. E quantas mulheres podem ter um dia fixo da semana pra sua pelada com as amigas? Com a jornada dupla de trabalhar fora e cuidar dos filhos e da casa, ou imersa nas infinitas atividades domésticas.

Por aí já começa o filtro que afasta as mulheres e o esporte. Mas pensando pelo lado das preocupações dos Estados e da classe dominante, como seria se existissem heroínas nacionais? Se para as mulheres fosse normal dedicar a vida ao esporte e não aos cuidados domésticos? Se nossos corpos fossem empregados no atletismo e não na reprodução de mão de obra barata pro capitalismo? Como é que numa sociedade capitalista patriarcal as mulheres poderiam ter esse nível de destaque e de igualdade com os homens?

A falta de investimento e patrocínio ,os salários ridiculamente inferiores, a baixa cobertura da mídia, a decisão de não convocar mulheres para funções que elas podem perfeitamente cumprir, sob a desculpa esfarrapada de que o esporte feminino não é lucrativo, é parte de um projeto de negar às mulheres o acesso ao esporte, de manter controle sobre nossos corpos e seguir perpetuando a falsa imagem de inferioridade e de fragilidade, pra levar adiante a exploração e a opressão que sofremos.

Mas se o esporte atual é o espelho do capitalismo e da sua sede de lucro, reproduzindo fielmente as diferenças de classe e gênero da sociedade, o fim do capitalismo será o caminho para que o esporte seja novamente um direito das massas e principalmente das mulheres, que dão um show nas competições e na luta por igualdade de direitos entre os gêneros no esporte.




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