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Afeganistão: o epílogo da “guerra contra o terrorismo”

Claudia Cinatti

Afeganistão: o epílogo da “guerra contra o terrorismo”

Claudia Cinatti

Desastre. Catástrofe. Colapso. “Momento Saigon” de Joe Biden. Os termos utilizados para definir a humilhante retirada dos EUA do Afeganistão falam por si mesmos sobre a dimensão do acontecimento. A derrota não é só dos Estados Unidos, mas do conjunto da OTAN, que acompanhou com recursos humanos e financeiros a aventura militar. Os efeitos estratégicos da segunda derrota militar dos Estados Unidos nas mãos de um inimigo infinitamente mais fraco serão vistos no próximo período.

A guerra “contra o terrorismo”

A retirada caótica do Afeganistão é a primeira grande crise da presidência de Joe Biden, que vinha gozando de uma lua-de-mel relativamente mais longa graças a ter capitalizado o “anti-trumpismo” e, sobretudo, suas medidas “populistas” para sustentar a recuperação econômica e o consumo.

Biden havia garantido, há pouco mais de um mês, em uma coletiva de imprensa, que jamais iriam se repetir imagens semelhantes às do retiro de Saigon. E que o triunfo do Talibã era literalmente impossível. Segundo as fontes de inteligência citadas pelo presidente, os Estados Unidos teriam uma janela de um ano e meio de prazo entre a retirada dos 2.500 soldados que ainda permaneciam no Afeganistão e a queda de Cabul. O erro de cálculo não poderia ter sido mais grosseiro.

O Talibã tomou o controle do país com uma “blitz” de apenas 10 dias, mais devido à deserção do exército e do governo afegãos do que por sua capacidade de combate. Desde então, o presidente Biden está em modo de controle de danos. Sem a coerção militar, está usando sanções econômicas, como o bloqueio do acesso às contas do governo afegão na Reserva Federal ou a retenção de fundos do FMI para negociar com o Talibã. Ainda há milhares de norte-americanos e pessoas de outros países da OTAN para evacuar, sem mencionar a massa de afegãos que colaboraram com a ocupação militar desesperados para fugir do Talibã, sabendo que muito poucos conseguirão.

É verdade que Biden não é o único pai da derrota, mas é quem deverá assumi-la. A “guerra contra o terrorismo” foi ideia de George W. Bush e da ala neoconservadora de seu governo, que se propôs a superar com uma estratégia militarista e unilateral o declínio hegemônico norte-americano, justificada pelos atentados terroristas contra as Torres Gêmeas de 11 de setembro de 2001.

O experimento neoconservador de “mudança de regime” se pôs em marcha primeiro na guerra no Afeganistão, e depois com a invasão e ocupação do Iraque e a derrubada de Saddam Hussein, uma “guerra de eleição” baseada na mentira das armas de destruição massiva. Logo demonstrou que era uma armadilha estratégica que colocava os Estados Unidos no dilema de escalar sua presença militar para apoiar os regimes fantoches da ocupação, ou retirar-se deixando o caminho livre para a reorganização de forças hostis aos interesses norte-americanos.

No sentido histórico, o fim já estava escrito. No manual de estratégia militar, guerras e ocupações neocoloniais como a do Afeganistão e Iraque pertencem à espécie de “guerras invencíveis”.

Barack Obama assumiu prometendo acabar com essas guerras, mas terminou aumentando a presença militar no Afeganistão (sob seu mandato chegou a haver no país 100 mil soldados norte-americanos), a qual considerava a “guerra boa”. Ele encenou a caça a Bin Laden, morto a tiros por forças de elite em um modesto complexo nos arredores de Abbottabad, Paquistão, em 2011. E ficou famoso pelo uso generalizado de drones e por ter expandido a intervenção militar disfarçada de “intervenção humanitária” para outros países do Oriente Médio, como a Líbia. Também sob sua presidência se viu forçado a combater o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, um produto direto da intervenção dos EUA no Iraque. Ele foi o iniciador do “pivô” da Ásia-Pacífico para conter a China.

Sob a consigna de “America First”, Donald Trump iniciou as negociações com o Talibã em Doha, no Catar, para as quais o governo afegão nem sequer foi convidado. Contra a política “internacionalista” dos neoconservadores, Trump voltou à doutrina da intervenção apenas no caso de o interesse nacional imperialista estar estritamente em jogo, o que na verdade significava acelerar a retirada dos Estados Unidos do Afeganistão e privilegiar alianças com Israel e Arábia Saudita no Oriente Médio, para concentrar-se na preparação para o conflito entre grandes potências, em particular com a China e a Rússia, que passou a ser a prioridade da estratégia de segurança nacional. Com o mesmo objetivo, o presidente Biden fixou o prazo para a presença dos Estados Unidos no Afeganistão no 20º aniversário do 11S.

O balanço em números é catastrófico. Ao todo, sustentar a guerra e os 20 anos de ocupação militar no Afeganistão custou aos Estados Unidos cerca de US$ 2 trilhões. De acordo com o Pentágono, cerca de 775.000 soldados norte-americanos lutaram durante esse período, dos quais 2.448 morreram e outros 20.600 ficaram feridos. Às vítimas se somam cerca de 4.000 contratantes privados e 1.144 soldados de outros países da OTAN. Quem levou a pior foram os afegãos, com cerca de 60.000 mortos entre as forças armadas e de segurança e cerca de 47.245 civis, segundo estimativas conservadoras, que são os “danos colaterais” dos bombardeios imperialistas.

Realinhamentos geopolíticos

A retirada do Afeganistão reacendeu a crise dentro da OTAN, que ficou evidente na reunião de emergência da Aliança Atlântica para fazer um primeiro balanço do fracasso da missão no país asiático. Os aliados europeus esperavam que com a chegada de Joe Biden à Casa Branca se superasse a hostilidade dos quatro anos da presidência de Trump. Mas se encontraram com um fato consumado, apesar de terem comprometido tropas e recursos na ocupação do Afeganistão. Países como França e Grã-Bretanha enviaram suas próprias equipes para resgatar seus cidadãos presos em Cabul. Não seria surpreendente se o desenlace afegão aprofundasse as tendências divergentes entre as potências europeias e os Estados Unidos.

No nível regional, o resultado da guerra no Afeganistão está reconfigurando o quebra-cabeça geopolítico, com a intervenção ativa de China, Rússia, Irã e Paquistão buscando aproveitar o vácuo deixado pelos Estados Unidos para fazerem avançar seus interesses. Irã e Rússia, historicamente hostis ao Talibã – ambos com aliados nos bandos da Aliança do Norte que lutaram – celebraram a derrota norte-americana e se mostraram abertos ao diálogo.

O Paquistão tem vivido o triunfo do Talibã como sua própria vitória, embora dependendo do curso que os eventos no Afeganistão possam tomar, ela pode se transformar em uma vitória pírrica se os grupos islâmicos extremos que têm perpetrado ataques terroristas brutais no território paquistanês forem fortalecidos.

Nas últimas décadas, o Paquistão manteve um equilíbrio instável entre a relação com os Estados Unidos e o apoio semiclandestino de seus serviços de inteligência (ISI) e do aparato militar ao Talibã, que surgiu nas madrassas paquistanesas (escolas islâmicas) como uma fração islâmica radical dos mujahidin que lutaram contra a União Soviética. O Paquistão serviu de refúgio para Bin Laden quando ele teve que fugir do Afeganistão. E também recebeu a direção do Talibã que se instalou em Quetta, na província do Baluchistão. As boas relações com a China deram-lhe mais margem de manobra. O interesse do Paquistão é ter um regime amigo no Afeganistão que lhe permita “profundidade estratégica” diante de uma eventual escalada do conflito com a Índia, que vê com preocupação a retirada dos EUA.

Depois do Paquistão, o mais importante para o Talibã é a relação com a China, que, como era de se esperar, saudou a derrota dos EUA nos editoriais da Global Times, não tanto pela importância do Afeganistão, mas porque tomou isso como uma demonstração da falta de vontade dos Estados Unidos de se envolverem em um eventual conflito em Taiwan. Em 28 de julho, antecipando o que já parecia um fato, a China recebeu uma delegação do Talibã liderada pelo líder máximo do movimento, Abdul Ghani Baradar. Para a China, que compartilha de uma estreita fronteira com o Afeganistão, pode ser a porta de entrada para as repúblicas da Ásia Central, por meio de sua incorporação à Iniciativa Cinturão e Rota. Além de fornecer recursos naturais, em especial as chamadas terras raras, essenciais para as indústrias de telecomunicações e tecnologia. Em troca de benefícios econômicos e investimentos, a China exige que o Talibã não intervenha no conflito interno que o regime do Partido Comunista mantém com os uigures, a maioria muçulmana da província de Xinjiang. A aposta é arriscada e incerta, porque depende em grande parte da estabilização do Afeganistão, que hoje parece estar em uma perspectiva distante.

As contradições do Talibã

O Talibã levou apenas dez dias para desmantelar o regime fantoche instalado pelos EUA em Cabul. O exército afegão, uma força de cerca de 300.000 homens na qual o Estado norte-americano investiu nada menos do que cerca de 88 bilhões de dólares, não ofereceu nenhuma resistência. De acordo com os “Afghanistan Papers”, uma investigação realizada pelo jornalista Craig Whitlock, o exército afegão tinha cerca de 45.000 soldados fantasmas, que só existiam como nomes na folha de pagamento para cobrar seus salários e distribuir o saque entre chefes e funcionários. O Talibã avançou cidade por cidade, negociando a rendição com líderes tribais e chefes locais, e em menos tempo do que canta um galo, o regime de ocupação simplesmente implodiu. As razões são múltiplas. Conforme explica o historiador e conselheiro do comando militar no Afeganistão, Carter Malkasian, em seu livro The American War in Afghanistan. A History, a ocupação estrangeira foi contra a identidade nacional. Embora sua história seja escrita de um ponto de vista imperialista, ele admite que em última instância os Estados Unidos causou danos prolongados aos afegãos, não por razões “humanitárias”, mas apenas para se defenderem de outro ataque terrorista.

A situação no Afeganistão é mais do que fluida. Após o choque inicial, alguns dos rivais internos do Talibã parecem estar se reagrupando. Houve algumas mobilizações contra ele em Cabul e outras cidades como Jalalabad. E embora sua autenticidade seja difícil de comprovar, tem-se registrado incidentes não conectados que envolvem forças anti-Talibã, incluindo a reorganização da Frente de Resistência Nacional, um dos rivais históricos do Talibã, no Vale Panjshir. Enquanto isso, outros optaram por uma política de negociação, incluindo o ex-presidente Hamid Karzai e outros funcionários de governos de ocupação militar que têm mantido reuniões com o Talibã na esperança de formar um governo de transição.

O fato de que uma semana após entrar no palácio presidencial o Talibã ainda não proclamou o “segundo emirado” (o primeiro governou entre 1996 e 2001) é um indicador de que eles não têm unidade interna nem controle militar suficiente para disciplinar as múltiplas frações armadas, senhores da guerra e líderes de grupos étnicos minoritários, com os quais disputam porções do poder local e também o controle de negócios importantes, como a produção de ópio. Essas mesmas linhas de fragmentação são as que determinaram os múltiplos bandos da guerra civil do início da década de 1990.

Até agora, o Talibã tentou dar uma imagem de “moderação” em relação às atrocidades do primeiro emirado de 1996-2001. O objetivo é antes de tudo tentar evitar se tornar párias antes mesmo de se consolidar no governo e se estabilizar. Mas de acordo com o jornalista Ahmed Rashid (autor de vários livros sobre o movimento Talibã), há uma divisão entre a geração mais velha dos fundadores, que se exilaram no Paquistão e exercem liderança política, e uma nova geração de líderes militares locais, muitos dos que foram presos em Guantánamo e outras prisões clandestinas, que têm uma visão mais radicalizada.

Nesse marco, uma das hipóteses de conflito de onde poderiam emergir as forças por uma saída progressiva para o povo afegão é a resistência das mulheres. Uma coisa é certa: a emancipação das mulheres afegãs não virá das mãos do imperialismo, mas de sua luta independente ao lado da classe trabalhadora. Como Tariq Ali disse em uma nota recente, citando uma feminista renomada, “as mulheres afegãs têm três inimigos: a ocupação ocidental, o Talibã e a Aliança do Norte. Com a saída dos Estados Unidos, disse, terão dois”.

Efeito Vietnã?

Na analogia entre a derrota norte-americana no Vietnã e o desastre do Afeganistão, as diferenças prevalecem. Há duas que são fundamentais e que explicam em grande parte a recuperação relativamente rápida dos Estados Unidos, que 15 anos depois da fuga de Saigon, com sua vitória na Guerra Fria, iria conquistar uma década de hegemonia unipolar. O primeiro é a decadência da União Soviética. E o segundo foi o acordo de 1972 com a China, que foi o que em última instância permitiu o relançamento neoliberal do imperialismo norte-americano.

Hoje esses elementos não existem. A convergência entre o declínio norte-americano e a ascensão da China é o principal problema estratégico dos Estados Unidos. A grande discussão do establishment imperialista, que mais uma vez mostrou suas fissuras com a crise da retirada do Afeganistão, é se a imagem da fuga acabará incentivando não só as aventuras de grupos terroristas, mas também dando confiança a potências rivais.

O cartão-postal do aeroporto internacional de Cabul, com centenas de afegãos desesperados pendurados nos trens de pouso de aviões norte-americanos, já é uma marca registrada da presidência de Biden, assim como a tentativa fracassada de recuperar a embaixada americana em Teerã foi a de Jimmy Carter e a evacuação do Vietnã foi a de Gerald Ford.

A nível internacional, os efeitos da derrota imperialista no Afeganistão são duplos. O primeiro, que expôs a enorme hipocrisia das “intervenções humanitárias” como disfarce para as guerras imperialistas. Isso aponta claramente a organização feminista afegã RAWA (Associação Revolucionária de Mulheres do Afeganistão), que clama por enfrentar o Talibã e os “senhores da guerra” desde uma posição claramente anti-imperialista. O segundo é que se reatualizou a conclusão do Vietnã: que os Estados Unidos não são invencíveis, apesar de sua enorme superioridade militar. E isso é algo que tem importância estratégica para as lutas de todos os trabalhadores e povos oprimidos do mundo.

Tradução: Angelo Delazeri.

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Buenos Aires | @ClaudiaCinatti
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